sexta-feira, 19 de julho de 2024

NEM TUDO É TÃO RUIM

Publicado em 7 de julho de 2024, às 9:57
Fonte: Elson Mesquista Araújo – Advogado, jornalista, escritor, membro da Academia Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão
Excited student guy with closed eyes keeping fingers crossed. Portrait of handsome young man in casual standing over pale outdoor wall. Making wish or desire concept. Imagem: FreePik Premium

O cara era a superstição em pessoa. Só levantava e saia de casa se fosse com o pé direito. Passar por debaixo de escada, só se fosse amarrado. Numa determinada sexta-feira, bem cedo, ao se dirigir até a padaria cruzou com um gato preto. O dia acabou bem ali. Voltou para casa, se enrolou no lençol, trancou a porta do quarto e só saiu na manhã seguinte.

O mecânico Pedro Retentor era a superstição em pessoa. Para se “defender”, além de só sair de casa com o pé direito, gastava antes uns 30 minutos fazendo rituais de proteção. Só depois ia para o trabalho. Naquele dia, Retentor trabalharia numa dessas caminhonetes robustas de fazenda. O carro não pegava de jeito nenhum e o dono estava agoniado. Queria voltar logo para a roça.

O veículo, ainda como resultado da viagem anterior, estava coberto por lama. Além disso, havia galhos de mato na carroceria e enganchados nos pneus, sujos de bosta de vaca. O para-brisas também estava muito sujo. O lavador ia ter muito trabalho para limpá-lo. Como é comum nesses casos, o dono do carro deu uma pista para Pedro sobre o possível problema. Ato contínuo ele abriu logo o capô. O susto foi grande demais. Saltou uns três metros para trás, tropeçou, caiu e já se levantou com um baita de um facão na mão.

Uma cascavel estava acomodada no motor da caminhonete e, ao se sentir incomodada, deu o bote que quase atingiu Pedro Retentor na região do pescoço. O mecânico partiu para cima da peçonhenta com o facão, mas foi impedido de matá-la por um estudante que logo chamou o povo do meio ambiente. O animal foi então capturado e solto depois numa área de preservação ambiental perto dali. O coitado do Pedro Retentor ficou encabulado demais.

“Será que fiz algo errado?” Qual o significado do ataque daquela cobra? Ficou o resto do dia pensativo. De repente o mecânico lembrou que no meio da semana tinha sonhado muito com o número nove e nove era o número da cobra no jogo do bicho. Pronto, tinha identificado a ocorrência. Naquele dia Pedro voltou para casa feliz, contente e satisfeito. Ganhou uma bolada no famoso jogo ao apostar metade do que ganhava na cobra.

Ao chegar em casa, Pedro decidiu comemorar o inesperado golpe de sorte. Comprou uma garrafa de cachaça da boa e um frango assado na padaria da esquina. Enquanto se deliciava com o banquete improvisado, pensou sobre como a vida às vezes pregava peças estranhas. Se não fosse pela cobra, ele nunca teria lembrado do sonho e muito menos teria apostado no jogo do bicho.

Nos dias seguintes, Pedro não parava de contar a história para quem quisesse ouvir. No bar, na oficina, até na fila do mercado, ele repetia como uma cobra havia mudado sua sorte. As pessoas ouviam, algumas riam, outras achavam que ele estava inventando. Mas ele não se importava. Cada vez que contava, mais convicto ficava de que havia algo de místico naquela experiência.

Um mês depois, Pedro estava na oficina novamente quando um cliente novo entrou. Era um fazendeiro da região que precisava de ajuda com o trator. Ao começar a conversa, o homem mencionou ter ouvido falar da história da cobra. “Você é o famoso mecânico que teve a sorte mudada por uma cascavel?” perguntou ele. Pedro, surpreso, confirmou com um sorriso. O fazendeiro então fez uma proposta: precisava de alguém supersticioso como ele para cuidar da frota de tratores da fazenda. Pedro aceitou na hora, convencido de que, afinal, nem tudo é tão ruim quanto parece.

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