MUDAR DE NOME?
Os balões pequenos e coloridos eram trazidos pelo pai, das viagens que ele fazia como caminhoneiro. Tudo era simples, pouco ou quase nada de decoração. Semanas antes do grande dia, a menina escutava dos vizinhos e familiares: Você tá virando uma mocinha, mês que vem vai mudar a idade.
Pra início de conversa, a menina não gostava do próprio nome. Todos a chamavam de Teresinha. O pai lhe deu um apelido – Sibita, pior ainda! Com o pai, ela não se importava, levava na brincadeira. Mas como criança vive num terreno fértil de imaginação, Teresinha não via a hora de mudar de idade e de nome. Para ela, Brigite, Sophie, Adelie, Fernanda, Laura, estes eram nomes elegantes, que ornavam com o seu sonho de ser artista.
O dia era especial, o clima de festa, sensacional. Bolo redondo, alto e fofo, de laranja, com raspas de casca da fruta para enfeitar e soltar um aroma gostoso no ar, biscoitinhos amanteigados, K Suco de guaraná, tudo feito pela mãe.
A cantiga de parabéns, ela já havia ensaiado, tinha de ser a do Palhaço Carequinha, a que era o hit daquele momento e a menina aprendeu escutando no rádio: “Chegou a hora de apagar a velinha, vamos cantar aquela musiquinha: Parabéns pra você, parabéns pra você, pelo seu aniversário! Que Deus lhe dê muita saúde e paz e que os anjos digam amém!” A garotinha estava radiante e muito ansiosa também. Minutos antes da cantoria, ela se apressa pra perguntar, cochichando ao ouvido da mãe, puxando-lhe pela barra da saia:
— Mãe, mãe, eu posso mudar meu nome?
Franzindo a testa, arregalando os olhos, a mãe, aborrecida, responde em voz alta:
— Claro que não, menina! Onde já se viu uma coisa dessas? Que tanta ansiedade é essa?
De pé em cima de uma cadeira, que mais parecia um pequeno palanque, a menininha reage, e solta a voz em alto e bom som:
— Ah!… Que chatoo!! Mas eu não “tô” mudando de idade?!
MÃE LÊ A GENTE?
Das três filhas de dona Mariinha, Alice era a mais sapeca, tinha a mania de comer bolos e biscoitos quentes, recém-saídos do forno. A mãe sempre a repreendia. E se, depois de um tempinho, a filha aparecesse meio tristonha, franzindo a testa ou passando a mão na barriga, a mãe não perdia a oportunidade:
– Estou te lendo, sua danada! Falei pra não comer bolo quente!
Quando algum mal feito ocorria, a mãe arranjava logo um jeito de descobrir a autoria. Sabe o que ela fazia? Ao arrumar a mesa para a merenda, ficava mais um bocadinho proseando com as filhas. Era um pretexto para “encompridar a conversa”. Dona Mariinha gostava de contar histórias, lendas e causos. O propósito era sempre o mesmo: misturar casos e causos para dar lições que serviriam pra vida toda. Antigamente, esse era o jeito de educar os filhos.
Certo dia, foi uma xícara que apareceu sem asa e o fato gerou uma grande confusão. A mãe perguntava a todas e, em particular, quem havia quebrado a xícara.
Alice era uma menina cheia de invencionices, mas não tinha maldade em seus atos. O que ela queria era sentir paz, sossego, calmaria. E, sabendo o que havia feito, chegava de mansinho:
– Mãe, eu posso ficar com essa xícara? Ela tá boazinha, só perdeu a asa e um “trisquinho” na borda. Virou uma tigelinha. Dá ela pra mim, mãe. Não briga mais por causa disso.
Astuciosa como ela só, dava um beijinho na mãe e corria para brincar; a mãe não esquecia o caso e continuava a matutar.
Era sempre assim, quando acontecia alguma desavença em casa ou nas brincadeiras de rua, sumiço de alguns “comes e bebes”, qualquer coisa fora da rotina e que a mãe não soubesse do ocorrido, começava a dizer que iria mandar ‘responsar’.
Dona Mariinha fazia com as filhas um jogo, disfarçado de brincadeira, que consistia no seguinte: cada uma das três mocinhas recebia um palito de mesmo tamanho, e deveria guardá-lo até o dia seguinte, à tardezinha. A mãe dizia que o palito de quem quisesse esconder o “tal crime” iria crescer durante a noite.
Passaram-se as vinte e quatro horas. Um tempo terrível, quase interminável, para a menina. Não teve faz-de-conta que desse jeito na tristeza de Alice, ela não quis brincar nem se alimentar.
No dia seguinte, o chamado para a merenda. Pontualmente, a mãe reúne as três filhas e pede para ver os três palitos. Coloca-os sobre a mesa, emparelhados. Só o palito de Alice estava diferente.
Você, leitor(a) matou a charada? Imaginou o que a menina arteira fez com o palito que a mãe lhe entregou?
A mãe não fez cara de surpresa, nem passou sermão ao perceber que o palito de Alice estava menor que os outros dois. O que ela disse à filha, olhando-a nos olhos:
– Eu estava só te lendo, desde ontem!
UM AMOR DE CARTAS
Certo dia, Diva foi à minha casa e contou-me:
— Arranjei uma paquera, mas eu só conheço ele da revista.
Naquele tempo, havia nas revistas “Sétimo Céu” e “Contigo” uma seção denominada “Correios do Amor”, para a qual os leitores enviavam foto e perfil, intencionando arranjar namoro e/ou casamento.
O perfil deveria conter informações do tipo: signo; trabalho; grau de escolaridade; além de outros detalhes de interesse do(a) candidato(a). A pessoa poderia acrescentar algumas informações que dissessem respeito à sua preferência musical, lugares que mais apreciava na natureza, seus hábitos, sua rotina, cores preferidas e pratos prediletos. Sobre características físicas e “modos de ser”, tornavam-se assuntos para tratar por meio de cartas.
Diva mostrou-me a página destacada da revista e continuou a falar detalhes sobre o rapaz:
— Ele mora em São Paulo, eu estou apaixonada e quero que você me ajude, amiga!
Imediatamente, perguntei-lhe:
— O que você quer que eu faça?
— Você pode escrever as cartas pra ele como se fosse eu.
Foi o que ela me propôs. Concordei na hora! Qual seria o problema, eu ajudar uma amiga a namorar a distância um rapaz? Quem sabe até com ele se casar?
A cada quinze dias, Diva me fazia uma visita. Às vezes ela trazia uma carta que havia recebido do rapaz. Eu lia com atenção e, muitas das vezes, não conseguia segurar a emoção. Quero dizer que, naquele mesmo instante, já me vinha inspiração para a resposta escrever. Os pensamentos eu não conseguia controlar. Esquecia-me de que o namorado não era o meu, era o de minha amiga. Coisas do coração conduzindo a minha escrita.
O tempo foi passando… Saudade apertando o peito, desejos de abraços e beijos… Vontade de “olhos nos olhos”, ver, ouvir, sentir o que o outro diz…
Em tempos de parcos recursos tecnológicos, tudo era feito à mão. Sentada ao meu lado, Diva ia “ditando” seus desejos, sensações na expectativa de conquistar o coração do rapaz. Eu ouvia, compreendia e me punha a registrar no papel.
Cartas pra lá, cartas pra cá, declarações de amor, mimos e promessas. Até que, um dia, o rapaz mandou uma carta diferente, com uma notícia que (nos) abalou:
— Quero ir ao seu encontro, minha amada. Conhecer seus pais. Pedir sua mão em noivado.
Naquele instante, senti terrível frio na barriga, tremelique nas pernas, uma aflição descomunal. Falei comigo mesma: “Onde é que eu fui me meter a mandar cartas de amor para um amor que não era o meu?”
O jeito foi deixá-lo vir, quem sabe, a minha amiga, sendo tão diferente de mim, conseguiria conquistar o coração do rapaz?!
Até hoje não sei o que aconteceu. Saí de férias e viajei. Só mesmo a Diva poderia nos contar melhor essa história outra vez…

SOBRE A AUTORA – Tereza Bom-fim é professora Titular da UFMA/CCim, em Imperatriz (MA). Fez pós-doutorado em Letras na UNESP-Araraquara (SP), doutorado em Educação Brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC), mestrado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-SP) e graduação em Letras pela UEMA.Publicou: A Literatura Infantil para Maiores de Dezoito Anos (2018); Asas da Imaginação (2013); O livro-de-imagem: um (pre)texto para contar histórias (quatro edições), obra que recebeu o selo Altamente Recomendável na categoria teórico, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em 2001; Professor-leitor: de um olhar ingênuo a um olhar plural (2007 e 2022); Um lobo total mente mau? (2021); À Flor da Pele (narrativa poética); Ditos & Feitos (poesias).Atuou como leitora-votante para a FNLIJ, no período de 2004 a 2016. É membro da Academia Imperatrizense de Letras desde 2005.
Uma resposta
Ler os “Contos Diversos”, de Tereza Bom-Fim, é como abrir uma gaveta antiga onde as lembranças ainda conservam o cheiro do tempo. As histórias parecem simples à primeira vista, mas carregam aquela densidade discreta das experiências que realmente nos formam. São episódios pequenos, domésticos, quase silenciosos, e talvez por isso mesmo tao verdadeiros. Em “Mudar de Nome?”, a autora captura com delicadeza a lógica encantadora da infância, essa fase em que crescer parece significar também reinventar-se. O desejo da menina de trocar de nome ao mudar de idade revela uma imaginação viva e uma inocência que nos faz sorrir, mas também lembrar do tempo em que acreditávamos que o mundo podia ser reorganizado pela força do sonho. “Mãe lê a gente?” é talvez o conto que mais permanece na memória depois da leitura. A figura da mãe que “lê” as filhas traduz uma sabedoria antiga, feita menos de explicações e mais de observação paciente. Há ali uma pedagogia silenciosa, quase intuitiva, que lembra os modos de educar de outras épocas, quando as lições vinham disfarçadas de histórias e pequenas armadilhas inocentes. Já “Um Amor de Cartas” traz a atmosfera de um tempo em que o sentimento precisava atravessar distâncias lentamente, escrito à mão, linha por linha. Há algo de bonito e inquietante na ideia de amar através das palavras de outra pessoa, como se a escrita pudesse criar uma realidade própria, independente de quem a vive. O final em suspenso reforça essa sensação de que certas histórias permanecem incompletas, guardadas na memória mais como pergunta do que como resposta. O que mais chama atenção nesses contos é a naturalidade com que a autora transforma lembranças em narrativa. Não há esforço de grandiosidade. A literatura nasce justamente do que é cotidiano. Balões de aniversário, biscoitos quentes, cartas dobradas com cuidado. Pequenos objetos que sustentam grandes afetos. São histórias que não fazem barulho, mas ficam. Talvez porque falem de algo que todos reconhecemos, mesmo sem perceber: a infância como território onde começamos, sem saber, a nos tornar quem somos.