quinta-feira, 11 de agosto de 2022

ERASMO CAMPELO E A REVOLUÇÃO (NADA) SILENCIOSA NA EDUCAÇÃO DO MARANHÃO

Publicado em 2 de maio de 2022, às 19:50
Marcos Fábio Belo Matos – jornalista, professor e escritor.

Na semana passada, fui surpreendido com a notícia de que havia falecido, em São Paulo, o ex-professor do Departamento de Educação da UFMA, Erasmo Campelo. Como estou à frente da Diretoria de Comunicação da universidade, cabia a mim fazer uma nota de pesar, naquele padrão que a gente sempre faz. O registro institucional da perda de uma pessoa que fazia parte dos quadros da instituição.

Mas, para mim, Erasmo Campelo era bem mais que isso. Muito mais!

Erasmo criou, em 1996, um projeto que foi responsável por grande parte da expansão da massa crítica do Maranhão. Que ajudou a capacitar mais de uma centena de profissionais, recém-saído(a)s dos bancos da graduação da UFMA, nas mais diversas áreas, que mudaram suas trajetórias pessoais e, por tabela, a de diversas instituições de ensino no estado, sejam públicas ou particulares. O projeto se chamava Prata da Casa. Os seus participantes ficaram conhecido(a)s, à boca miúda, por pratinhas. E eu era um deles.

Erasmo veio parar no Maranhão depois de uma bem-sucedida carreira na docência, em São Paulo. Aqui chegando, aproveitou a rede de contatos que tinha feito, em São Paulo, na Capital Federal e também no exterior, e arquitetou um projeto que consistia em enviar recém-graduados para as mais diversas universidades públicas Brasil e mundo afora. Ao todo, em cinco “levas”, ele conseguiu formar, em nível de mestrado, 110 pessoas.

Os “pratas” tinham alguns compromissos, estabelecidos pelo espírito guerrilheiro, comprometido, inquieto e contestador de Erasmo. Primeiro: romper com o espírito de individualismo; segundo: estudar o Maranhão e, assim, contribuir com a ciência que o estado produzia, no final dos anos 1990; terceiro: voltar e tentar se colocar como professor, lutando para ser aprovado(a)s nos concursos que as instituições faziam – era a época da expansão do ensino superior maranhense. E, de fato, muitos de nós, os pratinhas, acabamos indo perfazer o quadro de professores da UFMA, da UEMA, do IFMA, das instituições particulares; fora os que fizeram carreira em outros estados. E, por fim, o quarto: batalhar para não cair na sedução de ser uma má pessoa e romper com a tradição social que ele enxergava na sociedade brasileira – e que qualificava com um dos muitos palavrões que ele dizia, nos seus arroubos de protesto e sinceridade.

Erasmo amava o Maranhão, acima de qualquer coisa. Seus desafetos (e ele teve muitos, com quem nunca se furtou a travar um embate corajoso…) podem dizer dele o que quiserem, mas nunca poderão desqualificar a imensa e inestimável contribuição que ele deixou para a educação maranhense.

Ele fez, sozinho, o que muitos gestores, programas de governo, secretarias e demais burocracias não conseguem fazer. E criou, com abnegação, força e criatividade, o maior programa de qualificação de mão de obra que este estado já viu. E tudo isso numa salinha, perdida no CEB Velho, que não dava 30 metros quadrados…

Todos nós, que tivemos a felicidade de, um dia, cruzar com Erasmo, encarar aquele olhão esbugalhado e claro dele, sua camisa aberta no peito, suas calças folgadas, seus gestos performáticos, somos imensamente agradecidos e agradecidas a ele.

E devotamos a justa homenagem a sua memória.

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