sábado, 15 de agosto de 2026

Mural das Minas #33: Floriza Gomide: afetos que geram palavras.

Publicado em 14 de janeiro de 2023, às 19:02
Fonte: Da Redação

Floriza Gomide Meireles é mulher, mestre em Educação pela UFMA; professora do IFMA Campus Codó, esperançando na educação há 27 anos, tempo que lhe permitiu atuar como docente, gestora escolar e gestora pública, à frente da Superintendência de Modalidades e Diversidades Educacionais da Secretaria de Estado da Educação do Maranhão. 
Companheira do professor e andarilho atípico Wellington Meireles Gomide, com quem tem dois filhos: João Pedro, esculpido no ventre, e Carlos Eduardo, um adolescente trazido pelo vento. 
Poetisa nas horas vagas, é GOIANA por nascimento, MINEIRA por amamentação, PARANAENSE pelas memórias da infância, BRASILEIRA pelas andanças, NORDESTINA de coração, MARANHENSE por paixão e CODOENSE por opção.

MESSALINA

Este mês
Nesta mesa
Essa messe.
Almas que crescem?

Na boca
A saliva
Dessa lida
Eterna seara.

O que será?

Boca sem saliva?
Mesa sem colheita?
Vida lasciva?
Messe desfeita?

Conversão aceita!

Dessa lida,
Nesta vida
Apenas a salina
Mas, entre as pernas
Messalina!

AH, SE EU ADIVINHO

Minha carne em desatino
Tua verve traçando o caminho
Ironia do destino
Ah, se eu adivinho!
Entortava minha estrada
Pra encostar na tua
E se não desse em nada
Minha vida, assim, desapegada
Inventava nossa história
Tu serias memória e movimento
Eu me faria tempo e nudez
E há muito que tu não terias
Nada além de frágil argumento
Para seguir sozinho, ao invés
de se render ao descaminho
Ah, se eu adivinho!

QUE TAL?

Que tal se você vier morar no meu útero? Fazer a cama nos meus pensamentos e habitar os dias dentro de mim. Que tal você ocupar os cômodos recônditos que escolherei pessoalmente para te abrigar em meio a silêncios e delírios? Comprar mobília nova, almofadas cor de sangue e cantar nossa canção só pra demarcar território em meu organismo. Que tal apressar os batimentos do relógio e pendurar meu coração na parede só pra contar o tempo que dura essa paixão? Erguer um muro de carícias no meu ventre, enquanto afago seu perfume em meus poros e fecho os olhos pra te adormecer. Que tal abrir as janelas dos desejos, pra deixar entrar a luz, e cavar fundo essa sanha poética de parir você? Que tal se vier arrumar essa bagunça?

DA JANELA QUE DAVA PARA A RUA

Foi então que, no horizonte, o sol se escondeu daquela sua janela. E ela, que ficava só na dela, à espera, que ansiava pelo luminoso momento em que ele se despia na sua frente, se recolheu, se perdeu de repente. A janela se fechou para o mundo. E fechada se viu sozinha, tadinha! Suspirando e esperando. Quase suplicando por um breve sorriso luzente no poente. E assim, desiludida e apaixonada, foi com a lua afogar suas mágoas. De vez em quando, da lua se enamorava. E sonhava. Mas um dia, a bela janela, por um descuido só seu, percebeu que o mar engolira o sol. Pescou o dia. Seduziu a luz, feito isca de anzol. E não era estória de pescador. Era estratégia de desiluminador. Até a lua, que costumeiramente a consolava, não mais apareceu. Encoberta que estava, a lua se esgueirava. Se eclipsava. Nem de noite, nem de dia. Seu abraço não mais se abria. Até que um dia, a janela, aquela que estava sempre à espera, só na dela, se descobriu. Nem do sol, nem da lua. Os seus olhos, na verdade, eram da rua!

CONTORNOS

Hoje eu vou dormir do seu lado da cama só para lembrar dos contornos do seu corpo no amarrotado do lençol. Vou colocar você na minha estante e deixar exposta tua presença nas poesias e canções de domingo. Vou mergulhar em sonho e em brasa viva esperando você voltar, porque meus olhos, minhas mãos, minha boca e meu sexo deram para lhe exigir sofregamente. E quando amanhecer aquela quarta-feira boba de encontro e de se perder, vou confessar sem rodeios meus pensamentos diuturnos; vou lhe tirar os coturnos; massagear seus pés alados (cansados das partidas) e lhe fazer vaidoso ao reconhecer poderes e encantamentos em ti. E, depois dos sorrisos e das memórias, vou dançar sua música, só para ver você brilhar feito plâncton se deixando levar pela correnteza; vou pôr sua refeição favorita à mesa; fazer inveja aos vizinhos e lhe convidar para ficar.

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