sexta-feira, 14 de agosto de 2026

De contos, causos e oralidades – A Elisa dos gansos

Publicado em 19 de novembro de 2023, às 8:05
Fonte: Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.

Quem acompanha esta coluna sabe que gosto de colecionar fábulas, lendas e causos. Desta vez, trago a você, pessoa que está me-lendo, uma lenda da região da Alemanha chamada Sarre, que embora seja a menorzinha dentre suas irmãs, tem encantos muito especiais. E antes que digam que estou puxando a sardinha para o lado sarreático, lhes faço lembrar que, como diz o ditado: É nos pequenos frascos que se encontram os melhores perfumes.

Sim, mas o Sarre ou Saar, que assim se chama por conta do rio que corre na França e na Alemanha, é vista como uma região bastante peculiar. Isso se deve ao fato de haver pertencido, por muitos anos, ora a um país ora a outro, num ping pong político que se encerrou após a Segunda Guerra Mundial, quando os habitantes decidiram num plebiscito que a região pertenceria ao território alemão. E por ser território de fronteira, eis um terreno fértil para muitas histórias, muitas das quais contadas como fábulas ou lendas, mas com um pé bem fincado na realidade.

No ano de 1648, quando a cidade de São Luís do Maranhão tinha só 36 aninhos, uma vez que foi fundada em 1612, a Europa estava vivendo os últimos dias da chamada Guerra dos Trinta Anos, um conflito político-religioso entre católicos e protestantes que gerou muitas vítimas. Dentre elas muitos órfãos, como uma menina que ficou conhecida no povoado onde vivia como “A Elisa dos gansos”. Isso, porque tinha a tarefa de cuidar de todos os gansos da comunidade, como forma de pagar pelo pouco de casa e comida que recebia.

Elisa, por não ter família, se apegou aos gansos dos quais cuidava e passava com eles muito tempo nos bosques, tempo suficiente para descobrir lugares dos quais ninguém mais parecia saber da existência, principalmente no verão, quando a mata cresce enormemente e tapa os buracos que se vê na paisagem durante os meses de inverno. Elisa costumava passar o dia inteiro fora, com o seu “rebanho”, se alimentando do que a mata lhes dava e, à tardinha, voltava ao povoado com os bichos para pernoitar.

Contam que, por ser muito pobre e só possuir a roupa do corpo, ela era alvo de chacota por parte das pessoas, sobretudo das crianças maiores, que se divertiam muito em ficar caçoando dela e fazendo troça… o tal do bullying, como dizem por aí!

Pois no final da guerra lá dos Trinta Anos, sem ter o que fazer da vida, porque não tinham trabalho, muitos soldados passaram a invadir povoados e saquear, cometendo as maiores atrocidades e deixando um rastro de casas queimadas por onde passavam.

Eis que um belo dia, um grupo desses soldados passou pelo povoado onde Elisa vivia e fez a festa, como se diz, só que num sentido macabro, espalhando o terror e fazendo com que os moradores fugissem assustados levando só o próprio corpo e o que podiam carregar. Como sempre, em todas as guerras, os pobres são os que mais se lascam...

Elisa, que passava os dias na mata, não tinha como saber que o povoado havia sido invadido e vinha andando despreocupada por uma trilha quando um dos soldados, ao longe, deu com um olho nela. No mesmo minuto, a bichinha se embrenhou no bosque e tratou de voltar para onde havia deixado seus gansos, uma clareira à beira de uma fonte que se escondia no centro de umas formações de pedras enormes, e que para se chegar, só mesmo conhecendo as passagens que a mãe natureza por ali havia deixado, ou escalando as rochas. Os soldados entraram na mata e se danaram a procurá-la, até que desistiram e acharam melhor seguir com a rota de saques em direção ao próximo povoado. Os gansos, pressentindo o perigo, ficaram todo o tempo quietinhos, e esse comportamento é algo que só mesmo a mãe natureza pode explicar.

Elisa, que não era besta nem nada, exatamente porque era órfã, esperou uns dias no seu esconderijo até que achou seguro sair. De mansinho, mansinho foi se aproximando da vila para ver o que havia restado. Vendo que os soldados haviam partido e que os habitantes começavam a retornar para reparar o estrago, ela foi até o prefeito e ele, em vez de recebê-la com alegria, já que estava sã e salva, foi logo dizendo que circulando, circulando, que ali não tinha comida pra todos, já que os soldados haviam levado todos os bichos e ela, que era filha de Seu Ninga, que fosse procurar outro lugar pra ficar!

Com um olhar de justiça, que só os corações puros são capazes de produzir, Elisa pôs as mãos nas cadeiras e disse aos habitantes: “Pois até poucos dias eu era a pessoa mais pobre desse lugar, marragora, sou a mais rica, porque todos os gansos tão a salvo lá na floresta, num lugar que só eu conheço!” Ao ouvir falar dos penosos e perceber que não teriam que morrer de fome no inverno que viria, o tratamento das pessoas para com a menina mudou da água para o vinho! Deixo que ocê imagine!

E é por isso que, no lugar em que dizem que esta história se passou, há uma fonte dedicada à “Elisa dos Gansos”, para que as pessoas nunca se esqueçam que a força e a coragem geralmente brotam daqueles a quem a sociedade não dá o menor valor!

E o que eu mais gosto nessa minha mania de colecionar histórias, pessoa querida que está me-lendo, é a quantidade de coisas novas que aprendo, coisas que muita gente não valoriza, mas que é o que nos ajuda a sobreviver em tempos de guerra, terror e agonia.

* * *

Créditos: Essa lenda eu li no livro Sagenhaftes Saarland (Sarre fabuloso), uma coleção de lendas e histórias regionais organizada por Deana Zinßmeister, editora Conte, 2012. A história original se chama Das Gänseliesel e soa mais ou menos assim em português: “Das Genze-lízel”

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