Durante 174 anos, a história da fundação de Imperatriz foi reconstruída a partir de relatos, memórias e documentos produzidos anos depois de seu nascimento. A primeira narrativa historiográfica conhecida sobre a origem da povoação foi publicada pelo historiador maranhense César Augusto Marques, em 1869, cerca de 17 anos após a fundação, tornando-se referência para os estudos e publicações que se seguiram. Faltava, contudo, um testemunho contemporâneo aos acontecimentos, capaz de revelar, com a força da escrita, como tudo realmente começou. Sabia-se que, em 16 de julho de 1852, Frei Manoel Procópio do Coração de Maria havia estabelecido às margens do Tocantins a missão que daria origem à Povoação de Santa Teresa e, mais tarde, à cidade de Imperatriz. O que permanecia desconhecido era o caminho percorrido até aqueles dias decisivos.

Agora, pela primeira vez, uma carta escrita em 21 de agosto de 1852, apenas 36 dias após a fundação da povoação, permite acompanhar os passos do missionário e conhecer a primeira notícia oficial sobre o nascimento de Imperatriz.
O documento foi localizado graças à pesquisa desenvolvida pelo Memorial da Paróquia Santa Teresa D’Ávila, em parceria com o Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz e os pesquisadores Antônio Carlos Freitas, Ribamar Silva e Francisco Vieira. Contou-se ainda com a valiosa colaboração do membro do IHGI Fernando Cunha. A carta representa um dos mais importantes registros primários já encontrados sobre a origem da cidade.
Nela, o comandante da Colônia Militar de São João do Araguaia, Constâncio Dias Martins, comunica ao presidente da Província do Pará que, no dia 24 de junho de 1852, chegaram àquela colônia alguns indivíduos interessados em buscar Frei Manoel Procópio para habitar na nova povoação de “Laginhas”, grafada com G, conforme a ortografia da época. Atualmente, o termo seria escrito “Lajinhas”, referência às formações rochosas planas e contínuas existentes no leito dos rios, conhecidas também como lajedos. O topônimo já era conhecido dos navegantes e exploradores do Rio Tocantins e aparece, por exemplo, na obra Compêndio das Eras da Província do Pará, publicada em 1839 por Antônio Ladislau Monteiro Baena, que situava as Laginhas entre a praia do Embiral e a Cachoeira de Santo Antônio. A região, portanto, já era conhecida pelo missionário carmelita antes da fundação da povoação.
No dia seguinte, 25 de junho, o missionário partiu de São João do Araguaia levando consigo um soldado cedido pelo comandante. A viagem rio acima, pelas águas do Rio Tocantins, durava cerca de cinco dias em canoa, conforme registra o próprio Constâncio Dias Martins. O percurso conduziu o pequeno grupo até a região conhecida pelos navegantes como Laginhas, situada entre o Campo dos Frades (atual município de Cidelândia) e a Cachoeira de Santo Antônio. Foi nesse lugar que, poucas semanas depois, em 16 de julho de 1852, a região de Laginhas transformou-se oficialmente na Povoação de Santa Teresa, marco inicial da história de Imperatriz.
A carta também revela que, apenas quatro dias após a fundação da povoação, em 20 de julho de 1852, Frei Manoel Procópio enviou uma requisição pedindo reforço de soldados, embarcações, armas e munições. O pedido demonstra que a fundação da povoação exigia organização, proteção e infraestrutura, contrariando a ideia de que tudo ocorreu de forma improvisada.
O comandante informa que recebeu essa requisição no dia 24 de julho e, já no dia seguinte, 25 de julho, providenciou o envio de mais três soldados, das embarcações, das armas e dos demais materiais solicitados. Não satisfeito em apenas atender ao pedido, fez questão de acompanhar pessoalmente a expedição e visitar a recém-fundada povoação.
Seu relato é revelador. Registra a impressão de quem testemunhou o nascimento do novo povoamento. Ao encerrar seu relatório ao presidente da Província do Pará, Constâncio Dias Martins deixou aquelas que são, até o momento, as primeiras palavras oficiais conhecidas sobre a fundação de Imperatriz:
“O lugar que foi escolhido para povoação pelo R.º Missionário não pode ser melhor do que é, pois apresenta uma vista mais agradável, campos férteis e ótimos para criação […] a sua retaguarda; sua mata é abundante de boas madeiras de construção; acho que nada resta a assegurar, que mui breve terá V. Ex.ª de receber notícias de seu progresso.”
A carta de Constâncio Dias Martins amplia significativamente o conhecimento sobre os primeiros dias da fundação de Imperatriz, mas também suscita novas perguntas. Nela, o comandante informa ter recebido uma requisição de Frei Manoel Procópio datada de 20 de julho de 1852, apenas quatro dias após a fundação da povoação. Esse manuscrito, até o momento não localizado, poderá revelar novos detalhes sobre os primeiros desafios enfrentados pelo missionário e sobre a organização da nascente comunidade. O que mais teria relatado Frei Manoel Procópio naquela carta? Por ora, sabe-se que foi por intermédio do relatório encaminhado por Constâncio Dias Martins ao presidente da Província do Pará, Fausto Augusto de Aguiar, que o governo provincial recebeu a primeira notícia oficial da fundação da nova povoação.
Durante 174 anos, essa carta permaneceu em silêncio. Hoje, ela volta a falar, acrescentando novos elementos para compreender a história da fundação de Imperatriz e iluminando, com a força dos documentos, um dos capítulos mais importantes da origem da cidade.
SOBRE OS AUTORES:
ANTÔNIO CARLOS SANTIAGO FREITAS – Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Maranhão, coordenador do Memorial da Paróquia Santa Teresa D’Ávila e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz (IHGI).
FRANCISCO CHAGAS VIEIRA LIMA JÚNIOR – Procurador do município de Loreto-MA, autor da obra “O último sertão: origens da ocupação sudoeste maranhense”.
JOSÉ RIBAMAR SILVA DE SOUSA – Membro da Academia Imperatrizense de Letras (AIL), autor de mais de vinte obras publicadas e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz (IHGI).