A desconfiança mútua e os mal-entendidos entre Cibele e Oscar, criando uma tensão crescente até a revelação final.
A primavera partia cedendo espaço para as primeiras chuvas de verão. O céu claro e o calor ardente de Imperatriz eram um convite para um bom banho de rio na praia do Cacau. O dia dava ares de despedida para a chegada da noite. Naquele fim de tarde, Oscar chega em casa do trabalho, cansado da lida do dia, um tanto mal-humorado, mas friamente aplica um beijo na esposa que está sentada no sofá com o celular na mão, porém tentando relaxar da sua correria diária. Ela, sem muitas palavras, corresponde ao afeto, quase que por obrigação, parecia ter na cabeça um cordão de dúvidas e interrogações.
Cibele começa a notar mudanças no comportamento de Oscar: ele chega tarde em casa, evita responder perguntas sobre seu trabalho e parece mais distante. Ela começa a suspeitar que ele tem outra pessoa. Não importa qual o problema o homem esteja passando, quando muda de comportamento é esta a primeira ideia que se forma na cabeça da esposa: tem outra mulher na jogada. Ela conversa com Sara, sua amiga, que reforça suas dúvidas, sugerindo que Oscar pode estar escondendo algo.
Por sua vez, Oscar também começou a desconfiar de Cibele. O celular parecia ter mais importância que sua presença, e esse hábito vinha a cada dia se intensificando. Ele percebeu que ela estava mais distante, recebia mensagens constantes e, em um momento de descuido, Oscar vê Cibele rindo de uma mensagem que recebeu. Ele acredita que ela está envolvida com seu pior inimigo, Rafael, com quem ele tem uma rivalidade antiga. Anos atrás, Rafael e Cibele chegaram a ter um breve namoro que não vigou por muito tempo, mas que deixou resquícios que sempre incomodavam Oscar.
A escalada da desconfiança leva Cibele a começar a investigar as idas e vindas do marido. Cibele decide seguir Oscar em um de seus dias de “trabalho até tarde”. Ela o vê entrando em um café com uma mulher, mas não consegue ouvir a conversa. Cibele espera uma cena comprometedora, mas a conversa fica um tanto prolongada e decide tirar fotos para confrontá-lo mais tarde. No dia seguinte, em casa Oscar, consumido pela ideia de que Cibele o está traindo com Rafael, a questiona diretamente sobre suas mensagens e o tempo que ela passa no telefone. Cibele se ofende e nega qualquer envolvimento, mas Oscar não acredita.
Mais meticulosa, Cibele espera um momento mais propício e, como forma de defesa, confronta Oscar com as fotos que tirou. Ele revela que a mulher com quem ele se encontrou é uma colega de trabalho que acabara de ser demitida e veio pedir sua ajuda para que intercedesse por ela junto à diretoria, já que ele fazia parte do conselho administrativo da empresa, mas que não tem nenhum relacionamento amoroso com ela.
Ao mesmo tempo, reage e revela que estava desconfiado de Cibele por causa de Rafael. Ela ri e diz que nunca esteve em contato com Rafael, e que o motivo de suas mensagens e risos é porque estava ajudando sua amiga a organizar uma festa-surpresa para ele. Assim ele se sentiria culpado e ela sairia de vítima, pensou. O clima de Desconfiança criado entre Cibele e Oscar ficou insuportável, a paranoia parecia se instalar entre os dois quando, estrategicamente, ambos criam um perfil falso nas redes sociais a fim de um flagrar o outro, e acabaram por se surpreenderem com o desfecho de suas maquinações.
O casal, que até então compartilhava uma vida aparentemente estável, começa a ser tomado pelos ciúmes que o circundam. O relacionamento de um amoroso casal estava se tornando um relacionamento de vizinhos que apenas se toleravam. Pequenos gestos, conversas interrompidas e olhares suspeitos fizeram com que cada um, em sua paranoia, criasse um perfil falso nas redes sociais. A ideia era simples: descobrir se o outro estava escondendo algo. O clima de tensão entre eles foi crescendo, silenciosamente, mas cada vez mais palpável.
Ambos, sem saber, partiram para a mesma estratégia. O objetivo era flagrar o parceiro em alguma traição ou mentira. Assim, começaram a trocar mensagens com esses perfis falsos, sempre na tentativa de testar a confiança do outro. Cibele criou um perfil masculino/Marcos e coincidentemente Oscar criou um feminino/Rosa. Pensaram consigo que dessa forma seria mais fácil de se comunicarem sem que o outro desconfiasse e, após ambos aceitarem a solicitação de amizade, passaram a conversar perfil falso com o perfil real do parceiro, não fluiu resultado algum. Foi quando os avatares Rosa e Marcos começam a seguir um ao outro, mas sem perceber que estavam, na verdade, se comunicando entre si esposo e esposa.
Rosa e Marcos, os perfis criados, abrem uma fresta de confiança e apresentam um ao outro suas pretensas verdades a respeito de suas vidas, revelando o mal-estar de seus reais relacionamentos. E, na partilha de suas agruras, os avatares abrem a guarda e passam a despertar maior interesse um pelo outro, já que a rotina, antes confortável, de suas vidas reais, agora trazia silêncio e desconfiança.
Com identidades fictícias, eles se sentiam à vontade para explorar conversas online. Rosa, o avatar de Oscar, buscava aventura e distração, enquanto Marcos, avatar de Cibele, também procurava algo que a fizesse sentir viva novamente. Aos poucos, as conversas casuais foram se aprofundando, e o que começou como curiosidade se transformou em algo mais. Sem que se dessem conta, estavam se comunicando entre si. Agora, eram estranhos online, seduzidos pelas palavras e pelos mistérios que suas novas identidades ofereciam. Para que funcionasse, cada perfil usava as características e gostos reais de seus parceiros, o que de certa foram foi cativando um ao outro. Estranho, mas agradável e envolvente.
As mensagens trocadas iam de pequenos flertes a confidências profundas, segundo suas conveniências. Os perfis falsos traziam à tona um lado deles que, há muito, haviam esquecido. Oscar redescobriu em Cibele a doçura e a inteligência que o haviam cativado no início do relacionamento, sem saber que era ela. Cibele, por sua vez, se surpreendeu com o humor e a sensibilidade do homem por trás da tela, sem imaginar que era seu próprio marido.
Com o tempo, ambos se viram completamente apaixonados pelas versões virtuais um do outro. O desejo de se encontrarem pessoalmente cresceu a cada dia, até que finalmente decidiram marcar um encontro. A ansiedade e a expectativa eram palpáveis. Estavam certos de que aquele encontro mudaria suas vidas para sempre.
No dia combinado, ambos chegaram ao local marcado, o espaço de laser da beira-rio. A tensão aumentava à medida que o horário do encontro se aproximava. Quando, finalmente, se viram, o choque foi inevitável. Lá estavam Cibele e Oscar, parados um diante do outro, atônitos. A realidade virtual que haviam construído desmoronava diante da verdade: haviam se apaixonado novamente, mas não por estranhos — por eles mesmos, redescobrindo aquilo que havia se perdido ao longo dos anos.
A princípio, o silêncio foi constrangedor. Mas, aos poucos, um sorriso tímido surgiu nos lábios de ambos. Não havia mais como negar: os sentimentos eram reais, e o reencontro que tanto ansiavam era, na verdade, com quem sempre estivera ao seu lado. De forma inesperada, a mentira das redes sociais os trouxe de volta ao amor que julgavam perdido. O casal, que tanto se escondeu e desconfiou, agora se via obrigado a encarar a verdade. Com todas as cartas na mesa, ambos percebem que foram vítimas de suas próprias inseguranças e desconfianças. Eles decidem trabalhar em sua comunicação e confiança para evitar novos mal-entendidos no futuro. Cibele e Oscar se reconciliam, jurando não deixar que a desconfiança destrua o relacionamento deles novamente.

SOBRE O AUTOR – José Conceição da Silva, popularmente Zezinho Silva, é nascido em novembro de 1963, em Santa Inês – MA. Filho de Dejanira e João Valdivino, é casado com Carlisvonete e pai de Jose Henrique, Felipe e Gyanna.
É professor na rede estadual, no Colégio Militar Tiradentes, em Imperatriz.
Ama a literatura de cordel.
É graduado em Letras pela UNIASSELVI.
Tem três livros lançados: As Histórias do Lendário Joaquim da Mata, Um amor todo Especial e As outras aventuras de Joaquim da Mata e três participações, como coautor, em antologias.
É membro da AAL (Academia Aramense de Letras).