terça-feira, 26 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – Banho de língua e sentidos

Publicado em 9 de julho de 2021, às 14:04
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Thank You Word Cloud printed on colorful paper different languages

Convido para um banho de língua e sentidos. Não me refiro a banho de gato ou banho de cuia, muito menos a um banho de loja ou coisa do tipo. O banho mais gostoso pra mim é sempre um banho nas línguas, digo: nos idiomas e sentidos, se bem que o sentido literal da língua órgão não fica descartado.

Não serve só uma ducha, tem que nos permitir o mergulho, a imersão, um banho de cheiro ou banho de ervas nas línguas modernas, também nas antigas, naquelas que nem podemos saber como soavam de verdade, e atenção que eu não disse suavam, porque suar é algo próprio de corpos orgânicos, coisa que as línguas também são, em parte: corpos dinâmicos que soam e nunca suam, embora estejam em constante movimento.

Por isso é que eu digo: línguas, melhor aprendê-las do que tentar prendê-las! Não adianta tentar prendê-las porque elas sempre se soltam e vão pelos caminhos contrários. As línguas são livres, mas tão livres, que não estaria errado dizer que elas são a própria liberdade. E é bom tentar aprendê-las porque elas soam belas, estranhas, suaves, agradáveis, agressivas, curiosas, palatáveis ou não. Pouco importa! O importante é saber decifrar o que elas ecoam. O importante é aprender a língua da poesia porque as línguas criam! – seres e mundos, seres limpos impuros, seres até mudos que por meio de línguas inventadas pelas próprias línguas gritam e revelam ao mundo a sua pseudo mudez, que também inclui a nudez, já que as línguas desnudam.

Nada consegue escapar à luz do verbo, nem os mudos, nem os surdos, nem os cegos! Todos estamos incluídos nos sistemas das línguas, um sistema que talvez preceda quem pensa que o criou. É o velho paradoxo: se as línguas formam o pensamento ou se o pensamento forma as línguas, coisas típicas do pensar filosófico, que também nada seria sem as estruturas que as línguas nos dão. As línguas têm dessas coisas, de estarem sempre dizendo algo mesmo quando não estão sendo usadas como escrita, fala ou áudio, até mesmo como gráfico, imagem ou desenho, e é por este motivo que um banho nos sentidos é sempre recomendável.

Diferentes dos seres humanos, as línguas são amigas umas das outras e adoram se misturar. Elas se emaranham, copulam e formam outras, e se misturam também nos sonhos. Num dos sonhos mais marcantes que já tive pude vivenciar a mistura linguística que já existia na Europa em tempos mais do que idos, muito antes dos romanos chegarem com a sua burocracia e o seu latim fino, que virou vulgar, e também me vi imersa na mistura linguística que já existia na América, antes dos colonizadores aportarem com seus vírus e armas de fogo mortais.

Sim, mas neste texto convido a preparar um banho tépido, que significa morno, regado aos sais da poesia, que podem até causar um certo desconforto no início, mas que ao final conseguem penetrar nas partes mais íntimas da criatura que em sentidos e línguas costuma banhar-se.

O querido e saudoso poeta maranhense Carvalho Junior, em seus versos, é uma companhia indispensável para esses momentos de banho de imersão poética:

Tábua de madeira

nas contexturas do corpo,

o sabão de coco me desliza,

me bate e enxágua as trouxas

enodadas de caju e mágoas.

no fluir tênue da lágrima,

o aparelho reprodutor de soluços

lava a cabeça em regatos de silêncio.

sou uma tábua de madeira

sobre os caminhos d’água do Itapecuru.

Carvalho Junior (In memoriam), No alto da ladeira de pedra, Editora Patuá.

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