
José Arcanjo era uma dessas figuras que conhecia muita gente em sua cidadezinha no interior do Maranhão. Bastava sair de casa e já começava a sessão de abraços e apertos de mão. Às vezes se atrasava para compromissos por causa dessa mania de falar com todo mundo.
Aos cinquenta anos, — simpático e cordial — era conformado com sua condição de solteiro. Não pela liberdade que ela oferecia, mas porque sua vida de caixeiro-viajante o obrigava a viajar com frequência. Aos amigos dizia que jamais daria um bom marido. Também não era de apertar laços amorosos. Talvez por isso nunca tenha se casado.
Essa não era a única fama de que Arcanjo se revestia. Também era desatento e esquecido. A mãe, Dona Angélica, não escondia nada de ninguém: “Sempre foi assim, tal qual o pai”.
Certo dia, numa conversa com amigos, trocou o nome de um velho conhecido:
— Quem me contou essa história foi o Afrânio.
— Afrânio?! Não conheço nenhum Afrânio por aqui — espantou-se Zé Antena.
— O filho mais velho de seu Alberto, da Padaria — esclareceu.
— Que Afrânio que nada, rapaz! O nome dele é Afonso.
Arcanjo sempre teve dificuldade para decorar nomes e datas. Na escola, fazia ilustrações no seu caderno, como “o sol se pondo” para representar o “ocaso”. Talvez essa foi a razão de ter abandonado a escola aos 14 anos para trabalhar na mercearia da família.
Apesar do nome, Arcanjo não era um “anjo” no sentido de um “ser” virtuoso. Era, na verdade, festeiro e mulherengo. E um tanto atrapalhado com as mulheres e com as suas contas (“tal qual o pai”). Mas de uma virtude ninguém duvidava: era amigo de verdade.
A fama de “marinheiro” (“um amor em cada porto”) lhe rendeu duas divisas: um menino e uma menina. Sobre esses gostava de falar, ressaltando que ele podia passar fome, mas os filhos sempre tinham — além da escola — o que comer e vestir.
Arcanjo era um protótipo da cultura interiorana, do tipo que defendia que “homem que é homem tem que ter bigode”. E atacava os desequilibrados: “Homem que bate em mulher tem de levar lenha”. Viajado, tornou-se um grande piadista, sempre cercado de gozadores.
E agora a novidade tinha a ver com velórios. Não perdia um. Gostava de organizar o jogo de baralho, de damas. Conversava com um e com outro e distribuía bebida e lanche para os que se demoravam. E sempre tomava uma boa pinga, “porque ninguém é eterno”.
Essa fixação por velórios começou com a morte do pai, já separado de sua mãe e morando no Ceará. Ao chegar à sua casa, o corpo de seu Egídio ocupava um caixão simples, desses que até o diabo rejeita. Na sala, quatro gatos pingados pareciam estar velando um boneco. Indignado, Arcanjo correu para comprar flores e velas e chamar mais gente. No cemitério, apesar da família pequena, juntou quase quarenta pessoas.
Daí em diante, essa paixão tornou-se desenfreada. Em sua natureza mais íntima era como se ele precisasse conviver com a morte. Ou como se a morte o tivesse escolhido para uma missão.
Não demorou muito, veio a morte do tio Osvaldo, irmão de sua mãe, às 13h de um dia ensolarado. A viúva queria fazer o enterro no mesmo dia, mas Arcanjo se contrapôs. Era inadmissível não fazer o velório de alguém que considerava um segundo pai. Marcaram o enterro para as 9h do dia seguinte.
De tanto “velorizar”, chegou a ser chamado VV (Vela de Velório) por alguns amigos, que também lhe sugeriram abrir uma empresa para “velar os mortos”. Nem o apelido nem o negócio vingaram.
Ninguém imaginava um velório sem a presença de Arcanjo. E ele lamentava quando não podia comparecer, justificando que perderia a última chance de ver uma pessoa querida. “Depois, só na eternidade”, dizia. Certa vez reclamou porque já fazia mais de um ano que não morria ninguém na cidade. E dizia: “Não se gasta vela boa com defunto ruim”.
Certo dia se atrasou para o velório do Edgar Soeiro, amigo desde os tempos da escola. Correu para o cemitério, mas só encontrou a cova coberta de flores. Fez o sinal da cruz e — aliviado — despediu-se do amigo.
Às 10h20 de uma segunda-feira calorenta, saindo numa de suas viagens, viu meia dúzia de pessoas num cortejo fúnebre. Não conhecia o defunto, mesmo assim decidiu incluir-se na comitiva. Descobriu, enfim, tratar-se de um senhor que se mudara recentemente para a cidade. Devoto de São Lázaro, ficou até o fim do enterro. E seguiu viagem com cinco horas de atraso.
Para incrementar sua atividade comercial trocou sua Honda 150 por uma Kombi/72. “Novinha em folha”, dizia, orgulhoso. Mandou pintar um letreiro nas laterais: “BANCA DO ARKANJO” (com o “K” de Kombi) e o slogan “uma compra abençoada”. E rodava pelas feiras e festas religiosas da região, cujo calendário sabia de cor.
Em viagem numa tarde de novembro, o encontro com Ester, a mãe de sua filha Aparecida. Ela lhe trouxe comida caseira: arroz com piaba assada, seu prato favorito. Após o almoço, sentaram-se para conversar. Carinhosamente ele beijou o rostinho da menina e elogiou seus cabelos encaracolados: “Parece demais com a avó”. Cidinha ia participar de uma festa natalina e precisava de roupas e sapatos. À mãe, Arcanjo passou dinheiro para essa e outras despesas. Nas mãos da filha, uma cédula de cem reais. “Este é seu”, disse em tom enfático.
Nas férias de julho, trouxe Miguel para passar uma semana com a avó. Só não sabia dizer a idade do menino. Sem perder o senso de humor, confessou que também não se lembrava a data do aniversário de D. Angélica.
Quando estava fora, Arcanjo se demorava um ou três dias numa cidade. Filho único, foi criado pela mãe desde os quatorze anos. Decidido a voltar a Pentecoste (91,2 km de Fortaleza), sua cidade natal, o pai vendeu a mercearia e dividiu o dinheiro com sua mãe. Já adulto, Arcanjo ia visitá-lo todo ano.
Numa segunda-feira, chegando de viagem, parou para falar com uma amiga com quem fez catecismo. Antes que desse boa noite, a notícia inesperada: “Você já soube do Padre Bráulio? Parece que ele bateu as botas”. Despediu-se com um gesto apenas. E foi embora pensativo: “Padre Bráulio?! Ai, meu Deus! Até os padres tão morrendo. Será que já foi enterrado?”
Depois do banho, enfrentou um chuvisco até chegar ao velório do padre que o batizou. Não havia uma viva alma na igreja para dar informação. Foi à casa do diácono. “Que loucura é essa, meu filho! Padre Bráulio não está na cidade. Foi visitar sua família em Picos, no Piauí”.
A história de Arcanjo recheava-se de episódios pitorescos. Com a morte de Isaque Salviano, maestro da bandinha da cidade, chamou cinco músicos para tocar no velório, mas a viúva não aprovou a ideia. “Música só amanhã, no sepultamento”. Uma coisa parecia cada vez mais clara para Arcanjo: religiosidade e espiritualidade não trilham o mesmo caminho.
Às 22h de uma quinta-feira da Semana Santa, — chegando de uma viagem exaustiva — Arcanjo percebeu uma movimentação na Escola Santa Terezinha. “É um velório, sem dúvida alguma”. Estacionou a Kombi e, logo na entrada, posicionou-se ao lado da mesa de dominó.
Já passava da meia-noite quando Dr. Botelho, o médico mais antigo da cidade, entrou na capela da escola. Cumprimentou as pessoas e conversou demoradamente com a esposa e os filhos do defunto. Muito solicitado, teve de falar com quase todo mundo. Mais tarde, acomodou-se ao lado da mesa do dominó. Entre uma partida e outra, desabafou: “Não imaginava que o Zelindo fosse morrer disso. Nunca fumou na vida!”
Assustado, Arcanjo levantou-se de uma vez. “Zelindo?! Este velório é do Zelindo Dantas?!” Um silêncio calou o ambiente. Era como se ele acordasse de um sonho. Jamais ficara indiferente num velório. Sempre falava com a família e ajudava no que fosse preciso.
Ao lado do caixão, sofria com toda essa agonia. Prosternado,lamentava a perda irreparável. E qual um soldado da guarda do Vaticano, passou a noite ao lado do caixão de seu melhor amigo: “Você merece as melhores velas”.

SOBRE O AUTOR – Eloy Melonio – Maranhense de São Luís, professor, escritor e letrista. Graduado em Letras (FAMA/2007). Membro da AMEI e da APB (Academia Poética Brasileira/2018). Livros publicados: Dentro De Mim (2015) e Travessia (2021). Idealizou o “Dia Municipal da Poesia” (Lei 6.394). Concursos de poemas: 3º Lugar no III FESTMACPU (UEMA/2017) e 2º lugar no I Concurso de Poemas da APB (2024). Em 2021, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo da Câmara Municipal de São Luís. É colunista de alguns sites, entre eles o FACETUBES (APB) e Blog do Ed Wilson.