terça-feira, 17 de maio de 2022

O CONCEITO DE IMPULSO LÚDICO NA EDUCAÇÃO ESTÉTICA DE FRIEDRICH SCHILLER

Publicado em 19 de fevereiro de 2022, às 10:00
Nertan Dias Silva Maia – Professor Adjunto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Doutor em Filosofia pelo PPGFIL/UERJ; Mestre em Educação pelo PPGE/UECE; Graduado em Música e em Pedagogia (UECE); Jornalista com registro profissional n. 0001832/MA. E-mail: nertandias@gmail.com.
Imagem cedida pelo autor

O poeta e filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805) apresenta sua teoria estética em sua mais importante obra filosófica intitulada Sobre a educação estética do homem numa série de cartas (1795). Nesta obra traz reflexões que partem de e contra as ideias de Kant constantes na Crítica da faculdade do juízo (1790), exatamente para fundar um conceito objetivo para o belo. Reconhece a existência do antagonismo entre as faculdades sensível e formal do homem apontado por Kant, mas identifica ser esse o ponto a partir do qual deve estruturar o caráter objetivo da beleza. Numa palavra: trata-se do ponto a ser harmonizado pela beleza.

Segundo Schiller, essa harmonização consistia em uma tarefa difícil de se realizar devido à carência estética dos tempos, a qual resultava da dupla tensão interna e externa da qual padecia o homem moderno. Se por um lado, o entendimento criava um mundo abstrato, afastando o homem de sua natureza, por outro, o Estado o fragmentava a partir do excesso de especializações, causando um total estranhamento entre homem e Estado. Para Schiller, a fruição fora separada do trabalho e o homem se encontrava eternamente preso a um mundo fragmentado, podendo formar-se somente enquanto fragmento, algo que impedia que desenvolvesse a harmonia necessária em sua estrutura mista sensível-racional.

Ainda conforme Schiller, apenas a capacidade de agir como um ser ético daria ao homem o direito à liberdade; e somente por meio do estético alcançaria uma ética universal. Reside aí a urgência e a necessidade de uma forma de enobrecer seus sentimentos e purificar eticamente sua vontade. Isso só seria possível com a criação de uma cultura estética, considerada por Schiller, “o mais eficaz instrumento da formação do caráter” (SCHILLER, 2009, p. 72-80).

É a partir do problema do litígio entre as faculdades sensível e racional do homem que Schiller elege o belo como princípio unificador da cultura. Sua função é a de um agente mediador entre o sentir e o pensar na busca da formação do homem Ideal.[1]  Uma vez que haja conciliação entre tais faculdades por intermédio do belo, o homem passará do estado natural ao estado estético, ou ao estado de jogo estético, um estado de ânimo movido pela beleza determinante para conduzi-lo à liberdade, tornando-o capaz de atingir sua plena unidade, ou seja, sua plena humanidade.  

Schiller amplia a noção de kantiana de “jogo”, pensando-a para além de um elemento harmonizador das faculdades do entendimento e da imaginação. Concebe-a como uma categoria em si mesma, capaz de dar acesso ao conhecimento e à liberdade. Essa categoria, de acordo com Schiller, é o impulso lúdico (Spieltrieb), elaborada para superar a dificuldade de estabelecer um critério objetivo para a beleza. Por jogar com a coerção objetiva das leis naturais e a coerção subjetiva das leis morais, o impulso lúdico torna-se o único caminho possível para tornar o homem livre de quaisquer coerções que privem sua vontade.

O belo tornará o homem livre por capacitá-lo a transcender às determinações da natureza. A partir daí, suas respostas às contingências não serão mais dadas pelos instintos, tampouco pelos julgamentos racionais unilaterais que determinam suas ações morais, mas pelos efeitos que o belo promoverá sobre seu espírito quando em estado estético. No pensamento estético de Schiller, a conciliação entre estética e moral só se efetiva com a confluência dos impulsos racional e sensível, em que o Estado moral representará a superação do Estado natural mediante a passagem pelo estado estético. Somente estará habilitado a tal passagem o homem que idealiza a si mesmo por uma exigência da razão, para vir a ser em estado estético um homem Ideal e livre destinado a orientar os rumos da sociedade.

Para Schiller, esse processo se dá por meio de uma ação recíproca entre as faculdades racionais e sensíveis provocada pela mediação da beleza no ânimo humano, que promove uma relação igualitária entre beleza e moral. O conceito de ação recíproca admite a distinção entre espírito e matéria, sem que haja uma separação originária e absoluta entre ambas, e sem que ocorra de uma ou outra parte uma subordinação que venha cindir os impulsos sensível e racional no homem. Assim, a ação recíproca faz com que estes impulsos fiquem coordenados e subordinados um ao outro a um só tempo, gerando um perfeito equilíbrio entre o sentir e o pensar estabelecido pelo jogo estético entre ambos.

Para que esse equilíbrio de forças ocorra é preciso que haja um suporte que não estaria nem no caráter natural do homem, por ser egoísta e violento e concorrer para a destruição da sociedade; nem no caráter ético, por este ainda carecer de uma plena formação, não servindo, por isso, de base para tal fim. O impulso lúdico, é, portanto, esse suporte. É uma terceira pulsão (Trieb) capaz de unificar as pulsões sensível e racional no homem quando sob os efeitos da beleza. É também o meio pelo qual o homem se torna capaz de solucionar, na prática, um problema de ordem política. Partindo desse princípio, Schiller acredita que a instituição de uma cultura estética se dá por intermédio de uma razão sensível e prática que conduza o homem ao estado de jogo estético.

Schiller define os três conceitos fundamentais de sua teoria dos impulsos da seguinte forma: “O objeto do impulso sensível, expresso num conceito geral, chama-se vida em seu significado mais amplo; um conceito que significa todo o ser material e toda a presença imediata nos sentidos. O objeto do impulso formal, expresso num conceito geral, é a forma, tanto em significado próprio como figurado; um conceito que compreende todas as disposições formais dos objetos e todas as suas relações com as faculdades de pensamento. O objeto do impulso lúdico, representado num esquema geral, poderá ser chamado de forma viva, um conceito que serve para designar todas as qualidades estéticas dos fenômenos, tudo o que em resumo entendemos no sentido mais amplo por beleza” (SCHILLER, 2014, p. 73). 

Caso o homem se deixe guiar somente pelo impulso sensível, tornar-se-á prisioneiro de sua natureza instintiva e de suas necessidades; caso seja conduzido exclusivamente pelo impulso formal, passará a ser vítima dos ditames de sua própria razão. Em vista disso, o impulso lúdico anula no homem o antagonismo estabelecido, historicamente, entre o sentir e o pensar, e restabelece a unidade entre suas pulsões sensível e formal.

Nestes termos, se faz necessário e essencial ao homem desenvolver uma cultura estética para ter acesso ao estado de liberdade, cuja origem reside no princípio do belo Ideal, uno e eterno, condicionador da unificação do homem. Sem o impulso lúdico o homem, mesmo que viva e possua uma forma não poderá, por conta desses atributos, ser considerado uma forma viva, isto é, um homem Ideal. Para tanto, seria preciso que neste homem “sua forma fosse viva e sua vida, forma”. Somente quando a forma do homem “vive em nossa sensibilidade e sua vida se forma em nosso entendimento o homem é forma viva, e este será sempre o caso, quando o julgamos belo” (SCHILLER, 2014, p. 73).  

Conforme Schiller, do mesmo modo como o homem não é puramente matéria nem puramente espírito, a beleza, como plenificação de sua humanidade, também não pode ser de todo vida nem de todo forma. A beleza só se dá a existir quando objeto do impulso lúdico, comtemplando experiência e necessidade na mesma medida, sem que nem uma nem outra interfira coercitivamente sobre o espírito. Se por um lado, no conhecimento, o impulso sensível (material) diz respeito à realidade e o impulso racional (formal) à necessidade; na ação, “o primeiro visa à manutenção da vida e o segundo à preservação da dignidade”, visando ambos, respectivamente, à verdade e à perfeição (SCHILLER, 2014, p. 74-75).

É, pois, a própria razão quem diz: “o belo não deve ser a mera vida ou a mera forma, mas forma viva”, […] deve ser beleza na medida que dita ao homem a dupla lei da formalidade e realidade absolutas”. Diante desse imperativo do belo, a razão sentencia que cabe ao homem jogar somente com a beleza, uma vez que “o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra, e somente é pleno quando joga” (SCHILLER, 2014, p. 76).

Portanto, para Schiller, no processo de educação estética, impulso lúdico e humanidade confluem para uma identificação que define o caráter do homem Ideal, a partir do momento em que este joga livremente com o belo. Nessa condição, afasta-se de regras e conceitos para se aproximar da contemplação estética, tornando-se pleno em sua forma viva. Somente assim, a beleza adquire validade universal e necessária definida no âmbito da própria razão, pois o belo não constitui um conceito da experiência, mas um imperativo.    

Referências

SCHILLER, F. A educação estética do homem: numa série de cartas. 8. reimp. Tradução de Roberto Schwarz e Márcio Suzuki; introdução e notas de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 2014. (Biblioteca Pólen).

_______. Cultura estética e liberdade. Organização e tradução de Ricardo Barbosa. São Paulo: Hedra, 2009.


[1] O termo “Ideal” em Schiller aparece com um duplo significado: o primeiro, referindo-se a uma Ideia inalcançável imposta pelo intelecto; o segundo, designando um modelo idealizado nos termos dos cânones gregos, que serviram de referência para o Romantismo e o Idealismo.

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