sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

ENTREVISTA – SHARLENE SERRA: “Inclusão foi sendo meu propósito de vida”.

Publicado em 29 de dezembro de 2022, às 9:35
Fonte: Da Redação
Imagem cedida pela autora.

Sharlene Serra é daquelas pessoas que, desde muito cedo, decidem defender uma causa e fazer dela seu projeto de vida. A autora, que por formação é Desenhista Industrial, descobriu nos bancos da faculdade que poderia pensar e fazer ações em prol da inclusão. E o trabalho de desenhista preocupada com esse tema a levou ao de escritora, que hoje tem 8 livros, a maioria abordando o tema da inclusão, e mais 5 na gaveta, para sair em breve. Sharlene faz da sua carreira de escritora, do seu ofício com as palavras, uma tribuna em defesa das pessoas que precisam que o mundo as perceba como iguais. Nesta entrevista, ela detalha a sua vida, a sua obra e as suas convicções. Vale a leitura!

Região Tocantina – Qual a importância da literatura como agente de inclusão?

Sharlene Serra – Antes de falar de literatura inclusiva, precisamos compreender a importância da inclusão, segundo Maria Teresa Mantoan a inclusão é nossa capacidade de entender o outro,  e ter o privilégio de conviver com pessoas diferentes de nós  significa olhar para o outro com empatia.  Mediante o universo no que se refere à inclusão, iremos nos destacar às pessoas  no processo inclusivo,  e assim,  podemos dizer que a acessibilidade atitudinal  é o nosso objetivo principal, pois  representa o conjunto de atitudes e comportamentos que favorecem para a remoção de preconceitos e barreiras e possibilitam maior respeito e oportunidade às  pessoas com deficiência, gerando assim, outras acessibilidades.  No sentido de promover a inclusão, a literatura surge como uma ferramenta para propagação de conhecimento, informação, mudança de olhares, transformação das pessoas e consequentemente do mundo.

Região Tocantina – Como se deu seu envolvimento com as questões de inclusão?

Sharlene Serra – Meu envolvimento para a inclusão aconteceu já na infância, na época em caráter de proteção e respeito, mas  intensificou  quando  me  tornei estudante do curso de Desenho industrial da Universidade Federal do Maranhão. A verdade é  que sempre tive um olhar social-pedagógico, diferente da área acadêmica na qual atuava e isso foi um grande desafio para mim na época, quando entendi  que exclusão passeia também por preferências de estudo. Acreditava mais na funcionalidade aliada à estética do que o inverso, e o design ama o belo. Direcionei  meus projetos do curso para soluções pedagógicas, amava projetos de brinquedos, aprendizagem criativa, materiais didáticos  e passei a me dedicar para a  T.A. (Tecnologia Assistiva) e me voltei a soluções de baixo custo,  desenvolvendo adaptações diversas para crianças com paralisia cerebral e outras deficiências. E foi neste estudo que tudo começou, comecei a visitar instituições e conhecer pessoas com deficiência, mas foi na deficiência  visual e na convivência deste universo  que me encontrei, posso até dizer que foi amor a infinitas vistas,  aprendi enquanto designer a enxergar além do que os olhos podem ver, e como sempre falo,  precisamos  desenvolver e estimular nossas  múltiplas visões. A deficiência visual transformou a minha vida, passei a enxergar com os meus amigos cegos,  me tornei voluntária da Associação de Deficientes Visuais do Maranhão (ASDEVIMA)  e também me tornei ledora e contadora de histórias para crianças cegas, a inclusão foi sendo meu propósito de vida.  Finalizei o curso de desenho industrial com projeto: “Redesign de jogo de xadrez para pessoas com deficiência visual”, em que apresentei em 2002 no Instituto Benjamin Constant, o maior centro de referência de educação para pessoas com deficiência visual, no campeonato de xadrez para cegos  no Rio de Janeiro; de lá para cá, muitos projetos inclusivos fizeram,  antes de me tornar escritora. A poesia e as histórias já habitavam em mim, mas através de uma criança cega que eu pude, ao contar histórias,  eliminar seus medos e despertar nela as suas múltiplas visões;  nasceu em mim a vontade de chegar no coração de mais crianças, foi neste momento que decidi ser escritora, e assim nasceu o primeiro livro da Coleção Incluir: “Olhando com Ritinha”.

Região Tocantina – Quantos e quais livros você já publicou?

Sharlene Serra – Tenho 08 (oito) livros já publicados com temáticas diversas: sobre inclusão,  literatura que eu posso chamar de literatura protetiva e também um livro sobre mulheres, que foi um grande desafio, tendo em vista que o meu foco é  a literatura infantojuvenil. Os livros  da coleção incluir  abordam sobre uma deficiência: Olhando com Ritinha (aborda Deficiência visual), Ouvindo com Vitória (Deficiência Auditiva), Aprendendo com Biel (Deficiência Intelectual), Caminhando com Paulo (Deficiência Física), Interagindo com Lucas (Aborda sobre Transtorno do Espectro Autista TEA). Temos também o Diário mágico um segredo para contar,  que vem abordar sobre o abuso infantil, História da Lua (Inclusão  focando para as múltiplas inteligências) e, como falei, o livro “Espelho de EVA”,  que aborda sobre o universo da mulher, gênero misto para o público adulto.

Sharlene Serra defende a temática da inclusão nos seus livros. Imagem: Divulgação

Região Tocantina –  Quais os novos projetos?

Sharlene Serra – Como falei anteriormente, tenho oito livros publicados e cinco inéditos: Conversando com Isa (aborda a paralisia cerebral – coleção Incluir), Princesa Celestia (educação emocional), Catadores de sonhos (ênfase na poesia e questões ambientais),  Escrevendo com criatividade e Inclusão na poesia.

Região Tocantina – Para você, as políticas de inclusão são adequadas?

Sharlene Serra – Em se tratando de criação de leis, a inclusão é  bem respaldada,  pois desde 1994, com a Declaração de Salamanca,  que muito já se discute  sobre inclusão e educação inclusiva como a possibilidade de assegurar a educação para todos;  ainda temos a Lei de Diretrizes e Bases  da Educação Nacional (LDB), no 9.394/96 (Brasil, 1996), que aborda sobre o “atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”. Depois, o  Plano Nacional de Educação,  até  chegarmos à LBI (Lei Brasileira de Inclusão),  Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015,  que vem a ser  um conjunto de dispositivos destinados a assegurar e a promover, em igualdade de condições com as demais pessoas, o exercício dos direitos e liberdades fundamentais por pessoas com deficiência, visando a sua inclusão social e cidadania. Porém,  mesmo assim, podemos observar  que, mesmo com tais leis e alguns  avanços,  ainda sim existe o engatinhar das políticas públicas inclusivas,  situações que não  asseguram o  direito de acesso da pessoa com deficiência, seja quanto à falta de acessibilidade ou da falta de aplicabilidade, o  próprio  capacitismo (ideia de que pessoas com deficiência são inferiores àquelas sem deficiência),  a  ausência de ações educativas que gerem informações quanto à igualdade de oportunidade, falta de formação em instituições  onde o aluno  com deficiência, desde a ed. Infantil,  é submetido a inúmeros desafios até o nível superior,  e se chegar neste ensino, barreiras diversas, inclusive atitudinais e sem garantias de empregabilidade,  embora seja garantida por lei.  Desde quando iniciei no curso de desenho industrial,  com meu olhar inclusivo,  as dificuldades foram inúmeras, hoje percebo avanços,  falar em inclusão é um deles, o tema criou força e as pessoas com deficiência obtiveram   maior  liberdade   em mostrar sua capacidade, em serem o protagonista da sua história  como ser humano, principalmente, que, como qualquer pessoa, têm desafios e conquistas. Abraçamos os avanços, trabalhando e acreditando que as políticas públicas também dependem das intenções e ações de cada um de nós.

Região Tocantina – A literatura com temática inclusiva está ganhando espaço no país?

Sharlene Serra – A literatura inclusiva está cada vez ganhando espaço, mediante toda a proposta que o processo inclusivo traz,  porém é interessante ressaltar que  a literatura inclusiva deve ser vista de uma forma mais ampla, não apenas focando em livros com adaptações para pessoa com deficiência visual, o que seria o ideal, mas  a literatura inclusiva não pode se limitar a questões de utilização, ou seja, livros disponibilizados em recursos acessíveis como Braille, fonte ampliada,  audiobook, áudio descrição,  livros com estes recursos estão mais presentes em nossas bibliotecas, escolas,  mas precisamos entender a literatura de uma forma mais abrangente, onde essa literatura é produzida para a compreensão de mundo e geradora de aprendizados importantes para a construção, não apenas do ser leitor, mas também na construção do ser social, crítico, humano.  Portanto, quando falamos da literatura inclusiva,  podemos destacar  livros que promovam também  acessibilidade atitudinal, mudança de olhares das pessoas, promovendo orientações sobre as diferenças sociais,  éticas, questões raciais, questões voltadas ao entendimento da igualdade e equidade, sobre empatia, respeito para com as pessoas como um todo.  Eu também  acredito na literatura inclusiva existente em livros de escritores com deficiência que também possibilitam esse aprendizado duplo e essa representatividade  para a construção de informações, tanto com as histórias escritas quanto com a trajetória dos escritores, como no caso da artista plástica Maria Goret Chagas  pessoa com deficiência física que escreveu a história “A estrela de uma ponta”,  também o livro “Me dá um abraço”, do autor Nick Vujicic, que nasceu sem braços e sem pernas, que nos ensina a abraçar através do amor,  entre outros e tendo em vista esses olhares podemos  dizer, sim!, que a literatura inclusiva  está ganhando  muito espaço   nessa construção da humanização,  no sentido de promover a inclusão nas salas de aulas, porém ainda percebemos uma situação tímida na questão  das aquisições  individuais, onde a família poderia estimular cada vez mais as crianças a  tais conteúdos, o que não acontece,  no entanto   a literatura inclusiva vem ganhando espaço, sendo associada a projetos pedagógicos, onde a escola   é a grande formadora e propagadora de estímulos  para que esta construção inclusiva aconteça.  Apenas precisamos entender que esta construção é contínua. Através da Vereadora Concita Pinto, conseguimos inserir no calendário Municipal o dia 6 de abril como o Dia da Literatura Inclusiva.

Região Tocantina – Como a poesia sempre foi sua companheira, qual poema  recitaria neste momento?

Sharlene Serra – Vou deixar um poema em que a mensagem que quero tatuar no coração de cada leitor  é  a de que o mundo só  é  encantador por causa das diferenças:

O LÁPIS E A INCLUSÃO

O lápis de cor e uma folha branca

Refletem o meu ser

Desenho poesia

Pinto a cor do dia

Ou começo a escrever

Lápis preto, branco,

Amarelo cor de mel

Desenho borboletas,

Passarinhos brincando

no azul do céu

Verde, vermelho

E  o lápis logo  diz:

Desenhe uma floresta!

Uma rosa  e do palhaço, o nariz.

O pôr do sol surge

Com as cores  laranja ou lilás

numa folha branca

O colorido nos traz

A vida é como as cores 

Diferentes, mas tão  iguais

É no colorido da alma  que

o mundo transborda paz.

Não importa a cor

Cada lápis tem sua intenção

A diversidade das cores

Também é inclusão.

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