Nas cidades do interior, diferente das capitais, todo mundo conhece todo mundo e, quando qualquer fato interessante acontece, nem precisa de Whatsapp para que todos do lugar fiquem a par das novidades. Em uma cidadezinha do interior do Maranhão, Eustáquio, um matemático que vivia em pé de guerra com Gregório, um gramático sobre qual das matérias é mais importante, numa discussão de botequim chegaram às vias de fato.
Eustáquio era um piauiense que chegara para lecionar Matemática em um colégio da cidade onde conheceu Gregório, maranhense que ensinava Língua Portuguesa. Seus primeiros embates surgiram a partir de uma resenha entre os colegas que comentavam a respeito do grande número de piauienses vencedores nas olimpíadas de matemática daquele ano e uma colocação de Gregório, considerando a variedade linguística dos maranhenses como sendo a mais correta gramaticalmente. Foi aí que suas diferenças de opinião tiveram seu registro oficial para o conhecimento geral da cidade.
Era um final de tarde em que as pessoas começavam a sair de casa após uma daquelas chuvas que prendem a gente em casa por algumas horas, e a movimentação costumeira no velho botequim da esquina, onde Eustáquio e Gregório, frequentadores habituais, sentavam-se para debater como de costume, começava a se formar. Eustáquio, um matemático de renome na cidade, um desses caras ranzinzas, que acredita estar sempre certo, sobretudo depois de tomar alguns pileques. E Gregório, um gramático apaixonado pela língua e suas nuances, também rabugento e exigente, no que diz respeito à forma de se comunicar. Quando se encontravam, nunca conseguiam manter uma conversa sem que ela acabasse em discussão. O tema favorito de ambos? Qual das suas matérias era mais importante: a matemática ou a gramática.
— A matemática é a essência de tudo! É pela matemática que se prova e comprova, que se projeta e se realiza, se faz, desfaz e se refaz! — exclamou Eustáquio para Gregório, já com o tom um pouco elevado, depois de algumas cervejas. — Sem ela, a sociedade não teria avançado. As construções, as invenções, os sistemas que usamos, tudo depende de números, de cálculos precisos!
Gregório, procurando apresentar uma postura mais educada formal, com seu jeito mais contido, ajeitou os óculos e respondeu com calma, mas com um ar de provocação:
— E o que adianta construir o mundo, Eustáquio, se não soubermos descrevê-lo corretamente? Como interpretar os números, as linhas, os traços, as medidas corretamente, sem o bom domínio da linguagem? A língua é a base da comunicação, da cultura, da civilização! Sem a gramática, os pensamentos mais complexos não poderiam ser compartilhados. Nem a história ou a filosofia ou mesmo as artes poderiam ser compreendidas nem fazer parte da identidade de uma pessoa ou nação. Você não poderia nem sequer explicar suas preciosas equações!
O calor da discussão despertou os desatentos, que, aos poucos, foram formando duas torcidas para ver quem ganhava o embate.
O botequim inteiro começou a prestar atenção à discussão que, há semanas, parecia seguir o mesmo ciclo. Mas naquela chuvosa tarde, algo no ar indicava que a rivalidade entre os dois estava prestes a atingir um novo nível, e não eram as nuvens no céu, mas as frases que se formavam dentro daquele ferrenho diálogo.
— Explicar equações? Ora, Gregório, a matemática fala por si! Ela é universal. Sua presença está no tempo todo, nos segundos que formam as horas, que formam os dias, que formam os anos; nas histórias contadas, nos lugares, nas ruas, nos lares, na existência e na ausência, no tudo e no nada, além do que, a matemática que é aqui é também em qualquer lugar do universo, enquanto a sua gramática muda de país para país, de época para época! Quem precisa de tantas regras quando os números resolvem tudo com lógica? — retrucou Eustáquio, batendo o punho na mesa.
— Não se esqueça meu caro, que são também as regras que regem os números! Aliás, universal, talvez. Mas fria e sem alma! Compare uma equação com um poema, qual dos dois fala ao coração? — rebateu Gregório, agora começando a perder a paciência. — A linguagem nos dá a possibilidade de criar, de imaginar, de divertir, de promover as viagens mais longínquas por meio da leitura, de contar histórias. Você acha que algum grande romance foi escrito com números? Alguma grande peça de teatro? Quem precisa de cálculos quando a palavra é o que move o coração das pessoas?
O volume acrescido daquela oratória insípida prenunciava uma transposição das falas para um embate físico. A discussão esquentava, e as mesas ao redor começaram a se afastar, sentindo que o clima de disputa estava prestes a sair do controle. Eustáquio, já irritado, levantou-se bruscamente, derrubando a cadeira e, no embalo, despercebidamente entornou o copo de cerveja, encharcando parte da camisa do seu adversário.
— Você pode mover corações com palavras, mas eu movo montanhas com números! A sua gramática não serve de nada sem lógica, Gregório!
Este, ainda mais esbaforido retruca e, sentindo o sangue ferver, levantou-se também, aproximando-se de Eustáquio com o dedo em riste, quase roçando o nariz do outro.
— E a sua matemática não serve de nada se não puder ser explicada, interpretada, analisada, Eustáquio! Você pode mover montanhas, mas eu dou sentido ao que você faz, ao que voce diz, até ao que você pensa!
As palavras se tornaram gritos e, antes que percebessem, estavam frente a frente, prontos para partir para a briga. Um empurrão aqui, outro ali, até que Gregório, num impulso inesperado, jogou um copo d’água em Eustáquio, que respondeu derrubando o livro literário que Gregório sempre carregava consigo. Depois daquele empurra-empurra, e já desequilibrados com o auxílio dos goles já ingeridos, caem um para cada lado da mesa, o que, ao mesmo tempo, se erguem desconsertados.
O dono do botequim, seu Damião, já acostumado com as discussões acaloradas, mas nunca com violência, já temendo algo parecido, interveio rapidamente, chamando a atenção para si, a fim de que aquela gradação de ofensa fosse interrompida.
— Ei, ei, calma, vocês dois! O que está acontecendo aqui? Vão resolver isso no tapa agora? Aqui, no meu estabelecimento?
Eustáquio, já um pouco envergonhado pela cena que causaram, respirou fundo e, olhando Gregório nos olhos, disse:
— Ora, ora, está bem. Talvez… a matemática precise de palavras, e as palavras precisem de lógica. Mas minha matéria ainda é a melhor.
Gregório, secando a camisa encharcada, esboçou um sorriso forçado e sem jeito.
— Concordo que precisamos um do outro, Eustáquio. Mas você vai acabar se convencendo de que minha matéria é o coração de tudo e sem ela nenhuma das outras seria entendida. Ambos se encararam por mais alguns segundos, como se ainda estivessem tentando se convencer de quem tinha razão, mas a tensão aos poucos deu lugar a um silêncio desconfortável. Por fim, sentaram-se novamente, desta vez sem o clima de guerra. Damião olha para a plateia, que ainda vibrava dividida sobre quem ganhou e quem perdeu o duelo e, em alto som, braveja: “acabou o show, pessoal, vamos manter a ordem”.
— Mais uma rodada? — perguntou o dono do botequim, já rindo da situação.
Eustáquio e Gregório assentiram ao mesmo tempo. Talvez nunca concordassem plenamente, mas sabiam que, de alguma forma, suas matérias eram inseparáveis. Tal conclusão foi confirmada quando Inácio, filho de Gregório, precisou da ajuda de Eustáquio para resolver umas equações, pois estava se preparando para o Enem e Ludmila, a filha de Eustáquio, acabou por se apaixonar pelo filho do arqui-inimigo do pai, quando ele foi até sua casa. Sem outra alternativa, a paz ente os brigões, finalmente, precisou ser estabelecida.

SOBRE O AUTOR – José Conceição da Silva, popularmente Zezinho Silva, é nascido em novembro de 1963, em Santa Inês – MA. Filho de Dejanira e João Valdivino, é casado com Carlisvonete e pai de Jose Henrique, Felipe e Gyanna.
É professor na rede estadual, no Colégio Militar Tiradentes, em Imperatriz.
Ama a literatura de cordel.
É graduado em Letras pela UNIASSELVI.
Tem três livros lançados: As Histórias do Lendário Joaquim da Mata, Um amor todo Especial e As outras aventuras de Joaquim da Mata e três participações, como coautor, em antologias.
É membro da AAL (Academia Aramense de Letras).