quarta-feira, 19 de agosto de 2026

DIÁLOGOS COM A LITERATURA MARANHENSE: ENTREVISTA COM ESCRITORES E ESCRITORAS – #06 – Fernando Abreu: A poesia me deu um lugar no mundo

Publicado em 7 de março de 2026, às 11:30
Fonte: Por Paulo Rodrigues

Fernando Abreu é maranhense de São Luís. Viveu na cidade de Grajaú, interior do estado, até os 13 anos. Durante cerca de dez anos editou a revista de poemas Uns & Outros, ao lado de outros integrantes do grupo Akademia dos Párias. Tem seis livros de poemas publicados: Antes de “Esses são os dias” (7Letras, 2022) vieram Contra todo alegado endurecimento do coração (7Letras, 2018), Manual de Pintura Rupestre (7Letras, 2015), Aliado Involuntário (Exodus, 2011), O Umbigo do Mudo (Clara Editora, 2003) e Relatos do Escambau (Exodus, 1998). Como letrista, tem parcerias com Zeca Baleiro, Chico César e Nosly, entre outros. Mantém o blog Homem Comum, onde publica basicamente poemas.

Paulo Rodrigues – Fernando Abreu, quando você começou a escrever? O poeta viveu numa casa com muitos livros? 

Fernando Abreu – Escrevi meus primeiros poemas na adolescência, as primeiras tentativas de merecer o nome que eu já me dava desde a infância. É uma coisa engraçada, porque me identifiquei muito cedo com o que para mim correspondia à figura do poeta: alguém retraído, desconfortável, com um enorme desejo de estar sozinho. Eu era muito tímido, então me identifiquei com essa imagem e ambicionei para mim a condição de poeta, que me dava um lugar no mundo. Acho que muito disso permaneceu comigo.

Meu pai era dentista e professor de português, apaixonado pela obra de Graciliano Ramos. Mais tarde, já com os filhos adultos, ganhou dois prêmios literários, um da AML e outro promovido pelo governo do estado para o funcionalismo. Então meu velho também era escritor, contista. Quando ele fez 80 anos editamos e publicamos seus contos em uma edição distribuída entre família e amigos em um café da manhã comemorativo. Nossa casa, além da coleção completa de Graciliano Ramos, claro, tinha todo o romantismo brasileiro, tinha também Machado de Assis e Jorge Amado. Então posso dizer que era uma casa que tinha livros.

Paulo Rodrigues – Jorge Luis Borges disse: “Sem leitura não se pode escrever”. Você concorda com o escritor argentino?

 Fernando Abreu – De um modo geral sim, porque o escritor ou o poeta precisa de referências, encontrar sua família literária, seus pais e irmãos na literatura, assim como seus adversários, ainda que temporários. Claro que é preciso filtrar e esquecer muita coisa, senão o talento pode acabar soterrado debaixo de tanta leitura. Nada é tão absoluto assim no terreno da criação. E é preciso lembrar da poesia dos griots, da poesia dos cantadores de feira e da poesia ameríndia. Casos extremos como o da curandeira e xamã mexicana, do povo mazateca, Maria Sabina, cujos cantos rituais de cura, sob efeito de cogumelos alucinógenos, foram reconhecidos como de alta qualidade poética. Uma história fascinante que merece ser mais conhecida. Isso nos diz muito sobre o que significa “leitura”, que vai muito além do padrão eurocêntrico.

Paulo Rodrigues – A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil apontou que 53% dos brasileiros não leram nada em 2024 e perdemos 7 milhões de leitores. É necessário escrever poesia num cenário assim?

 Fernando Abreu – É necessário escrever poesia porque a poesia torna a vida mais rica, a vida de todo mundo. Acho que devemos ter isso em mente sem jamais fechar os olhos para a realidade dura que cerca a vida da maioria das pessoas. Se estamos perdendo leitores, existem razões para isso, razões que precisam ser discutidas também pelos escritores. Não devemos nos encastelar em nossas torres de marfim e nos contentar em escrever para iniciados, como se fôssemos os gurus de alguma seita. Também não podemos aviltar o nosso trabalho subestimando, de forma demagógica, a capacidade de compreensão das pessoas. As razões da perda de leitores são diversas, mas o enfrentamento do problema passa pela criação de políticas públicas específicas para essa área, e os escritores não devem fechar os olhos para isso.

Paulo Rodrigues – Poeta, ainda sobre o tema leitura. O Ezequiel Theodoro da Silva comentou: “O ensino da escola é livresco, mas sem livros”. Você acha que a escola deveria trabalhar mais com os livros literários, com os autores contemporâneos?

 Fernando Abreu – Não vejo razão para não se fazer isso, por meio de escolhas criteriosas que privilegiem ampliação da visão de mundo e do senso crítico, de acordo, claro, com as faixas etárias adequadas. Estou longe de ser um especialista no assunto, mas creio que a escola é um dos locais por excelência onde deve se formar o gosto pela literatura. O ensino profissional e técnico é importante, mas ele não deveria jamais estar desvinculado da formação humana, que deve ser a formação do cidadão de forma integral. Vejo com algum otimismo essa questão ser debatida novamente, ainda que de forma tímida. Mas é um bom começo, é preciso partir de algum ponto, porque ao mesmo tempo vemos governos se orgulhando da abertura de grande número de escolas militares em seus estados, como se isso estivesse em alguma diretriz básica da educação em nosso país. Isso sim, é bastante preocupante.

Paulo Rodrigues – Quem são os autores da literatura brasileira e maranhense que são lidos pelo poeta Fernando Abreu? A literatura do Maranhão passa por um momento de efervescência? 

Fernando Abreu – Nunca fui de ter um programa de leitura ou algo assim. Leio muito e estou sempre lendo de dois a três livros ao mesmo tempo, mas tudo ao sabor do momento, quer dizer, uma leitura vai me levando a outra e assim vou tocando o barco, aqui e ali a sugestão de alguém, uma entrevista interessante. É uma navegação caótica, mas com uma coerência do ponto de vista pessoal, da minha tentativa de evoluir como alguém envolvido com literatura, com poesia.

A poesia no Maranhão vive um momento de grande vigor. Rapidamente poderia citar nomes como Adriana Gama de Araújo, Luiza Cantanhêde, Eduardo Júlio, Felix Alberto Lima, Paulo Rodrigues, Luís Inácio Costa, Josoaldo Rêgo, Lúcia Santos, Antonio Aílton e Jorgeana Braga. Todos fazendo poesia de alta qualidade dentro de uma diversidade incrível de pegadas e estilos. É um bom momento sim.

Paulo Rodrigues – Sei que tem uma relação estreita com a música. A poesia e a música se cruzam?

Fernando Abreu – Sim, essa é uma possibilidade sempre em aberto. Embora o poema já tenha a sua própria musicalidade e seu ritmo, em alguns casos ele pode se prestar muito bem ao casamento com uma melodia, por obra e graça do músico que lê e ouve a melodia no poema. Muitas vezes, para grande surpresa do poeta, que escreveu sem jamais imaginar que alguém pudesse transformar aquilo em uma canção. O poeta Celso Borges, nosso eterno parceiro e irmão, realizou projetos maravilhosos nesse campo, arregimentando grandes músicos em torno da poesia de José Chagas e Bandeira Tribuzzi. Tudo feito com muito cuidado e carinho pela obra desses dois grandes maranhenses que certamente teriam aprovado o resultado. O Brasil seria o último país do mundo para se criar fronteiras rígidas entre poesia e música popular, em razão da riqueza de nossa canção.

Paulo Rodrigues – Letra de canção é poesia? Tem poesia nas letras de Caetano Veloso, Bob Dylan, Zeca Baleiro, Fernando Abreu?

Fernando Abreu –  Com exceção de mim, todos eles são poetas da canção, e grandes poetas. Tenho muita alegria e honra das minhas parcerias, tanto com Zeca Baleiro quanto com outras figuras que admiro, como Marcos Magah e Nosly. É uma emoção e uma alegria muito grande ouvir sua palavra sendo cantada, ao vivo ou no rádio. É algo bastante estimulante, pelo compartilhamento, pela comunhão com milhares de pessoas. Mas não me considero propriamente um letrista. Na maioria das vezes tive meus poemas musicados de forma muito feliz por esses parceiros, e em algumas poucas vezes escrevi a letra com a intenção de que fosse musicada, como foi o caso de “Guru da Galera”, que terminou sendo um grande sucesso, um tremendo reggae na criação do Baleiro. Gostaria de escrever mais letras, mas fico meio à mercê do momento, quando isso acontece é um grande barato.

Paulo Rodrigues – Poeta, pode falar um pouco sobre o livro ESSES SÃO OS DIAS?

Fernando Abreu – Não sou de planejar meus livros. Houve um tempo em que até invejei quem era capaz de escrever um livro de poemas seguindo um planejamento prévio. Mas logo percebi que essa não era uma característica minha, que não vejo necessariamente como limitação. Sou um poeta de poemas, não de livros, de forma que meus livros são coletâneas que refletem o estágio da minha linguagem e das minhas preocupações como poeta em determinado momento. Isso acaba dando certa unidade temática a grupos de poemas no livro, que podem ou não ser agrupados em capítulos. “Esses são os dias” segue a mesma lógica, é mais um momento da minha trajetória como poeta. Na esteira do que já venho trabalhando há algum tempo, são poemas onde aprofundo certo prosaísmo deliberado, abrindo mão da “função poética” da linguagem.

Paulo Rodrigues – No poema A LOUCURA MOSTRA AS UNHAS você afirma: “Dança com esse lobo até soltar o pelo/ No fim tem sempre um olho atrás do palco/ Uiva de escalpo em punho e fim de papo/ Pouco importa saber quem paga o pato”. O escritor, o poeta, os compositores pagam o pato numa sociedade de consumo do mais baixo nível?

Fernando Abreu – Pagamos o pato, pagamos o preço e dobramos a aposta. Quem escolhe esse caminho precisa estar consciente disso. O que temos que cultivar, acima de qualquer sonho de reconhecimento, que pode ou não chegar, é a alegria de saber que estamos fazendo o nosso trabalho de forma honesta, com total fidelidade ao que a gente acredita que seja o nosso universo, a nossa maneira de fazer as coisas, intransferível, inegociável. Isso compensa qualquer dissabor. Tem um poema no meu livro “Contra todo alegado endurecimento do coração” que fala sobre isso. O poema se chama PROMESSAS, e termina assim: se não é capaz de enfrentar esse dilema,/ é melhor continuar escrevendo/poemas que exigem de você/apenas habilidade com as palavras/mas a habilidade com as cartas/não faz de um jogador/um mágico.

Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Fernando Abreu – Nunca deixem que lhe imponham uma visão dogmática sobre como deve ser o poema ou a poesia. Procure a poesia como um exercício de liberdade, de ampliação de horizontes e de enriquecimento da vida. Quanto mais poesia você ler, mais rica será sua vida, seu universo pessoal. Tendo uma vida rica, você tornará mais rica também a vida de quem convive com você, com quem cruzar o seu caminho. A presença constante da poesia na sua vida fará de você um espalhador de benefícios.

SOBRE O ENTREVISTADOR – Paulo Rodrigues é graduado em Letras e Filosofia. Professor de língua materna e literatura da rede estadual de ensino. Foi secretário de educação de Santa Inês e gerente regional de educação do Vale do Pindaré. É poeta, prosador, ensaísta e jornalista. Autor de, entre outros, O Abrigo de Orfeu e Escombros de Ninguém.Ganhou os prêmios Álvares de Azevedo da UBE/RJ, em 2019; Literatura e Fechadura de São Paulo, em 2020; Marcus Vinicius Quiroga de Poesia da UBE/RJ, em 2024. É membro efetivo da academia Caxiense de Letras e da Academia Poética Brasileira.

SOBRE O ENTREVISTADO – Fernando Abreu é maranhense de São Luís. Viveu em Grajaú até os 13 anos. Durante cerca de dez anos, editou a revista de poemas “Uns & Outros”, ao lado de outros integrantes do grupo Akademia dos Párias. Tem seis livros de poemas publicados: “Esses são os dias” (7Letras, 2022), “Contra todo alegado endurecimento do coração” (7Letras, 2018), “Manual de Pintura Rupestre” (7Letras, 2015), “Aliado Involuntário” (Exodus, 2011), “O Umbigo do Mudo” (Clara Editora, 2003) e “Relatos do Escambau” (Exodus, 1998). Como letrista, tem parcerias com Zeca Baleiro, Chico César e Nosly, entre outros. Mantém o blog Homem Comum, onde publica basicamente poemas.

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