quinta-feira, 6 de junho de 2024

MARIA FIRMINA DOS REIS E AS BORDAS DA ATHENAS BRASILEIRA

Publicado em 30 de maio de 2024, às 11:02
Fonte: Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor. Membro das Academias Bacabalense e Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz (IHGI)
Imagem cedida pelo autor

O Livro de Maria Firmina dos Reis, Úrsula, me causou um grande impacto, como vocês podem perceber pois este já é o segundo texto que escrevo sobre ela e ele. Não o livro em si, pois também já disse que não é nada mais que um “romance romântico”, na mais ampla acepção do termo, da estrutura e do movimento a que ele se vinculava.

Meses atrás, publiquei um artigo sobre o fato de a autora e a obra estarem reservadas ao cemitério dos livros maranhenses esquecidos. Toda a divulgação que hoje se faz de ambos é uma fagulha na grande luz que mereciam. Mas não receberam.

Agora quero abordar outro aspecto, para mim tão importante quanto o romance e a sua autora, que é a sua circulação.

Quem leu Úrsula pôde verificar que Maria Firmina não o autografa. Ele é publicado sob o pseudônimo “Uma Maranhense”. Quem lê o prefácio da obra entende a razão disto: o texto deste prefácio é quase um pedido de desculpas da autora pelo atrevimento de ter incursionado por caminho apenas liberado a pessoas letradas e importantes – em geral, bacharéis, brancos e ricos.

E aí, é preciso lembrar que a autora traz o livro à luz em 1859, dentro do período de consolidação do que se convencionaria chamar, por toda a segunda metade do século XIX e até hoje, de a Athenas Brasileira, para se referir a São Luís – e, por extensão, ao Maranhão, num exercício metonímico.

Maria Firmina, mulher, negra, residente e domiciliada em Guimarães, interior maranhense, professora de primeiras letras, tinha todos os predicados para não entrar na “ordem do discurso” literário ateniense (para lembrar Foucault). Não lhe era dada a possibilidade que escrever e ter sucesso com seu romance, que ademais denunciava (na sua linguagem adocicada, mas denunciava) a escravidão e todo o seu rol de vilanias.

Úrsula estava bem distante do que o professor e historiador Henrique de Paula Borralho, na sua tese de doutorado (A Athenas Equinocial: a fundação de um Maranhão no Império Brasileiro), qualifica de “Pentarquia Maranhense” – os cinco pilares da construção do mito intelectual da Athenas Brasileira, a saber: o matemático Joaquim Gomes de Sousa; o jornalista João Francisco Lisboa; o gramático Francisco Sotero dos Reis; o tradutor Manuel Odorico Mendes; e o poeta maior, Gonçalves Dias. Estes eram os maiores representantes do que Borralho chama de “os homens-semióforos”, os faróis a levar as luzes da pequena joia insular maranhense para o resto do Brasil.

Essa construção identitária, uma verdadeira “tradição inventada” para concordar com o historiador Eric Hobsbawn, foi tão forte que criou várias gerações: Os Atenienses, Os Novos Atenienses, Os Novíssimos Atenienses e até hoje viceja. Lembro que, ali pelos anos 1990, quando era mais forte o debate se São Luís era Jamaica Brasileira, muitos intelectuais mais ortodoxos diziam que quem já foi Athenas jamais poderia ser Jamaica… (para bom entendedor, não é preciso dizer muita coisa…).

Absolutamente, neste cenário de intelectualidade helenística a obra de Maria Firmina não teria espaço de visibilidade. Nem ela. O livro e a autora circularam, então, pelas bordas da Athenas Brasileira. Para chegarem até aqui e receberem um relativo reconhecimento – mas para além da ilha…

Uma resposta

  1. Eu acredito que a Maria Firmina que o poeta Nascimento de Moraes descobriu a sua obra, se não me falha a memória em 1975, e escreveu sobre ela. Houve um grande resgate do seu nome como mulher das letras, negra maranhense de origem escravagista. Ela é a única mulher escritora que tem busto na praça Marechal Deodoro. Ela é patrona de academias em várias unidades estaduais do Brasil. No seu Bicentenário de nascimento foi homenageada por várias obras Literárias, inclusive participei de uma antologia poética como coautor de 3 poemas. Além que é objeto de estudo de universidades e de mestrandos e doutorandos. O cabo de Internet que saí daqui do Brasil, via oceano atlântico ao restante do mundo, leva o seu nome. Tem vários poetas escritores, também importantes para nós maranhenses que estão nos túmulos, que tiveram valiosíssimas obras para o acervo literário maranhense e brasileiro. Nunca receberam uma homenagem nas academias e do poder público. O brasileiro mesmo tem essa qualidade negativa de matar no silêncio do tempo os seus heróis. Mas tem aqueles que são celebrados e os que gostam das suas obras querem mais deferência. Eu particularmente também gosto da importância da Maria Firmina na cultura, educação e na literatura maranhense brasileira. Mas ela não está totalmente esquecida.

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