terça-feira, 26 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – Sobre pesos, valores e traduções

Publicado em 29 de julho de 2021, às 7:49
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Livraria Amei.

Quando eu era criança pequena lá no Maranhão, isso há muitos anos, lembro de um sabonete cujo nome me soava muito engraçado. Estou falando do sabonete Vale Quanto Pesa. Não consigo lembrar do cheiro ou da cor do produto, mas o nome do danado nunca me escorregou da cabeça, ao contrário de um outro sabonete em forma de porquinho, que sempre me escapava das mãos.

De maneira que a ideia de “peso” sempre se explorou na publicidade, a exemplo do que se vê no nome de um dos mercados mais tradicionais de Belém: o famoso Ver-o-Peso, que até então nunca vi ao vivo, mas do qual muito já ouvi falar. E peso, claro, tem valor, a depender do que estiver sendo pesado ou medido, e aqui nos referimos à ideia de conteúdo mais do que qualquer outra coisa. Como, por exemplo, o valor e o peso das mensagens que um bom e bem escrito livro nos traz. Esse é o caso do livro O valor de cada um, da autora maranhense Márcia Montenegro.

É um livro que foi pensado para o público infantil, mas que quando lido se percebe que serve para todas as idades. Eu diria até que serve muito mais a adultos do que a crianças, principalmente àquelas pessoas que já esqueceram do que significa ser humano e ter humanidade.

Se trata de uma fábula muito bem bolada que brinca com a ideia de como teriam surgido os números e que, ao dar a cada um deles características humanas, nos mostra que podemos crer no poder da mudança, enquanto houver quem questione as coisas e não simplesmente aceite o que nos é dado como único mundo possível.

Esse livro tem um quê de especial, eu diria quase que ele é daqueles livros que têm uma mágica própria, como acontece com os livros fictícios no mundo de Harry Potter, que quando abertos nos transportam para dentro deles. Ao abrir O valor somos automaticamente atraídos pela doçura do texto e nos pegamos – assustados como os demais personagens – lendo os três artigos que o imperador Nove IX mandou que exibissem no pórtico da cidade da Matemática. Daí você segue a leitura e vai conhecendo seus habitantes, tanto números quanto sinais, cada um com sua personalidade.

O livro foi escrito em uma linguagem acessível, dado que é um livro para crianças, mas não é nem de longe um livro superficial. Muito pelo contrário: na escolha de cada uma das palavras usadas no texto se descobre um universo. Estou dizendo isso porque se pode afirmar que se conhece bem um texto depois de tê-lo traduzido para uma outra língua, que foi o que eu fiz em parceria com uma amiga alemã que aprendeu português como língua estrangeira. Eu e minha amiga abrimos o original e nos entregamos a ele e ao prazer de traduzi-lo. Isso, porque eu queria que as crianças alemãs com quem convivo pudessem também ter a chance de se encantar com o texto da Márcia.

Umberto Eco, autor do famoso romance O Nome da Rosa, dentre tantos outros títulos famosos, já disse num de seus livros sobre a arte da tradução que cada tradução é um outro livro, já que nunca se consegue espelhar 100% o texto original. Isso acontece porque as línguas e as culturas andam de mãos dadas, mas tão dadas, que, para que haja uma correspondência fidedigna entre o original e a tradução é necessário adaptar a tinta da cultura na qual o original foi escrito à tinta da cultura para a qual o texto está sendo traduzido. Ainda mais se for um texto literário cheio de metáforas, cuja tradução nunca pode ser literal.

É preciso encontrar os termos mais adequados, as nuances certas e os tons mais afinados na língua alvo para que quase nada se perca do texto original, dado que é público e notório que em qualquer tradução “algo” sempre se perde, porque sempre alguma coisa permanece no limbo do intraduzível. É a existência desse limbo que me motiva a aprender outras línguas e tentar desvendar os segredos que só nelas se encontram.

Por exemplo, no alemão existe a palavra “Heimat”, que em muitas situações significa “lar“, mas que também significa tantas outras coisas que só uma pessoa nativa – ou que foi banhada desde muito pequena nas águas dessa língua – consegue explicar de maneira mais completa. É o caso da nossa portuguesa “saudade”, sobre a qual já foram escritos muitos ensaios e os significados nunca se esgotam. E quando não se consegue mais escrever ensaios sobre algo, recorre-se à poesia, que como nenhum outro gênero textual sabe capturar a verdade de cada palavra no mais oculto dos rincões do pensamento. E é claro que em O valor a poesia também está presente.

Então é isso! Fica a dica: recomendo fortemente a leitura de O valor de cada um, de Márcia Montenegro, porque é uma ótima experiência e vale mais do que o peso, vale cada vírgula!

Márcia Montenegro, O valor de cada um, Editora Autografia, 2018.

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