sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Artigo de segunda #13 – CONCEIÇÃO EVARISTO E SEUS OLHOS D’ÁGUA

Publicado em 20 de novembro de 2023, às 5:43
Fonte: José Neres – Professor. Membro da AML, ALL, APB e da Sobrames-MA
Imagem cedida pelo autor.

A escritora a professora mineira Conceição Evaristo é um dos nomes mais representativos da literatura brasileira nestas primeiras décadas do século XXI. Seus contos, romances e poemas têm sido bem acolhidos pela crítica e são aclamados e recomendados por leitores de todas das regiões do Brasil.

Embora venha publicando em antologias desde a década de 1990, foi somente em 2003 que Conceição Evaristo publicou seu primeiro livro individual – o romance Ponciá Vicêncio. Depois vieram outros romances, como é o caso de Becos da memória (2006) e Canção para ninar menino grande (2022). Em 2017, veio a público seu livro intitulado Poemas da recordação e outros movimentos. Também são bastante conhecidos e apreciados seus contos que fazem parte de livros como Insubmissas lágrimas de mulheres (2011), Histórias de leves enganos e perecenças (2016) e o festejadíssimo Olhos D’Água, cuja primeira edição é de 2014.

O Livro

Olhos D’Água é um livro de autoria de Conceição Evaristo no qual a autora reúne 15 contos, todos enfatizando a história de vida de personagens marginalizadas e invisibilizadas socialmente. Um dos interesses da autora em suas narrativas é expor algumas fraturas sociais e narrar histórias recheadas de personagens que pertencem às classes sociais mais baixas, que convivem com outras personagens da mesma esfera social e que também sofrem as agruras de uma vida difícil e cheia de percalços.

No livro, além, dos contos, o leitor encontra uma introdução escrita pela médica e ativista feminista Jurema Werneck e como um prefácio assinado pela professora Heloisa Toller Gomes, autora de diversos estudos sobre a presença do negro na história e nas literaturas, que chama atenção para o fato de que no livro de Conceição Evaristo, as personagens serem retratadas “sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira”.

Os contos são escritos em uma linguagem ao mesmo tempo crua e poética, geralmente em um estilo neorrealista, com temáticas que vão desde o protagonismo feminino até a exploração do homem pelo próprio homem, passando por questões como sexualidade, gravidez na adolescência, aborto, mendicância, prostituição adulta / infantil, violência urbana, busca de identidade, estupro, sexualidade humana, intolerância, fetiches e barriga de aluguel, entre outros.

Assim como fez autores como Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo optou por, em suas narrativas, retratar personagens do povo que necessitam sobreviver dentro de situações adversas. Ao longo das leituras, geralmente, o leitor é levado a sentir alto grau de empatia pela trajetória de vidas das personagens.

Os Contos

Conceição Evaristo constrói suas narrativas apresentando um ponto fulcral da vida de alguma personagem. A partir daí, ela aproveita para fazer breves mergulhos na história de vida dessas personagens, resgatando alguns momentos essenciais para a construção da identidade e dos problemas que podem servir como gatilho para o cerceamento de algumas atitudes ou mesmo como elemento motivador para prosseguir na busca de algo.

Logo no primeiro conto – que dá título ao livro – a narradora parte de uma dúvida acerca da cor dos olhos de sua mãe para, a partir daí, rememorar detalhes de uma infância sofrida, quando “as labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio de nosso estômago” (pág. 16). Nesse conto, a sinestesia tem um papel extremamente importante para o desenrolar da história, que é praticamente toda pautada com base em um tempo psicológico. Os odores, as cores e as demais sensações guardadas na memória da narradora-personagem contrastam com a dificuldade de lembrar-se da cor dos olhos da própria mãe e a levam para uma busca de suas origens.

É comum nos contos de Olhos D’Água a presença de um recuo no tempo para que a narrativa ganhe sentido e fluidez. É o que ocorre, por exemplo em “Ana Davenga”, “Duzu-Querença” e “Maria”. Nessas e em outras histórias do livro, a autora decidiu fazer um jogo de encaixes narrativos (Mise en abyme) para que o leitor possa se aproximar da história de vida das personagens e assim compreender melhor suas motivações e os desfechos (que geralmente são trágicos).

Dessa forma, ao assumir o nome de seu amado como complemento de seu nome próprio, Ana passa a fazer parte também do destino de Davenga, um homem grande, bonito e forte, chefe de um bando de malfeitores, capaz de encomendar a morte de uma antiga amante, mas que se torna quase uma criança quando se aconchega nos braços de Ana. Nesse conto, o narrador deixa bem expostas as tênues linhas que separam o desejo erótico do respeito; a violência insana e a entrega amorosa, os momentos de felicidade e a tragicidade de uma decisão tomada. Não é por acaso que todo o desfecho se encaminha para a execução de Ana, Davenga e da criança que ainda está em estado de gestação.

No caso de “Duzu-Querença”, o hífen que aparece no título traz ao leitor uma ideia de continuidade, de uma espécie de itinerário que precisa ser completado. Duzu, a menina ingênua que sai com a família de sua terra natal rumo à cidade grande na esperança de conseguir um futuro melhor, acaba entrando sem querer em um turbilhão de situações que a levam para a prostituição, para uma continuidade da miséria inicial, para a loucura e para a morte. Sua neta, cujo nome é Querença, representa uma proposta de mudança de rota de uma família fragmentada desde suas origens e fadada a um destino trágico. Possivelmente, Duzu é a personagem de melhor construção ao longo do livro. Uma personagem que prende a atenção do leitor e que, de certa forma, representa a estonteante, rápida e incontrolável passagem do tempo e as várias bifurcações oferecidas pela vida antes de um desfecho definitivo e que oscila entre a poeticidade do léxico selecionado e a crueldade dos acontecimentos narrados.

Dando continuidade à tendência de utilização de desfechos trágicos, Maria, personagem do conto homônimo, é vítima do início ao fim da narrativa. Sua existência é atravessada por infortúnios, por desencontros e por fatalidades. Ao utilizar um nome bastante comum para sua personagem principal e o anonimato para seu antigo marido, que agora ganha a vida como assaltante de ônibus, a autora consolida em seu texto uma noção de simplicidade e de um cotidiano que permeia a vida das pessoas em qualquer local onde estejam. Ao mesmo tempo mostra o elevado grau de intolerância que cerca todo o ambiente.

Por outro lado, Natalina, a protagonista de “Quantos filhos natalina teve?” é uma personagem que simboliza diversas representações sociais. Ela é, em determinado momento, a garota inocente que se vê seduzida e engravidada pelo namoradinho da pré-adolescência. É a jovem explorada como barriga de aluguel, a fim de satisfazer o desejo de um casal bem situado na vida. É a mulher decidida que “não queria ficar com ninguém. Não queria família alguma. Não queria filho” (pág. 46). Mas também não deixa de ser uma sobrevivente das diversas violências, inclusive das sexuais, e que pode assumir atitudes vingativas e violentas contra seus agressores. De modo metafórico, Natalina (cuja origem do nome remete a nascimento) não é apenas uma mulher que tem facilidades para gerar filhos. É, sim, uma mulher capaz de renascer logo após superar as adversidades impostas pela vida.

Em “Ei, Ardoca”, Conceição Evaristo apresenta Ardoca, um rapaz angustiado com a vida e que, que se habituou a viver no meio da violência e que, em suas viagens de trem, já “assistiu inúmeras vezes, como testemunha cega e muda, a assaltos, assassinatos, tráfico e uso de drogas nos vagões superlotados” (pág. 96). Poucos são os passageiros que percebem que ele está passando mal no trem. Um conhecido aproveita-se da situação e leva todos os pertences do rapaz já morto. Só após o desfecho o leitor fica sabendo o motivo pelo qual o rapaz havia passado mal no vagão. Mas nada mais interessa. O estigma da violência é também bastante explorado no conto “A gente combinamos de não morrer”, no qual a amizade, desconfianças e o sentimento de vingança entrelaçam as personagens a um destino comum e trágico. São pessoas que têm a certeza da morte, mas que se agarram à transmissão de suas aventuras como modo de sobreviver ao tempo e à degradação social na qual estão inseridas.

Essa sensação de vazio e de abandono é também a tônica do conto intitulado “Di Lixão”, um rapaz que ganhou esse apelido por conta do hábito que tinha de sair chutando as latas de lixo que encontrava pelo caminho. Uma fortíssima dor no dente o leva a perambular pelas ruas da cidade. Di Lixão é mais uma das personagens desalentadas tão comuns na obra ficcional de Conceição Evaristo. Assim como ocorre com a maioria das personagem de Conceição Evaristo, seu destino inexorável é a morte, o abandono e o consequente esquecimento de sua passagem pelo mundo.

Salinda é a protagonista de “Beijo na face”. Ela tenta se desvencilhar de uma relação abusiva com o pai de seu filho e ao mesmo tempo tenta ocultar da sociedade um, relacionamento secreto com uma outra mulher. A bissexualidade (ou o homoerotismo feminino) é também uma das temáticas do conto “Luamanda”, que tem como protagonista uma mulher que beirava aos cinquenta anos, mas a quem “nunca alguém havia lhe dado mais de quatro décadas de vida”. Ao longo da narrativa, Luamanda relembra a descoberta do próprio corpo, da sexualidade, do prazer sexual aos treze anos. Ela também se recorda de haver, pouco tempo de pois, experimentado “o amor em braços semelhantes aos seus” (pág. 61). No meio de suas recordações aparecem a imagem de outros tantos amores vividos, com pessoas mais jovens, mais velhas, com homens e com mulheres, até despertar para o fato de ter um encontro marcado para aquele momento.

Todos os contos de Olhos D’Água apresentam para os leitores problemas que até poderiam ser solucionados, mas que são perpetuados por práticas políticas e sociais, ela aproveita a literatura para denunciar situações que nem sempre fazem parte das discussões cotidianas.

Como nosso interesse não é substituir a leitura desse livro, mas sim estimular o contato com os contos dessa grande escritora de nossas letras, indicamos que há outros textos que não foram aqui citados, mas que também merecem uma leitura atenta. Ler Conceição Evaristo é sempre uma experiência estética que leva cada um de nós a perceber que a literatura pode refletir uma realidade que às vezes teimamos em não ver.

2 respostas

  1. Excelente resenha de “Olhos D’água”. O objetivo de estimular a leitura da obra da escritora foi atingido. Fica a dica, leia a Resenha, vale a pena!
    Parabéns amigo, você sempre nos presenteando com seus textos.

  2. Olhos D’água,de Conceição Evaristo, escritora mineira, em contos, aqui comentado pelo Escritor J Neres nos brinda com um texto que mostra a qualidade da Escritora e os questionamentos da autora, neste livro. PARABÉNS NERES.

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