terça-feira, 15 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #035 – QUIXOTE (Humberto Barcelos)

Publicado em 1 de junho de 2025, às 10:57

Na escola, a rotina se arrastava como um cachorro de rua, emaranhado em fezes e cacos de vidro. O sinal ecoou, um grito insensato que cortou o ar pesado, e Daniel, um garoto de 14 anos, pegou sua mochila, a mente cansada, tentando ignorar os murmúrios que serpenteavam pelos corredores. A travessia até a sala de aula era um ritual de resistência, um caminho pavimentado com risadas zombeteiras e olhares cortantes, que, embora sussurrados, o feriam como lâminas afiadas. Ele já estava acostumado; todo dia era a mesma música desafinada.
Era uma terça-feira, e Daniel segurava um volume de Dom Quixote, suas páginas amareladas eram como a pele de um velho amigo. O livro era seu porto seguro, um refúgio em um mundo que parecia conspirar contra sua existência. A frase de Cervantes ecoava em sua mente: “Quando se sonha sozinho é apenas um sonho.” Aquilo ressoava como um mantra, uma proteção contra o desespero que tentava engoli-lo.
Ao passar pela entrada da sala, sentiu uma mão nas costas, um empurrãozinho casual, mas que reverberava em seu corpo. Ele quase caiu, mas se reergueu, mantendo a dignidade. Atrás dele, a “trindade” maligna: Marcelo, Bruno e Leandro, os maestros do terror adolescente. “Ei, Quixote!”, zombou Marcelo, com aquele sorriso que mais parecia uma ferida exposta. “Vai lutar contra algum moinho hoje?”
Os outros riram, gargalhadas afiadas que penetravam a pele. Mas Daniel, com o livro apertado contra o peito, respirou fundo, desafiando as tempestades internas que ameaçavam abafar sua voz. “Luto contra gigantes todos os dias.” A resposta escapuliu como uma flecha, e Marcelo parou, surpreso. Ele não esperava um retorno, não naquele dia.
Nos meses anteriores, Daniel mergulhara em um universo de letras e versos. À noite, os grandes escritores lhe faziam companhia, suas palavras o envolviam como um cobertor quente em uma noite fria. “Seja como os pássaros…”, lembrou-se de Victor Hugo. Ele queria acreditar que tinha asas, que poderia voar acima do cinismo e da crueldade da escola.
No intervalo, Daniel caminhou para o pátio, como um lobo solitário. Sentou-se em um banco, isolado por escolha e necessidade. Ali, a solidão não era um fardo, mas um bálsamo. Com seu lanche, abriu O Diário de Anne Frank, admirando a coragem da menina que escrevia sob um teto de angústia e medo. “Apesar de tudo, ainda acredito na bondade humana.” Aquela frase o tocou como um sopro de ar fresco. Se Anne podia encontrar luz, ele também podia.
Foi então que uma bola de papel acertou seu ombro, a realidade interrompendo seu momento de paz. Olhou para o lado e lá estava Marcelo, rindo, com seus cúmplices. Raiva brotou, mas ele se lembrou de Orwell: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.” Daniel sabia que a vida não era justa, mas o peso das palavras o lembrava de sua força interior.
As aulas da tarde eram uma luta constante contra a distração. As provocações se arrastavam, mas ele mantinha o foco. Anotava, lia, respirava. Sempre que o ar pesava demais, buscava a segurança nas palavras de Shakespeare: “A paciência, perseverança e suor fazem uma combinação imbatível.” Não era fácil, mas Daniel se recostava em suas convicções.
Ao final do dia, a decepção estava escrita em sua mesa: “NERD IMBECIL”. Ele olhou para a frase, a tristeza lhe apertou o coração, mas então recordou Mandela: “Eu nunca perco. Ou eu ganho, ou aprendo.” Ele sorriu para si mesmo, a frase na mesa era só uma frase tola. “Sou muito mais que isso”, pensou.
Na caminhada para casa, com o sol se pondo como um artista cansado, Daniel sentiu um alívio. O dia fora um labirinto de desafios, mas ele sobrevivera. As palavras dos escritores não apenas o inspiravam; eram as correntes que o mantinham à tona, a esperança em um mundo que muitas vezes parecia cruel. Ele se lembrava: a verdadeira força vem de dentro.
Ao chegar em casa, foi direto para o quarto. Abriu O Pequeno Príncipe, e seus olhos encontraram a frase que sempre o acalmava: “Só se vê bem com o coração.” Um sorriso surgiu. Ele sabia que, mesmo que ninguém o visse, ele se via com clareza. Sabia seu valor.
E assim, noite após noite, livro após livro, Daniel enfrentava seus gigantes. O mundo era uma batalha, mas a literatura lhe ensinou que havia algo maior, algo que ninguém poderia lhe tirar. “A vida não basta”, sussurrou, enquanto se deixava levar pelas páginas, sonhando com um futuro onde os gigantes não mais o atormentariam. A esperança era um livro que ele ainda não havia terminado de ler.

SOBRE O AUTOR – Humberto Cupertino Barcelos nasceu em Formosa, GO, mas reside no Maranhão desde a infância. Por isso, se identifica como “goianense”, uma fusão de goiano com maranhense. É graduado em Letras – Língua Portuguesa e pós-graduado em Docência do Ensino Superior, além de possuir uma segunda licenciatura em Marketing Digital.
Membro da Academia Imperatrizense de Letras, onde ocupa a cadeira 17, lançou, nos últimos anos, os livros “Viver Não é Suficiente” e “Onde Está a Poesia?”, ambos em verso, além de “A Moça de Pele Marrom” e “A Noiva do Rio”, em prosa, nos formatos impresso e audiolivro.
Através das redes sociais, Humberto realiza um trabalho contínuo de divulgação da literatura maranhense, apoiando as iniciativas das Academias de Letras e seus acadêmicos. Seu objetivo é aproximar a comunidade, especialmente os jovens, dos projetos promovidos pelas Academias, com foco na educação literária.

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