
Desde que a minha vida ficou desse jeito, tudo também ficou mais tranquilo. O pós-vida é deliciosamente escalafobético, por assim dizer, como diria meu pai: “é cabalístico”.
Ele era poeta, sabe? Na verdade, ele trabalhava em escritório, mas era escritor, vivia sempre divagando sobre a vida, a beleza, a eternidade e essas coisas.
Todos da família da minha mãe, meus irmãos, o achavam louco. Não vou negar que eu também achava, mas eu era fascinado pelos pensamentos, pelos escritos e todas essas coisas.
Mas voltando à minha vida… Não posso dizer que fui um bom aluno, ou um bom funcionário ou coisa assim. Eu era escritor assim como meu pai, felizmente pude trabalhar com isso. Eu era jornalista, trabalhei por pouco tempo, mas nesse tempo fui bem feliz, foram os melhores dois dias da minha vida.
Não poderia imaginar que a alegria por ter sido admitido num desses grandes veículos midiáticos seria repentinamente quebrada por um veículo grande passando por cima de mim. É quase cômico, ou trágico, a bem dizer, seria cômico se não fosse trágico… o humor de gente morta é tão mórbido… me disseram que é porque a vida é como um vinho: quanto mais envelhecemos, ficamos mais encorpados, mais sólidos, mas também mais secos, e vamos secando, até que sobre só a raspa.
No fatídico dia, eu acordei com um sorriso de orelha a orelha. Era uma terça-feira, já tinha sido devidamente recepcionado no trabalho no dia anterior e já tinha trabalho a fazer: uma mesa, uma máquina de escrever. Já estava quase apegado, confesso.
Mas pouco antes de atravessar a rua, eu a vi, com aquele vestido de cetim negro, olhos pretos com um brilho estranhamente atraente. Seu rosto era velho, mas delicado, era como uma rosa tingida com um rubro tão intenso que se confundia com o preto. Senti que já a tinha visto, e realmente já tinha, no velório de meu pai, sentada ao lado do caixão.
Ela me olhou por um segundo e sorriu, me olhou como quem encontra um velho amigo. Sorri de volta e segui meu caminho. Atravessei a rua e fui em direção à porta do prédio, mas um pouco antes de cruzá-la, me subiu uma angústia, algo no fundo do meu peito que me atravessou a garganta e me pesou a cabeça. Parei frente à porta, e a moça se dirigiu a mim e se apresentou: Sombra Adeláide de Mello e Queiroz.
Então, ela me abraçou e beijou minha testa. Era frio, mas era quase reconfortante. A ânsia cessou por um instante e não voltou até que eu visse uma comoção se formando logo diante de mim. Não passou pela minha cabeça o que poderia ter acontecido… alguém foi atropelado? Não ouvi barulhos, nem do carro, nem do golpe.
Quase que por um instinto (jornalístico), me movi pela multidão como se ela não estivesse ali, para chegar à razão, e poder ver o meu corpo estirado no chão pela primeira e última vez.
Sabe o que é engraçado? Reparar que é impossível ver o corpo fora dele mesmo, a ponto de ser chocante quando acontece. Foi uma das experiências mais interessantes que já vivi em minha vida… ou pós-vida.
Caí de joelhos imediatamente, não pude conceber aquele momento, e então Sombra, ou dona Sombra, que é como ela prefere ser chamada, tocou meu ombro com suas mãos ossudas e frias, como se me confortasse e me ofereceu um cigarro. Não fumo, mas naquela manhã fumei.
Não tardou até que os paramédicos e os bombeiros chegassem e retirassem meu corpo daquela rua do Catete, e então dona Sombra se ofereceu para me levar ao necrotério para que eu visse minha carne pela última vez. Fomos a pé, não era próximo, mas mesmo assim é como se todo o sentimento de imediatismo que se teria na morte de alguém fosse desnecessário. Como Sombra mesmo disse: “Você já foi, e não adianta mais correr atrás, viu? Como se corre atrás do que já ficou para trás? Se volta? Se espera?”. Não estamos falando de um objeto, meu amigo, foi a minha vida que ficou naquele asfalto quente… Ela sorriu para mim enquanto dizia isso.
Ainda não tinha percebido quem ela poderia ser.
Uma dama velha, vestida em panos negros, me olhando daquela esquina, enquanto eu era atropelado por aquele ônibus. Ao mesmo tempo que não era nada especial, era a única pessoa que precisaria estar ali esperando por mim. Todos eram opcionais: o advogado, a faxineira, o padre e o sacristão, embora ela fosse, ou talvez logo seja uma conhecida deles, ela não estava ali esperando por eles… Esperava só por mim.
E então percebi: aquilo que vivi há pouco era minha amiga Sombra. Se você ainda não entendeu, ela era o próprio acidente, ou o coração já renitente de sua sina, a chaga mal fechada, a vida bem vivida ou o amor verdadeiro, mas não correspondido, ou até, quem sabe, uma queda besta numa tarde de alegria, com a cabeça no chão da piscina de um amigo que eu quero muito bem…
Eu a olhei com estranheza, ela me olhou com um sorriso e me disse que não adianta mais odiá-la ou temê-la. Depois daquele beijo, eu fui igualado a todos.
Um escritor uma vez disse: “Cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”. Meu tio recitou isso no funeral do meu pai. Guardei essas palavras em algum lugar fundo da minha mente e nesse segundo me foram úteis. Pensei em vingança, pelo meu pai, pelo meu tio, pelo meu irmão, mas era fútil. Então reconheci: não se pode matar a morte.
Se não posso matá-la, só me resta aceitá-la, como uma recente e agora velha amiga.
Boa noite, dona Sombra…
SOBRE O AUTOR – Juan Terra Lima Dias, residente em São Luís, concorreu com o pseudônimo Charles Terra.