terça-feira, 26 de abril de 2022

ENTREVISTA – FÁBIO CARDIAS: O LEGADO DA PANDEMIA EM NÓS

Publicado em 21 de abril de 2022, às 10:35
O psicólogo e doutor em Educação Fábio José Gomes Cardias, professor do Curso de Enfermagem da Ufma Imperatriz, nos faz refletir, nesta entrevista, sobre o legado que a Pandemia (e todas as mazelas que o mundo moderno engloba) vai deixar em nossas existências. Como humanista, ele enxerga o ser humano com uma enorme missão de se integrar à natureza, mas que peca miseravelmente neste projeto, deixando um rastro de problemas. A pandemia da Covid-19 é apenas um dos nossos entraves. Leia a entrevista a seguir.
Fonte: Da Redação
Imagem cedida pelo entrevistado.

Região Tocantina – A Pandemia vai deixar um saldo de muitos problemas psicológicos nas pessoas?

Fábio Cardias – Pan sempre esteve, estará, presente na história da humanidade, é inerente a ela. Ora ou outra ele se manifesta. É uma dimensão do universo humano. É dito que a cada cem anos se manifesta uma pandemia, dizem que com a devastação da natureza novos vírus virão e esse tempo encurtará. Vivemos agora o drama das variantes. Pan é um produto da vida humana e nos demanda tarefas psicológicas ao atingir o nosso corpo e mente, o corpo como pan-demia e a mente ao entrarmos em pan-ico, amebas invisíveis mas sentidas, que se não bem encaradas com seriedade, nos trazem problemas agudos e graves. Na mitologia greco-romana, Pan é filho da divindade Hermes (o mensageiro) e da ninfa Dríope, como acima citado, dá raiz aos termos pandemia e pânico, que se associam e nos trazem mensagens da natureza. Pan é um Curupira europeu, pois em sua origem mítica rege os espíritos elementais da natureza, protege as florestas e os animais, tal como seu primo tupiniquim. Aquele que agredir a floresta e caçar indiscriminadamente seus filhos enfrentará a ira de Pan, assim como a ira de Curupira, ou Matinta Pereira, ou da Mãe do Rio. Às vezes se apresentam como seres lindos, feios ou monstruosos ao olhar humano comum, esses encantados da natureza (Espíritos Elementais da natureza na Europa e Devas, Nagas e Yakas no Oriente) assombram os humanos predadores, causando-lhes medo terrífico. Há relatos extremamente interessantes de caboclos da Amazônia que foram morar no meio da floresta, ou perto de riachos ou áreas remotas na selva que pela noite as cabanas, casas ou abrigos de invasores de seus locais naturais, são apedrejadas por esses seres. Visto que não se vê pela manhã nenhum rastro humano e se descarta ser algum animal pelas características do apedrejamento. Tuberculose, hanseníase, gripe e varíola estão entre os ditos vilões, inimigos e estigmas da saúde humana, invisíveis como Pan, assolaram nossa humanidade de tempos em tempos. Da peste Antonina (165-180) a Covid-19 (2019-atual), perdemos mais de trezentas milhões de irmãos da mesma espécie. Os tempos pandêmicos históricos sempre deixaram um rastro cadavérico na humanidade, a imagem da morte é muito forte, e mais ainda o medo de morrer, que é uma característica da nossa humanidade. O medo de morrer, ou a consciência clara de finitude da nossa espécie, gerou e gera um museu imaginário e religioso incomparável com outros irmãos de outras espécies, buscando a assepsia do medo de morrer surgiu a fé espiritual, as imagens de vida post-mortem, como que a esperança de continuação da vida fosse redentora e aliviadora desse mesmo medo. Demonizado, Pan, o que representa e invoca o medo, o medo de morrer sob seu ataque, acabou por ser transformar em algoz da humanidade, e não um protetor da vida da floresta. Essa inversão simbólica é claramente uma redução, sem volta. Redução essa que deixa brecha para refletirmos sobre as lições de vida e more que os tempos pandêmicos nos inflige. Então, a pergunta norteadora é, ou deveria ser: o que tempos pandêmicos históricos e contemporâneos nos ensinam à nossa humanidade? A pandemia recente sem dúvida, e quase missionariamente, deixa problemas psicológicos em nós, como sempre deixou.

Região Tocantina – Como fazer para mitigar essa carga de problemas psicológicos depois da pandemia?

Fábio Cardias – Tecnologias espirituais e tecnologias psicológicas servem para mitigar a carga de problemas psicológicos antes, durante e após a pandemia. Da fé religiosa diversa às psicoterapias, todas buscam reduzir os danos psicológicos do pacote pandêmico, garantido em todos os tempos pandêmicos, o medo da morte, o terror cadavérico e o horror do enlutamento diferenciado, sem despedida. Do telefone fixo ao celular e até as plataformas de videoconferências, passando, é claro, pelos smartphones, verificou-se a intensificação da clínica com crianças, púberes, adolescentes, adultos, idosos, pacientes com risco iminente de suicídio. A manutenção da saúde mental e do bem-estar da população necessitou de estratégias públicas para os enfermeiros, médicos, familiares enlutados, internos, crianças. Adaptou-se a elaboração de instrumentos e ferramentas para o contexto e atuamos em estratégias de intervenção que poderiam prevenir demandas graves e minimizar o impacto da pandemia nas nossas vidas. Mas no fundo todos adoecemos, psicoterapeutas, psiquiatras, pacientes, todos sofremos em diferentes graus de sofrimento que nunca devem ser comparados, muito menos julgados.

Região Tocantina – Quem sofrerá mais no pós-pandemia: as crianças, os jovens, os adultos ou os idosos?

Fábio Cardias – Como dito anteriormente, todos sofremos. Pra muito além de perspectivas individuais, sofremos como animais sociais que somos, como sociedade, como comunidade, como família. A qualidade do sofrimento das crianças aos idosos sofre modulações significativas, com base única em nossa humanidade dada. Homens e mulheres sofreram, porém, mulheres vítimas de violência doméstica passaram a ter seus algozes com maior tempo dentro de casa, bem como as crianças. Daí observamos um aumento no feminicídio e no infanticídio, enchendo de sangue o noticiário e as mãos masculinas doentes como autoras.

Região Tocantina – O que ajuda a pessoa a ter um maior equilíbrio psicológico?

Fábio Cardias – Para termos maior equilíbrio psicológico, necessitamos de uma reforma ética e moral profunda na sociedade contemporânea, reforma coletiva do nosso modo de viver, de viver com os outros, com as outras espécies e com a natureza, as florestas, a fauna, a flora. O consumo desenfreado junto com uma espiritualidade afrouxada, distorcida e perversa, da nossa formação humana fica claro que nunca funcionará, e a lição que epidemias e guerras passadas nos legaram, porém, não feita a lição de casa a disciplina deve ser repetida. Não havendo disciplina ética, moral, de convívio humano, cultura e natureza, não havendo disciplina de nossa humanidade, nos resta esperar outra pandemia, talvez mais agressiva, mortal, para que em algum momento da humanidade nos forcemos a iniciar a mudar a nossa relação com o planeta, com a mãe Terra, que pode se mostrar uma mãe má, vingativa, o lado sombrio da Grande Mãe, a nos dar taca de vara de cipó nas nossas almas e corpos. O equilíbrio psicológico se encontra no equilíbrio dos corpos e no equilíbrio espiritual, sendo esse a elevação da nossa humanidade em níveis mais altos, não materialista, não consumista, não ganancioso, arrogante. Infelizmente, guerras pelo mundo em época pandêmica nos mostram o quanto ainda somos todo esse aspecto negativo e temos enorme dificuldade de superá-los, porém, é a nossa tarefa aqui e agora.

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