Na década de 80, a repressão era uma constante na vida de muitos homens gays. A AIDS, a censura, o medo de ser descoberto. O cenário montado performava a invisibilidade social e divide a história com marcas do passado e algumas conquistas nos dias atuais. O palco foi reconfigurado, as falas policiadas e os papéis ressignificados. No entanto, para as pessoas LGBTQIAPN+ que deixaram esses dias para trás, o envelhecimento vem com um novo roteiro a ser lido. Um desconhecido e invisível para muitos em que a sexualidade e idade pesam em dobro. Os personagens dessa obra, hoje vivem atos diferentes, mas, que não excluem lembranças do passado. O enredo dessa reportagem é composta por narrativas da vida é real e os protagonistas relatam suas memórias
Willames Alves de Oliveira, 45 anos, cozinheiro
“Na minha época mesmo, assumir que é gay, que é homossexual, que gosta do mesmo sexo, não é fácil, nunca foi”.,. A história não é exclusiva, essa realidade retrata o cenário de homens gays fora do recorte juvenil que enfrentaram tempos mais árduos, com pouco espaço e aceitação.
Witembergue Gomes Zaparoli, antropólogo e professor universitário de 45 anos
“Olha o viadinho, olha o qualira!”, enquanto crescia, eram esses os “apelidos” que, ouvia da boca de seus colegas de classe. Os tempos são outros, políticas públicas como o Sistema Nacional de Promoção de Direitos e enfrentamento à violência contra LGBT (2013), é um exemplo disso. O espaço conquistado, por outro lado, não é o mesmo para todos que dividem a sigla.
Jean Pierr de Souza Viana Figueiredo , 52 anos, sociólogo e professor universitário
Homem cis, negro e gay. “Eu sou ouvido porque eu ocupo um outro lugar, mas pessoas da minha idade não são vistas nem ouvidas”. O professor discorre sobre as muitas facetas de envelhecer sendo parte da comunidade LGBTQIAPN+, e como o passado reflete na maioria delas.
A vida ensina
Durante o intervalo na escola, Witembergue lembra evitar o banheiro masculino. O desconforto de se trocar em frente aos colegas fazia com que enfrentasse as reclamações da professora ao insistir em ir quando todos estavam em sala. “Eu era uma criança afeminada. Por que eu tenho certeza disso? Por que eu sofria muito bullying, eu apanhava na escola”, expõe Jean com o sentimento que ambos os professores conhecem bem. Em contraste com o presente, a realidade alterada é perceptível e comemorada, mas o passado não impede a reflexão do que não puderam ter em sua época. “Essa geração, talvez, eles vão para os vestuários. Os garotos héteros já têm uma insegurança em relação aos garotos gays, mas na minha geração, não, a gente se escondia”, conclui o antropólogo.
A escola não era a única instituição que reprimia suas identidades, o círculo familiar e a base conservadora que se apoiava, também, foram marcos para os mais antigos dentro da comunidade. “Na época era muito difícil para os pais, até os irmãos, aceitar, devido serem machos, hétero mesmo”, Willames discursa ao recordar dos momentos em que vestia as roupas da irmã. Para Jean, o julgamento vinha das pessoas de fora, mas, diferente de muitos em sua posição, tinha a proteção da única parte que importava. “Uma pessoa que eu tenho certeza que me defendia era minha mãe. Ela era, sim, o que chama de leoa de fato. Ninguém podia olhar para mim torto”.
Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal
Foto: Vitória Guajajara
“Na família também não foi fácil. E ainda não é. Por quê? Eu tenho uma mãe criada dentro de uma perspectiva totalmente diferente. Eu tive uma educação religiosa muito firme”. A afirmação de Witembergue retrata uma existência que ainda é presente, mas, diferente de sua época, se mostra otimista para mudanças. De acordo com a pesquisa do Datafolha divulgada em 2022, 79% dos brasileiros defendem a aceitação da homossexualidade, enquanto 16% acreditam que deve ser desencorajada. Desde 2013, o índice de aceitação cresceu de 67% para o maior patamar registrado. No entanto, esses números não contam toda a história, o que se esconde internamente é o choque entre gerações e suas marcas que seguem vivas.
A falta de espaço
“As pessoas mais jovens hoje, já não têm esses estigmas que impuseram para mim”, destaca Jean. A parte “cruel”, descreve ele, vem do etarismo dentro da própria comunidade. A vida de glamour, que inclui performar sua essência, possui, de acordo com ele, uma data de validade. Com 30 anos, ele afirma haver uma espécie de “morte” para a parte mais jovem em que o sujeito já não é mais “atraente”. A exclusão vai desde as rodas de conversas com os mais novos da comunidade até os ciclos diferentes, que se dividem mesmo na hora de compartilhar uma cerveja.
“Os espaços são deterministas de comportamento. Nós temos uma geração mais nova que é mais livre. Porque tem uma geração mais velha que lutou por essa liberdade. Essa geração olha e diz ‘Ah, te liberta, você ainda é muito quadrado’. Não é isso, é porque houve uma composição de costumes, regras, hábitos, de normas”.
Witembergue discorre, além disso, da diferença de “exposição” nas redes sociais. Embora sua sexualidade não seja um segredo, o antropólogo escolhe a discrição nas poucas postagens com o marido. Algo que se distingue dos mais novos dentro da comunidade, que partilham livremente quase todos os aspectos de suas vidas.
Willames frise que se relacionar com outros homens no passado é um fator que explica um estilo de vida um pouco mais discreta: “Antigamente, para se relacionar com outro homem, não podia ser em público. Se pegasse dois homens juntos… ou matava, ou batia até morrer”. As transformações, no entanto, alcançaram a representatividade que é decisiva para que tantos jovens se expressem sem os muitos temores que assombravam seus antecessores. “Hoje já tem programa gay, tem gays que é apresentador, artista”, conclui ele.
Por dias melhores
Lutas e conquistas permitiram que o palco de desigualdade onde a comunidade LGBTQIAPN+ fosse transformado. As mudanças são claras e a compreensão traz à tona o que nunca os alcançou. “Hoje a gente vê os casais andando na rua, se beijam, de braço dado. Uma coisa normal, mas antigamente não era assim. No meu tempo não era assim.”, Willames observa. Apesar da maior visibilidade, a comunidade ainda enfrenta desafios estruturais que vão além da aceitação social. A evolução é perceptível, mas não significa que todas as batalhas foram vencidas.
“A gente só ocupou um determinado espaço de visibilidade. A sociedade não melhorou o comportamento, senão, não seríamos o país que mais mata trans, que violenta tanto mulheres como gays”. Witembergue compartilha dessa visão e avisa que essa aparente normalização leva a falsa sensação de que a luta terminou. Ele indica que, apesar do avanço na liberdade individual, o engajamento coletivo aparenta ter diminuído. “Parece que a galera diz assim: ‘Não, já está normal’. Naturalizou, banalizou”
Em termos de legislação, Jean reforça que a comunidade ainda precisa de avanços concretos. Ele aponta que muitas das garantias atuais vêm de interpretações jurídicas e não de leis específicas. O casamento homoafetivo, o crime de homofobia, dentre outras leis, são, para ele, amparos que podem ser retirados a qualquer momento. Atuando no coletivo Arco-ITZ, que reúne pessoas para discutir e engajar questões de gênero e sexualidade, ele vê a necessidade de um processo educacional contínuo para fortalecer a luta. “Tudo que nos ampara são entendimentos. Ainda tem muita coisa para lutar pela frente.”
Dar voz aos que protagonizaram tempos difíceis no passado, é permitir que a nova geração enxergue além do presente, entendendo que o envelhecimento também os alcançará. A compreensão entre as diferentes etapas da vida não é automática, mas necessária. Se a juventude toca a velhice, por que não ouvir aqueles que já trilharam esse caminho? Afinal, compreender o passado da própria comunidade é o primeiro passo para transformá-la.
Reportagem produzida por acadêmicos do curso de jornalismo da UFMA, campus Imperatriz, como produto de ensino da disciplina de Leitura e produção textual II, coordenado pela professora Camila Viana, e publicado no site Região Tocantina, editado pelo professor Marcos Fábio e diagramado por Eduardo Jorge.