Ociosidade. O vizinho, folgado como sempre fora, achou de morrer logo no final de semana quando estava tudo preparado para um pagode no meu quintal.
– Putz, logo hoje, cara! Reclamei indignado:
– É muito espaçoso, esse vizinho!
Mas, folgado mesmo foi que ele, ainda naquele dia, fora parar no céu. Aliás, no céu, no céu, não. No portão do céu, pois o paraíso é um pouco mais longe do portão. Para ser mais preciso, é um bom chão entre o portão e a terra Divina, a morada eterna. É um estirão bem grande, só quem tem objetivo na vida perene é que chega lá.
Pois é, o folgado do vizinho chegou e foi logo entrando. Como era em um final de semana e as pessoas que morrem comumente não gostam de se dirigir logo para lá, preferem curtir as festividades para, no dia seguinte, seguir seu destino, não viu viva-alma na recepção.
O guardião da entrada, pelo visto, estava no seu dia de folga. Dia de descanso naquela eterna eternidade, onde, ao que parece, se tem nada para fazer.
Chegou e foi logo de mansinho, é o jeito dele, penetra, sempre fora assim em qualquer lugar que chegava. Foi logo optando por um luxuoso domicílio para morar.
– Chega de viver em casa popular!
Pensava ele, já empolgado com a beleza daquela mansão, com piscina, churrasqueira e tudo… Nunca, coitado, entrara em uma casa com piscina. E foi logo expondo a sua folgadisse:
– Vou passar na cara dos amigos lá da terra que aqui eu tô podendo. Sou besta aqui, não!
Falou e foi se empolgando para o primeiro mergulho. Mas qual não fora a sua surpresa, quando ouviu uma voz angelical:
– Oi, pare aí! Não é assim, não!
Angelical e severa, pelo visto.
Virou-se na direção em que a voz ressonou e viu um velho, mais muito, muito velho mesmo, que não tinha como ser mais velho, barba grande e, na cintura, um aro de chaves.
– Já apareceu o primeiro invejoso aqui no céu para me atrapalhar!
Falou o meu vizinho, encarando o velho de voz angelical e olhar ríspido.
– Com que autoridade chegaste aqui?
Atalhou para conter a empolgação:
Sem rodeio, era sempre assim o meu vizinho, tinha na ponta da língua respostas para tudo.Ô língua venenosa, que ninguém melhor que eu para saber.
– Ora, cheguestes porquestes a porta estava aberta.
Deixou escapulir, para variar, um sorriso cínico, e continuou o seu argumento:
– Se não estivesse escancarada, eu não teria me chegaste!
Gostava, por demasia, de falar difícil e com palavras não existentes. Ele é assim, atinava sempre uma lógica em tudo, não levava nada a sério. Seu ponto de vista era que prevalecia.
O velho barbudo passou a vista nele, de cima a baixo, e, pela sua vasta experiência, percebeu que estava diante de um fanfarrão. Claro, se não o fosse, não seria meu vizinho.
– Pois, bem…!
Tentou falar. Mas ele insistia em mirar o olhar na água da piscina, já com disposição de tirar uma pontinha, assim como fazia no riacho Bacuri ou no Cacau. Foi quando o velho endureceu o diálogo:
– Pode parar por aí! Não se atreva, não!
Foi falando e ordenando a um arcanjo, que se aproximava:
– Coloque-o para fora!
– Poxa, nem aqui no céu se tem acesso às coisas boas da vida! Alguém sempre para me atrapalhar, caramba, cara!
Neste momento, achei que ele iria falar mal de mim. Meu vizinho é assim, basta se sentir ameaçado que vai logo desclassificando os outros; procurava, continuamente, atribuir a culpa nos outros e, invariavelmente, sobrava para mim…
O certo é que fora colocado para fora, assim, a contragosto e sem direito a palavra: Ufffff!
No outro dia, segunda-feira, ele era só mais um diante do portão. Quando chegou sua vez, foi logo nas tratativas mais intimistas com o velho São Pedro. Só agora que deu conta de que o velho era o tal do São Pedro, o que, além de mandar na entrada das moradas Divinas, era o mesmo que mandava chuvas, às vezes sem piedade, em cima do seu barraco, na terra de santa-cruz.
– Oi, São Pedro, me passe as chaves daquela mansão, aquela de ontem!
Propôs assim, como se chagasse em uma pousada, em um prostíbulo e coisa e tal…
São Pedro suspirou fundo, pois sentia confusão antes mesma dela acontecer. Os santos são assim! São Pedro, mesmo turrão, não era diferente!
– Aqui não é assim, não!
O detentor das chaves do céu atalhou com severidade.
– Como, não? Quis saber meu vizinho.
– A gente aqui constrói as moradas para a eternidade com o material que cada um de vocês doa para os mais carentes. Isso nos momentos de farturas ou nos infortúnios. Esse investimento que vocês fazem vem direto para cá! Explicou.
São Pedro, enquanto falava, folheava, apreensivamente, um livrão em busca de alguma coisa, pelo salvo-conduto, em alto grau de importante.
– Aquela mansão foi material de um vizinho seu.
Pensei logo comigo aqui na terra:
– Sou eu, esse vizinho abençoado que ele fala!
São Pedro parou de folhear o livro e aguçou os olhos, como se estranhasse alguma coisa, e tascou na fuça do meu vizinho:
– Olha que aqui só tá registrado duas coisas que você mandou.
Atentou para meu vizinho e acrescentou, não com a voz angelical, mas com um clamor ríspido que já nem parecia um santo de Deus:
– Um entulho de desmonte de uma privada e uma lona velha de cobertura de galinheiro!
Foi falando e, com o dedo em riste, apontou para um canto de muro mal acabado e uma lona velha arqueada formando uma improvisada tenda para mendigo.
– Ali está sua morada eterna!
E, perante a peleja de meu vizinho para retroagir o que viveu, fiquei aqui na terra doando tudo de cacarecos que tinha, para receber meu galardão para a vida perene, antes que meu dia chegasse.

SOBRE O AUTOR – GILMAR PEREIRA da Silva nasceu em 23 de maio de 1957, na cidade de Xambioá – TO. Reside em Imperatriz – MA.É casado com Ana Lúcia Salazar da Silva, com quem tem dois filhos, Gil Gilmar e Anna Sara.Formado em Letras, Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. É fundador do GRULI (Grupo Literário de Imperatriz), onde desenvolveu, junto com outros escritores, um providencial trabalho literário em Imperatriz, nos anos 1980/90. É membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, cadeira 28, que tem como patrono o imortal Viana Guará. Tem alguns livros publicados: Percurso insólito e outros percursos – Crônicas; O Camaleão que queria ser gente – Fábula; Bem perto é muito longe – Romance infantojuvenil; Cemitério de sonhos – Romance infantojuvenil