A CASA
Numa noite de pensamentos sombrios, coração apertado e fôlego curto, minha casa começou a desmoronar.
Primeiro eu vi cair das paredes todos os quadros da família. Rachaduras se abriam no piso, formavam-se labirintos e abismos. Meus pés foram tomados de água, faltava o chão para pisar. Nada mais era seguro ali.
Eu gritava, mas ninguém parecia me ouvir. Para onde foram os meus? Meus ecos de dor e fúria batiam nas paredes da casa, mas retornavam a mim como um turbilhão de sentimentos de medo e sufocamento…
Eu caí! E aos poucos meus sentidos foram enfraquecendo… Até que ouvi passos de freiras vestidas de preto que haviam chegado numa limusine. Elas entraram na casa e procuravam algo muito precioso que havia ali.
Num instante, a freira de maior idade encontrou a relíquia, que mais parecia um feixe de luz, e com todo cuidado segurou-a na palma da mão. Sem dizer uma palavra, elas retornaram ao carro com muita pressa.
Partiram levando aquela luz, enquanto eu as seguia com o olhar, observando o clarão que se distanciava na névoa da noite…
Acordei no hospital, tinha recebido um coração novo. Entendi que eu tinha que amar mais, corazonar!
O HOMEM QUE FAZIA ÁGUA
No sertão das terras maranhenses, existiu um homem de feições e hábitos caboclos que vivia mais na mata do que na cidade. Ele não se adaptou à vida urbana. quando teve que trazer os filhos para estudar, e logo cuidou de comprar umas terras secas nas proximidades.
Já tinha passagem em vários interiores e, devido a sua boa fama de vaqueiro, era procurado para amansar bois bravos.
Eram tempos difíceis de seca, e os animais, em busca de rios, perdiam-se dos donos ou morriam de fome. Mas bastava que aquele homem tocasse o gado para que começasse a engordar e o capim nascer no pasto.
Ele subia numa árvore e, no cair da tarde, começava a cantar numa língua dos bois que somente eles se entendiam. Sem demora, ouviam-se os chocalhos das vacas que obedeciam ao chamado. De repente, um bando de bois estava sob seus pés.
Mas essa não era a sua maior expertise. Um dia, ele atendeu a um pedido de sua filha mais querida, a caçula, que a presenteasse com um riacho, já que para todos que ali viviam a água era o bem mais precioso, tanto para os humanos como para os bichos e a mata que ele tanto amava.
Até que, um dia, o caboclo resolveu furar uma das pedras no árido terreno que comprou e todos os dias levantava de madrugada, caminhava até à pedra e pedia para a mãe Terra fazer brotar água. Numa madrugada, a caminho da pedra, o homem ouviu uma linda voz feminina cantarolar, depois um silêncio, que logo foi quebrado com o som de uma queda d’água. Daquela pedra, nascia um enorme poço azul e transbordante que fazia córregos de água por toda a região!
Naquele lugar não havia mais secura, e a menina pôde saciar seu desejo de mergulhar em águas cristalinas.
CIDADE ESTRELADA (conto feito em coautoria com Sofia Yeshuah)
Na cidade do Sol, numa noite do bro-ro-bró, o período mais quente do ano, todas as pessoas foram surpreendidas pela falta de energia elétrica. O medo e a escuridão eram suas únicas companhias.
Tudo na cidade dependia da eletricidade. Os moradores ficaram apavorados, pois não podiam assistir TV, as crianças não podiam se entreter nos celulares e os jovens não podiam navegar na internet. Eles não sabiam o que fazer, pois as pessoas haviam esquecido uma das outras.
Até que a menina Guaraci teve uma ideia. Da varanda, em voz altiva, convidou toda a vizinhança para pegar seus lençóis, saírem dos gradeados de seus apartamentos apertados e estendê-los no chão do pátio comum na porta da rua.
Com estranheza, os vizinhos receberam a mensagem, mas logo tiveram que aceitar o convite de Guaraci, já que a escuridão de seus lares e o calor eram insuportáveis.
E, ouvindo os comandos da menina, todos os vizinhos deitaram sobre seus lençóis no chão e, aos poucos, iam se organizando, até que, seduzidos pelo mar de estrelas no céu, vislumbraram aquele momento como um portal que se abre, tomando-os pelo desejo de atravessá-lo, levando-os além do que podiam ver…
Com o tempo, as pessoas perceberam que podiam enxergar no escuro e a luz elétrica já não se fazia a única possibilidade para aquelas pessoas sobreviverem naquelas condições de vida.
Apreciaram a luz natural das estrelas e da lua… Um encantamento fascinou os seus olhos e, como não podiam ver com clareza as pessoas ao seu lado, passaram a se identificar pelo toque das mãos… Uma magia tomou conta daquele lugar e o silêncio era o único que falava…
Com o toque, as pessoas perceberam que tinham luz própria. E, novamente, laços humanos se construíam na linguagem das mãos. Nessa língua, não sabiam o que era preconceito, ódio, violência, medo, intolerância, desconfiança…
Ter uma mão para segurar era tudo de que precisavam naquela noite. Cada pessoa que segurava a mão do outro, iluminavam a cidade inteira!
Tudo foi tão intenso que as pessoas passaram a acender, nas noites quentes daquela cidade, a “Luz Própria”, apagavam suas lâmpadas e celulares, e, como uma constelação de vagalumes, se encontravam para aquecer os afetos humanos! A menina Guaraci ficou feliz!

SOBRE A AUTORA – Maria do Socorro Borges da Silva é natural de Caxias/MA. É doutora e mestre em Educação, especialista em História Política Contemporânea, graduada em História e professora da Universidade Federal do Piauí, no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFPI) e no Departamento de Fundamentos de Educação (DEFE/CCE/UFPI). Coordena a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos do Piauí (REBEDH-PI). É membro do Instituto Histórico Geográfico de Caxias – MA (IHGC). Publicou, entre outros, os livros: “De Cidadão Persi a Mulher Maravilha: professoras capulanas do educar em direitos humanos” (2019); “Janelas do Devir” (2020), na coleção Mulherio das Letras; “Filosofia do chão: experiências e criações de professoras no educar em direitos humanos” (2022) e vários artigos em livros e em periódicos qualificados. Participou de diversas coletâneas, nacionais e internacionais. E-mail: [email protected]. Instagram: @socorroborgessofia