terça-feira, 11 de agosto de 2026

PROJETO UM CONTO AOS DOMINGOS – #004 – Viver é perigoso para as que vestem rosa! (Heloísa Sousa)

Publicado em 27 de outubro de 2024, às 11:50

Luana aprumou os passos se preparando para correr, uma grande, quase incontrolável vontade de olhar para trás, de olhar para o rosto de quem lhe espreitava e ameaçava. Mas não podia fazer isso. Precisava escapar. Não seria mais uma a fazer parte da triste estatística de feminicídio no Brasil. É jovem, acabou de fazer vinte anos. Tem ainda muita coisa para realizar.
Muito para viver. E sua mãe lhe esperava em casa. Não podia decepcioná-la. Afinal, ela só tem ela agora, depois de seu irmão ter morrido com uma bala do policial ao sair de madrugada de uma balada. Tão triste lembrar daquele dia não muito tempo atrás. Seu irmão tão alegre e cheio de vida e de planos. Inteligente, engraçado. Fazia troça de tudo, de uma sagacidade impressionante. Tinha ido comemorar sua aprovação na universidade e nunca mais voltou. Foi vítima de uma bala perdida… Impressiona como as balas se perdem com mais facilidade em comunidades pobres. Pretos e pobres simplesmente tombam e viram uma foto na parede descolorida e suja. Sua mãe nunca mais foi a mesma. Nunca mais voltou a sorrir. Passava o dia trancada em casa, sem ânimo para nada, sisuda, amargurada, os olhos opacos e sem vida, esperando…
Quanta dor uma mãe carrega ao enterrar o filho. Tão difícil quando a história se inverte. Não basta sofrer a dor de perder o único e amado irmão, havia a infinita dor de não poder trazer luz de volta à pobre mulher que agora só podia contar com ela.
Exatamente por isso não há espaço para o medo, para a entrega ou para a covardia. O medo é o que nos deixa vivos, e ficar parada e enfrentar o insano neste caso é sinônimo de morte. Calcula na mente o tempo que gastará até em casa em debandada carreira e impulsiona o corpo para frente, as pernas obedecendo o comando do cérebro em sintonia com o medo do inimigo. Seus pés ganham o protagonismo esperado e parecem voar no asfalto molhado e pouco regular.
Era uma figura graciosa e esguia varando a noite envolta em sombras pela parca claridade lançada em preguiçosos raios da luz amarelada que vinha dos poucos postes de rua, os braços segurando com força a pequena bolsa que guardava em seu interior algumas poucas moedas e sua identificação. Atrás carregava seus sonhos numa velha mochila jeans, o motivo de ter que sair, mesmo sabendo o quão perigoso era se expor ao mundo fora de casa em noites que escondem muito mais que o sol. Escondem a própria morte em homens que não aceitam um não. Que não respeitam a vida, que são movidos pelo desejo de pegar, tocar, estuprar e matar.
Quantas vizinhas e amigas não foram mortas ou caladas por dizer não.
A vida vivida, completa, desfrutada e sem medo não foi feita para as mulheres.
Seus ouvidos detectam passos tão rápidos quanto os seus em seu encalço e teme não conseguir chegar em casa. Seu coração disparado, os olhos cegos de medo, as mãos e pernas trêmulas.
Aumenta ainda mais a velocidade e reza. Senhor, misericórdia! senhor me ajude! Sente o coque se desmanchar e seus cabelos balançarem em volta do rosto, deixando-o ao alcance do marginal que a segue em igual corrida. Ouve muito próximo o barulho da respiração do desgraçado e uma mão que tenta desesperadamente lhe puxar pelo cabelo. Está a poucos metros de casa, olha a luz da varanda acesa e impulsiona a cabeça para frente, quando sente uma dor enorme ao ser puxada para trás por seus cabelos, respira e sente os olhos umedecerem de medo e ódio. Não, não será fácil não. Quando ele a puxa para si, Luana arremessa o corpo inteiro na direção dele ao mesmo tempo em que dá um grito de raiva e horror. Com a surpresa da reação dela, eles caem no asfalto gelado, ele sobre ela, tentando dominá-la, ao mesmo tempo em que tenta evitar com que grite, o que é inútil. Ela morde sua mão, arrancando pedaços de carne, e o gosto horrível de sangue entre seus dentes. É infernal a dor que sente ao receber no rosto vários socos, sua boca sangra e acredita ter perdido alguns preciosos dentes. E volta a gritar. Seu algoz tenta calar-lhe e ela novamente o morde com a força que lhe resta e cospe em sua cara medonha. Aproveitando sua surpresa e nojo, em um movimento ágil ela consegue soltar uma mão e numa procura desesperada pelo chão encontra um pedaço de viga de alguma construção ali por perto, e enfia-lhe no rosto, próximo ao olho. Ele se enche de ódio e dor e com ambas as mãos lhe aperta o pescoço, ela esperneia, sem conseguir mexer o corpo com o peso dele sobre ela. Sabe que vai morrer e chora lembrando da mãe lhe esperando inutilmente. Não, eu não posso morrer. E em mais um esforço sobre-humano, retorce o corpo ao mesmo tempo em que vê o olho dele praticamente fora do lugar com a pancada certeira da viga. Consegue forças para lhe acertar com o joelho no meio das pernas, o que faz com que ele diminua a pressão em seu pescoço.
Muito cansada, ela grita com todas as suas forças, o que não passa de um gemido, e segundos depois, não vê mais nada.
Horas mais tarde, recebe uma visita no hospital. Era um policial ainda jovem, parecendo meio sem jeito. Ela entendeu que foi a pessoa que acertou o marginal que quase lhe tira a vida. E trouxe para lhe entregar algo de que ela não tinha sentido falta ainda, sua mochila jeans. Luana tenta sentar na cama e pegar sua mochila para olhar se não faltava nada. Nada… carregava tão pouco. Volta a deitar, com dor na cabeça e no corpo. Ele leva a bolsa até a cama e a ajuda a abrir.
Ela, com os olhos marejados, retira de lá um par de sapatilhas velhas e gastas, amarradas numa fita de cetim cor de rosa. Um par de meias e uma surrada colan de ginástica. Se abraça a elas, encolhendo o corpo pequeno em posição fetal, com voz embargada fala que tinha que chegar em casa para dizer para a mãe:

– Mãe, eu fui selecionada para compor o corpo de balé de uma grande companhia do Rio de Janeiro.
E chorou.
(08.04.2019)

Imagem cedida pela autora

SOBRE A AUTORA – Heloisa Helena Santos de Sousa – Possui graduação em Licenciatura plena em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA – 1995) e Especialização em Literatura Infanto Juvenil pela mesma Universidade (2008) . Atualmente, é Professora de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Luís (SEMED) e aposentada da Secretaria Estadual de Educação do Maranhão (SEDUC). É Escritora, romancista e possui um livro publicado e várias participações em antologias; é artista plástico]a com experiência em diversos materiais. Tem experiência na área de Língua Portuguesa, Poesia, Romances, Contos , Crônicas, Literatura e Artes Plásticas.

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