sexta-feira, 19 de julho de 2024

De contos, causos e oralidades – Kafka e a mulher de bata

Publicado em 25 de junho de 2024, às 11:14
Fonte: Helena Frenzel – romanista, letripulista, contadora de causos.
Imagem gerada por IA.

A mulher estava na sala. Vestia uma bata de hospital, daquelas com abertura nas costas que deixava ver a bunda nua. Era uma bata branca com estampado verde de flores miúdas, tão separadas entre si que ao longe pareciam pontinhos verdes. Essa mulher estava numa sala que parecia ser um auditório. Havia um palco, várias raias de assentos virados de frente para esse palco e a nossa mulher estava numa raia ao lado dos assentos e do palco, permitindo ver em diagonal quem estava nos demais assentos. Parecia que naquela sala estava havendo um ensaio de um coral, mas na verdade era um tipo de prova, ao que parece.

          No jornal saíra um anúncio: “Precisa-se de novas vozes!” E havia vários homens na plateia, e também mulheres, e as mulheres cantavam algo que era regido por uma outra mulher que estava na frente. A mulher de bata de flores verdes tentava cantar junto com as outras mulheres do coral, mas não sabia a letra nem as notas de cor.

          Ali, da raia de assentos ao lado do palco, ela olhava a plateia e seus olhos se fixavam nas bocas das mulheres que cantavam, tentando adivinhar o que pronunciavam, e seus olhos batiam nos homens que assistiam e que, com seus olhares assustados, pareciam perguntar: “Mas onde estão as vozes masculinas?” Cantem junto, ela pensava.

          Num dado momento, terminada a cantoria, a mulher da bata branca de florzinhas sentiu que necessitava ir ao banheiro. Ela tinha com ela uma mochila de tom azul não tão marinho, e que claro também não era, e sim um tom dos tantos que se metem nesse meio. Pois dentro dessa mochila estava uma carteira de couro, de cor verde, com seus cartões de crédito, documentos e um pouco de dinheiro. Tudo o que estava naquela mochila parecia ser importante para a mulher de bata, no entanto ela nem pensou nisso ao perceber que precisava ir ao banheiro. Levantou-se e foi, deixando à mostra a bunda e as costas, descobertas pela bata que levava, mas ninguém de dentro da cena observou esse detalhe, só as pessoas que olhavam para esse cenário do ponto de vista de quem agora está lendo este relato notou o absurdo da situação. Seria de fato um absurdo ou na verdade seria a coisa mais natural da vida, a pele nua, desprotegida? O absurdo é a normalidade, esse parece ser o resumo da realidade, não?

          E a mulher saiu andando com a bata aberta nas costas e ninguém parece que a estava vendo, com a bunda à mostra, muito menos ela parecia estar consciente do que estava mostrando, todas as demais mulheres estavam vestidas à moda Anos Cinquenta: vestidos coloridos com saias largas. As mulheres levavam chapéus pequenos com detalhes de renda na testa. Os homens também usavam chapéus, que não eram redondos, e também não eram do tipo melão, eram cubanos, mas não eram de palha.

          A nossa mulher de bata saiu do auditório e parecia que ia caminhando tranquilamente pelos corredores de um aeroporto ou rodoviária. Ela estava à procura de um banheiro ou lavabo, e encontrou o que estava procurando. Entrou, fechando a porta atrás de si e não demorou muito lá dentro, mas uma vez lá, sentada no vaso, de repente começou a se preocupar, pensando na preciosa mochila que havia esquecido na sala do auditório, e imaginando que quando voltasse não a encontraria mais no lugar onde a havia deixado, e aquele pensamento começou a angustiá-la, e ela só pensava em terminar o que fazia naquele lavabo para dar meia-volta e tentar recuperar o objeto ali deixado, dando alças a mãos vazias.

          Por que as pessoas têm a mania de pegar coisas que não lhes pertencem?, perguntava-se. Pensou no aborrecimento que teria ao perder os cartões dos bancos, e também os cartões de crédito, e ficou batendo cabeça tentando lembrar se na carteira levava também alguma informação que facilitasse o acesso a outras coisas essenciais da vida dela. E ela tinha uma vida? Não sabia. A única coisa que a corroía era a vontade de chegar o mais rápido possível ao auditório e ainda encontrar a mochila no lugar em que a havia deixado, intacta.

          E a agonia é uma coisa que começa pequenina como um câncer, e vai crescendo, até tomar conta de tudo numa desvairada metástase, que nada mais é do que a loucura das células tomando conta de todos os espaços do corpo, por dentro. E enquanto ela vivia aquela agonia, de se encontraria a mochila ou não, ali onde a deixara, a nossa mulher de bata pensava em Franz Kafka, e que ele morreu em 3 de junho de 1924, num sanatório, afogado pela tuberculose, doença que praticamente comeu a sua laringe, fazendo-a diluir-se em sangue, e ele morreu uma horrível e dolorosa morte, dizem os biógrafos.

          E ela, enquanto corria pelos corredores do prédio buscando voltar ao auditório, pensava no homem do conto de Kafka, que saiu de casa querendo ir à estação (de trens, provavelmente) e que, sem saber por onde ir, ocorreu-lhe perguntar a um estranho o caminho, como se os estranhos soubessem melhor do que nós próprios o que precisamos e por onde devemos ou queremos ir, não é verdade? E o estranho virou-se para o homem e perguntou o óbvio: “Você quer que eu lhe indique o caminho?” Sim, era isso o que o homem do conto de Kafka parecia esperar, e o estranho respondeu mais ou menos isso: “Desista, camarada!”, e seguiu o seu caminho existencial após uma virada súbita, como aqueles que seguem em frente escondendo a cara, tentando conter risinhos.

          De repente ela compreendeu, a mulher de bata, que não há nada a ser feito. O que está perdido, está perdido; o que foi achado, foi achado. E a agonia, nesse sentido, se dissipou como fumaça onírica, literária, na névoa de poucas páginas. E essa é a mágica, tanto a de Kafka quanto a da mulher de bata, porque tudo o que é das almas desencarna nas palavras.

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