

No dia 18 de março de 1962, sob as intensas e persistentes chuvas do inverno sertanejo, o frei capuchinho Aristides Arioli, designado vigário na Paróquia de Santa Ana, chegou à Estação Missionária Capuchinha de Montes Altos após, partindo de Imperatriz, ter realizado uma exaustiva jornada de dois dias no lombo de um burro, ao lado de seu coirmão, pároco de Santa Ana, frei Epifânio da Badia Calavena.
O município de Montes Altos, emancipado há apenas quatro anos, havia surgido de forma totalmente espontânea, carecendo de qualquer planejamento urbano, saneamento ou infraestrutura básica. Ao deparar-se com a Praça de Santa Ana, em frente à Igreja Matriz, frei Aristides contemplou a extrema pobreza da igrejinha local, feita de taipa e adobão, infestada de morcegos e com uma imagem da padroeira que mal media um palmo.
Longe de desanimar, o missionário italiano sentenciou que o lugar não era bonito, mas era o “ideal” para a sua vocação. Ali iniciava-se uma trajetória de mais de três décadas marcada por um frei de temperamento rigoroso, franco e obstinado, características que transformaram profundamente tanto a paisagem física quanto a alma coletiva de Montes Altos e região.
Como sua vinda estava associada à catequese dos indígenas, após visitar algumas aldeias na região, a primeira grande paixão missionária de frei Aristides foi a implantação de uma catequese organizada e a defesa dos direitos dos povos indígenas. Após ter se tornado pároco de Santa Ana, com a transferência de frei Epifânio para outra estação missionária capuchinha, frei Aristides restringiu sua ação catequética especialmente ao povo Krikati, que, após uma visita na aldeia Baixa Funda, o religioso comoveu-se com a situação deplorável daqueles nativos, pois enfrentavam a falta de água potável e graves enfermidades nos olhos.
Utilizando recursos próprios conseguidos na Itália, ele financiou a transferência da aldeia para uma região mais saudável e a construção de uma estrutura de escola-capela na nova aldeia, que passou a denominar-se São José, transportando pessoalmente os materiais vindos de Barra do Corda para a construção.
Para viabilizar a sustentabilidade de sua obra indigenista, o frei Aristides chegou a viajar com um grupo de krikatis para Juazeiro do Norte, no Ceará, realizando apresentações folclóricas com o objetivo de angariar fundos.
Para além da contribuição material, frei Aristides deixou uma marca imaterial indelével na cultura e organização do povo krikati. Ele incentivou, com a construção da escola-capela, a unificação de aldeias dispersas, reunindo todos na atual Aldeia São José, o que lhes conferiu maior proteção territorial e possibilitou-lhes o acesso à educação formal.
Há de se ressaltar que essa primeira escola regular na aldeia tenha colapsado quase que, ainda, em seu nascedouro com o falecimento precoce do professor contratado e custeado pelo frei. Entretanto, a iniciativa despertou nos indígenas a consciência de que o ensino formal seria a principal ferramenta de mediação com a sociedade não indígena. Frei Aristides então passou a apoiar e financiar o envio de jovens krikatis para estudar na sede do município, lançando as bases para que, futuramente, a própria comunidade assumisse a gestão de uma escola intercultural. Fruto dessa iniciativa e da consciência adquirida pelos indígenas e com muita luta, atualmente, toda educação básica é ofertada em escolas indígenas públicas instaladas dentro do Território Indígena Krikati. Os professores, quase na sua totalidade, são indígenas portadores de diploma de graduação. A maioria com licenciatura intercultural indígena, alguns com outras habilitações.
No campo cultural, o frei motivou a inserção, no calendário das festividades na aldeia, de evento em homenagem a São Pedro, uma tradição devocional católica que ficou plenamente incorporada à identidade e ao lazer da juventude krikati até os dias atuais.
Nas disputas agrárias, o frei sempre defendeu os cultivos indígenas contra a invasão do gado dos latifundiários e, posteriormente, atuou como testemunha e consultor técnico fundamental perante as autoridades federais, auxiliando no processo de delimitação que culminaria na homologação definitiva do Território Indígena Krikati (TI Krikati).
Na década de 1960, a população de Montes Altos sofria com a total ausência de assistência médica formal, dependendo exclusivamente de remédios caseiros ou de transportes precários em redes para buscar socorro nos grandes centros. Diante de inúmeros paroquianos que morriam à míngua, a sensibilidade de frei Aristides o impulsionou a agir. Inicialmente, edificou um anexo na casa paroquial que funcionava como pronto-socorro e farmácia comunitária, onde distribuía gratuitamente amostras grátis de medicamentos trazidos de suas viagens à Europa, enfrentando, inclusive, calúnias peçonhentas de seus opositores políticos. Compreendendo a urgência no atendimento às mulheres grávidas, frei Aristides financiou, pessoalmente, a viagem e o treinamento de duas missionárias locais ao Hospital Matarazzo, em São Paulo, para que se capacitassem como parteiras profissionais.
O divisor de águas na saúde da região ocorreu após uma grave úlcera estomacal que acometeu o próprio frei. Em busca de tratamento na Itália, Aristides viveu uma experiência mística ao encontrar-se com frei Pio de Pietrelcina (Padre Pio), que o abençoou e profetizou que a Divina Providência jamais falharia caso ele retornasse ao Brasil para erguer um hospital.
Fortalecido e curado, frei Aristides mobilizou sua rede de contatos internacionais e obteve o patrocínio crucial do empresário italiano Dr. Piero Saronio. Em 26 de julho de 1974, foi inaugurada a Casa Pontifícia Alívio do Sofrimento Dr. Piero Saronio, um hospital filantrópico monumental que passou a oferecer atendimento totalmente gratuito aos necessitados, tornando-se o maior patrimônio de saúde pública e humanitária de Montes Altos e da região. Em agradecimento espiritual, o frei ergueu uma estátua em bronze em memória de Padre Pio ao lado da Igreja Matriz, logo na entrada.
Como um autêntico construtor e mecenas, frei Aristides revolucionou o patrimônio arquitetônico do sertão maranhense. Em 22 de dezembro de 1963, um violento temporal desmoronou a antiga Igreja Matriz que vinha sendo erguida em regime de mutirão. Ao assumir o posto de pároco da Paróquia de Santa Ana, frei Aristides abdicou do modelo de mutirões voluntários e decidiu edificar um templo inteiramente inovador, sem custos financeiros para os seus paroquianos pobres. Ele encomendou um projeto na Itália e trouxe para Montes Altos o engenheiro Dr. Vittório Grignani. Juntos, ergueram a nova Igreja Matriz de Santa Ana, carinhosamente apelidada de “Cabana de Deus”. Com um teto imponente em formato de “V” invertido sustentado por colunas de madeiras nobres como ipê e aroeira, o templo fundiu a estética renascentista à identidade rústica do sertanejo e do indígena, configurando um exemplar arquitetônico único no mundo.
A criatividade material do frei expandiu-se com a construção da nova Casa Paroquial, um edifício moderno com dois pavimentos e amplas cômodos para gestão e residência com uma sala com lareira. Também, a edificação do Clube Paroquial Luciano Arioli (nome que homenageia seu irmão). Este foi construído para suprir a carência de espaços de lazer, tornando-se o epicentro de conferências, festas dançantes e confraternizações comunitárias.
Destaca-se que sua obra mais ousada e surpreendente foi erguida para celebrar o centenário da presença capuchinha no norte do Brasil: uma réplica imponente fiel e reduzida da Torre de Pisa. Inaugurada em 18 de março de 1995, a Torre de Montes Altos possui 33 metros de altura e foi construída em 33 semanas, utilizando 333 sacos de cimento, simbolizando os 33 anos de sacerdócio do frei Aristides em Montes Altos. A estrutura conta com 144 colunas brancas e arcos em formato ogival que homenageiam os missionários pioneiros e mártires na região, coroada por um imenso sino de 1.200 kg destinado a despertar a fé do povo.
A contribuição imaterial de frei Aristides confunde-se com a própria emancipação social e política do homem do sertão. Por intemédio de suas homilias esclarecedoras, o frei utilizou o altar não apenas para o serviço devocional, mas também como um espaço de conscientização humana e social. Ele combateu abertamente as estruturas feudais de grupos políticos de Montes Altos que exploravam a vulnerabilidade dos trabalhadores rurais. Em uma célebre homilia proferida no dia 13 de maio de 1988, data do centenário da abolição da escravidão, o frei realizou uma profunda explanação sobre a escravidão política e moral, despertando a consciência democrática dos paroquianos. O impacto de sua liderança espiritual e intelectual foi o catalisador para que, nas eleições seguintes, a população se libertasse, democraticamente, do domínio oligárquico tradicional, inaugurando um novo período de alternância de poder.
Para capilarizar a ação social e pedagógica da Igreja, o frei Aristides fundou em 1964 o Instituto das Irmãs Missionárias Voluntárias, trazendo religiosas do Ceará para realizar visitas domiciliares, organizar celebrações e realizar desobrigas pelo interior.
Posteriormente, formalizou a fundação da Fraternidade da Ordem Franciscana Secular (OFS) na Igreja Matriz e no povoado de Sumaúma (atual município de Ribamar Fiquene), expandindo a rede de agentes pastorais leigos na região. Frei Aristides também se dedicou ao desenvolvimento de uma creche em tempo integral para acolher crianças carentes e financiou o lazer e o transporte da juventude montesaltense em competições esportivas regionais.
A trajetória de frei Aristides foi interrompida de forma abrupta em 5 de agosto de 1995, após sofrer uma queda em sua residência. Apesar dos esforços médicos e de sua transferência em uma UTI aérea para o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o religioso faleceu no dia 8 de agosto de 1995, aos 73 anos. Seu corpo foi transladado e sepultado em Melegnano, sua terra natal, na Itália. Embora distante fisicamente, o “Innominato” ou o “João de Barro do Sertão” permanece vivo; seu legado imaterial pulsa na personalidade e no caráter do povo montesaltense, enquanto seu majestoso patrimônio material segue esculpido de forma indelével no horizonte geográfico e cultural do Maranhão.
Referências:
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SOBRE O AUTOR – Kleber Alberto Lopes de Sousa. Doutor em História pela UNISINOS (São Leopoldo/RS). Mestre em Administração pela FEAD (MG). Especialista em Gestão de Instituições de Ensino Superior pela Faculdade Pedro Leopoldo (MG). Especialista em Comércio Exterior com ênfase em micro e pequenas empresas pela PUC (Brasília/DF). Bacharel em Ciências Econômicas pela PUC (GO). Bacharel em Teologia pela Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST). Professor integrante do grupo de pesquisa em História das Instituições, Práticas Educativas e Sujeitos Históricos, da Universidade Federal do Maranhão, Campus de Imperatriz. Professor no “Programa Caminhos do Sertão”, da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL). Professor do Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (PARFOR), implementado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no curso de Licenciatura Intercultural Indígena. Professor no curso de Ciências Econômicas da Faculdade de Educação Santa Terezinha (Fest). Professor do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do Curso de Ciências Econômicas da Fest. Conselheiro titular do Conselho Administrativo da Fest. Conselheiro titular do Colegiado do Curso de Ciências Econômicas da Fest. Professor da comissão de apoio à colação de grau da Fest. Vice-Diretor da Faculdade de Educação Santa Terezinha (Fest). Titular em uma das cadeiras do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz. Curriculum lattes: http://lattes.cnpq.br/6774638432389037.