quinta-feira, 13 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #78 – A MORADA DOS SOBREVIVENTES (Gabriela Araújo)

Publicado em 25 de julho de 2026, às 7:50

CAPITULO 5

Vicente Gilhães, o corajoso

Dentre os sete irmãos Vicente sempre fora o mais sonhador, vivia distraído e era corrigido por causa disso pela família e vizinhos, mas tinha em seu jeito gentil algo cativante, fora eleito pela vila o mais querido dos Gilhães. Após dois meses da transformação de Átila, abordou sua mãe sentada na varanda declarando saber a causa dos infortúnios de seus irmãos.

—    Meus irmãos queriam viver da maneira errada, minha velha.

—    E desde quando existe uma receita de como viver, Vicentinho?

—    Exatamente, não existe! Daí que vem o problema, entendes?

Dona Anaya não entendia metade dos diálogos que tinha com o filho, mas sempre culpava sua idade, que estava piorando seu entendimento dos jovens, só não desconfiava de que ela não era a única. A reputação excêntrica do filho já andava longe, conhecido por andar descalço com as calças dobradas no joelho, saía distribuindo comida entre os moradores da vila, ganhava dinheiro consertando ventiladores e vendendo bijuterias feitas de penas. Nos fins de tarde, sentava nos bancos à beira do rio e olhava o horizonte por horas, quando em casa rodopiava pelos cômodos ao som alto do rádio, puxando dona Anaya para o embalo.

Durante um de seus passeios, parou no centro da praça e se declarou superintendente das coisas essenciais da vila, ele cuidaria das necessidades reais dos moradores, ele tomaria o rumo diferente dos seus irmãos, não trabalharia em prol de sua própria felicidade, e sim da felicidade geral, pois pensava que, se a vila toda fosse feliz, a felicidade se espalharia com o ar. Iniciou seu trabalho na manhã seguinte, recitando em voz alta a quem passasse por ali todas as novas medidas essenciais que passara a noite toda elaborando.

—    A partir desse instante, não, a partir de agora! Como posso explicar…? Sabe quando a gente tem que…… não. Vocês sabem, quer dizer, vocês entendem sobre as necessidades… Esperem, eu me expressei mal, vou recomeçar. – E assim, qualquer pessoa que se dispôs a entender o que Vicente queria dizer fracassou, pois o discurso não melhorou, tampouco se tornou compreensível.

Ao observar que suas medidas não começariam a ser executadas, Vicente se viu frustrado, sentia que falhara com sua existência já que seus irmãos tiveram sucesso em expressar o que queriam, pelo que viveriam e morreriam, mas ele até agora se sentia como uma folha sendo levada de um lado a outro, não conseguia optar sobre que caminho trilhar nem conseguia fazer as pessoas ao seu redor lhe dizerem, não servia muito para a vila nem para ele próprio. Ele desejava ter nascido noutra época, uma onde ele pudesse ter mais tempo antes que o mundo acabasse, onde a crueldade, doenças e pragas fossem no mínimo menores.

—    E por acaso você pensa que já houve alguma época assim, meu filho? Se as pessoas não reconheceram nem quando o Amor em Pessoa pisou na Terra — Respondia Dona Anaya ao lamento do filho.

—    Você serve muito para mim só por estar respirando, Vicentinho. – Declarava Dona Anaya buscando oferecer consolo. -Algumas pessoas vêm ao mundo para reorganizar a casa, que está fora de ordem. – E, ao ouvir a mãe falando, lhe ocorreu um estalo.

—    Exatamente isso, meu doce, querida e amada velhinha, eu tenho que colocar a casa em ordem.

E assim uma jornada de reformas, consertos e pinturas se deu na vila pelas mãos de Vicente. A praça da cidade, antes marcada com sangue, foi replantada e pintada, brinquedos construídos e colocados para as crianças, ele colocou-se à disposição de todos os moradores para ajudar com qualquer incumbência. Sua rotina se tornou corrida, ele era requisitado por muitos, muitas vezes ao dia, para agilizar sua locomoção montou uma tenda na praça da cidade, comprou um jumento para se transportar para seus compromissos e aderiu a uma vara de madeira para auxílio, um chapéu de caça para se proteger do sol, botas de galocha para se proteger de cobras e lamas.

A vila logo veria essas ferramentas como arranjos constituintes da vestimenta de herói de Vicente, que nesse meio tempo ajudou animais a darem à luz, enxotou a vara um marido que queria agredir a esposa, ajudou na reforma da igreja e da escola da vila. Vicente logo descobrira que, para realizar obras importantes, não necessitava de falatório, foi assim que se tornou figura respeitada por todos, dona Anaya se permitia deixar a tristeza algumas horas do dia para sentir orgulho do filho, Vicente estabeleceu moradia em sua tenda na praça, onde dormia tranquilo todas as noites recitando antes de dormir:

—    Pelo menos, de todos os males ocorrendo agora no mundo, nenhum é por minha causa.

Certa manhã, ao sair para cumprir sua agenda de contribuições, Vicente passou em frente ao rancho Rochedo e avistou a jovem esposa do oficial Custódio Rochedo grávida, pelo tamanho da barriga dava para notar que a criança devia estar perto de nascer, encher com dificuldade um balde no poço. Descendo de seu jumento, andou em direção à propriedade para oferecer ajuda, e antes que a mulher pudesse responder interveio, tomando o balde de sua mão, esperava ouvir agradecimento, mas ao invés disso notou uma expressão séria e uma postura tensa por parte da senhora. Quando terminou de encher, se pôs a caminhar para casa, mas foi impedido pela senhora de continuar

—    Daqui em diante eu aguento, Senhor.

—    Não é necessário modéstia, dona, ainda tem um morro daqui para sua casa para enfrentar – Ao deixar o balde com água na porta da casa, desejou boa tarde para a senhora, deu meia volta e seguiu para sua montaria para seguir o percurso planejado para aquele dia.

O rancho rochedo se encontrava no limite da vila, para qualquer compromisso fora da área central da vila Vicente precisava passar em frente à propriedade, desse modo a ajuda à dona do rancho para pegar água no poço aconteceu quatro vezes naquela semana. Vicente se afeiçoara à mulher, não sabia o porquê ainda, mas ela lhe lembrava sua mãe.

—    Afinal, como se chama mesmo, senhora? — Questionou Vicente enquanto subia o íngreme caminho até a casa.

—    O senhor está me ajudando há quatro dias e ainda não me conhece?

—    Perdoe a minha distração, mas somente agora me ocorreu que não sei seu nome, e na vila só é conhecida como Senhora do Rochedo.

—    Acredite em mim, vai ser melhor para nós dois se eu continuar conhecida dessa maneira.

—    Tenho certeza que sim, mas isso não resume quem és. Insistiu Vicente, mas quando percebeu através do silêncio imposto que a mulher não estava confortável em revelar seu primeiro nome, trocou de assunto. Vicente deixara o balde na porta como costume, aceitava o cuscuz que a Senhora vinha oferecendo nos últimos dias em retribuição à ajuda e partiu para que solicitava sua ajuda.

No quinto dia daquela semana, ao passar em frente ao rancho rochedo, deu falta da presença da mulher no poço como o habitual, ficou preocupado com a possibilidade de a grávida ter passado mal durante o percurso até o poço e foi até a casa averiguar, ao bater à porta várias vezes deduziu que não tinha ninguém em casa e já se virava para ir embora, quando ouviu a porta se movendo. Na fresta deixada dava para ver pouco, mas conseguia enxergar a sombra de uma senhora de idade já avançada na sombra que disse:

—    Já não causou estragos demais? Vá embora antes que alguém morra.

—    Não compreendo, senhora.

—    Minha filha está nesse momento no mais profundo estupor, inteiramente machucada, lutando para garantir a sobrevivência do filho numa cama devido a sua falha em compreender as coisas, seu filhote Gilhães.-A idosa fechou a porta, Vicente se viu confuso demais para bater novamente e partiu para a praça da cidade em busca de mais informações. Ao chegar na praça, foi informado pelo dono do botequim que sua mãe estava a sua procura. Arlo e Dario cavalgaram a manhã toda pela vila em busca do irmão, a pedido de Dona Anaya. Dario encontrou-o cavalgando em seu jumento em direção à casa da mãe com expressão confusa, pediu que lhe explicasse naquele momento o motivo de tanta estranheza, Dario concordou em explicar tudo assim que chegassem em casa.

Vicente perdeu a fala diante de toda a elucidação de Dario, naquela manhã quando acordou sabia exatamente quem era, em questão de horas já tinha se perdido, suas visitas matinais ao rancho Rochedo haviam levantado intrigas. Custódio Rochedo era conhecido pelos mais próximos por seus ciúmes e temperamento difícil, o que dizem ter contribuído para a morte de sua primeira esposa antes de gerar um único filho. O soldado não encarou com bons olhos sua nova e jovem esposa receber visitas todas as manhãs de outro homem, tinha certeza de que estava sendo traído e questionou até mesmo a paternidade da criança ainda no ventre. Em uma explosão de raiva, bateu tanto na esposa na noite passada que ela perdeu a consciência, em seguida mandara entregar um bilhete na residência Gilhães naquela manhã, que dizia que hoje seria noite de tempestade e que ele estaria à espera de Vicente fora da vila para duelarem pela honra perdida. O silêncio no recinto foi quebrado por Dona Anaya, que surgiu com uma caixa de madeira nas mãos.

—    Não é de hoje que já aprendi que não posso controlar o que acontece com meus garotos, mas ainda sou a vossa mãe e posso oferecer pelo menos algumas escolhas. Seus irmãos, se assim quiser, acompanharão você para fora da vila até a estação de trem mais próxima, com minhas economias e minha benção você ainda pode construir outra vida em algum lugar. Mas aqui está sua outra escolha meu filho. – Disse, entregando a caixa de madeira para Vicente.

O relógio marcava nove horas da noite, o vento parara em suspense, o céu se acendia com relâmpagos, o capim de areia estalava seco debaixo das pisadas, em toda extensão só se via uma vegetação rasteira, com cactos e vassouras de botão. Embaixo de uma árvore, no outro lado, Vicente reconheceu o soldado Rochedo das rondas pela vila, exibia postura tensa. Ao se aproximar montado em seu jumento, observou as mãos de Rochedo escorregarem para a pistora presa em sua cintura, imaginando que não tinha por que seguir as regras do duelo quando Vicente estava se apresentando sozinho, apenas com uma caixa de madeira presa no lombo de seu jumento.

—    Pelo menos foi homem para mostrar sua cara, no fim, hoje saberão que o soldado Rochedo vingará sua honra — Provocou Custódio.

—    Não existe honra em homens como você nem embaixo da terra servindo como adubo — Gritou Vicente.

Rochedo desceu de seu cavalo irritado e se posicionou alguns metros à frente de Vicente, que imitava os movimentos e caminhava com a caixa de madeira em mãos; se posicionaram em frente à maior árvore das redondezas e selaram seus destinos.

Ao abrir a caixa de madeira com o nome Gilhães entalhado na tampa, Vicente retirou uma pistola prateada que pertencera a seu pai e ao pai dele antes. Rochedo não deixou de perceber que na caixa havia lugares para duas armas. Rochedo e Vicente se colocaram um frente ao outro, viraram as costas um para o outro e contaram dez passos antes de se virarem com suas armas apontadas, o silêncio era quebrado constantemente por trovões, o ambiente escuro só revelava os rostos endurecidos e concentrados quando iluminados em questões de segundos pelos relâmpagos.

—    Suas últimas palavras? — Questionou Rochedo

—    Melhor não olhar para trás — Respondeu Vicente

No mesmo instante, Rochedo sentiu o metal gelado em sua nunca

—    Um homem sem honra não é digno de escolher como vai morrer. – Disse uma voz feminina, áspera e rouca às costas de Rochedo.

A voz era de dona Anaya, que, chegando por trás, sorrateiramente, encurralou e desarmou Rochedo com a outra arma que faltava na caixa. Arlo e Dario estavam posicionados à direita e à esquerda da Mãe; após desarmado, Rochedo teve suas mãos e pés amarrados por Vicente debaixo da enorme árvore.

—    Pediu para Mamãe fazer o trabalho sujo por você, seu covarde. – Disparou Rochedo

—    E quem disse que ela está fazendo isso só por mim? — Respondeu Vicente com um meio sorriso no rosto.

—    Sabe, soldado Rochedo, eu já fui uma jovem esposa inconsciente numa cama e consegui me levantar, hoje eu luto por aquelas que ainda não levantaram.

Rochedo foi deixado embaixo da árvore, sozinho, a tempestade logo começou a aumentar, um estrondoso raio caiu num lugar próximo antes que Dona Anaya fosse vista retornando para sua casa com seus filhos. No dia seguinte, um Rochedo morto e escuro seria encontrado debaixo da árvore, com seu corpo coberto de queimaduras que lembravam samambaias, sintomas de um beijo dado por um raio.

Vicente havia se perdido de quem queria ser, mas se encontrou em quem era de verdade, um Gilhães forjado para pleitear, seu sangue falava alto com ele e o levou até o ponto de recrutamento mais próximo e de lá saíra como um soldado pronto para seja lá a guerra que estivesse sendo travada no momento, nunca mais pisara de novo em seu lar cercado por palmeiras, onde a justiça fora feita pelo beijo de um raio.

SOBRE A AUTORA – Gabriella Araújo cresceu em Imperatriz, Maranhão. É enfermeira, pós-graduada em Auditoria em Serviços de Saúde, autora de “O Que Acontece Quando o Pássaro Bate as Asas” e coautora de antologias literárias.
Escreve contos e romances porque se interessa pelas pessoas, pelas lembranças que elas carregam.
Entre os autores que mais a acompanham estão Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector, Sylvia Plath, J. D. Salinger e Gabriel García Márquez.

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