
Estela nunca se considerou uma garota apegada a tradições, mas quando se tratava de família, o assunto era outro e a família sempre esteve em suas escolhas. Desde pequena, era a mais próxima da mãe, a quem observava passar o café e preparar o cuscuz todas as manhãs com gestos quase solenes. As mãos da mãe, ágeis e experientes, sabiam a quantidade exata de água, o ponto perfeito de cozimento, o cheiro que enchia a cozinha.
Às vezes era de milho e outras vezes de xerém, um derivado do arroz. E que agora parecia trazer consigo todas as memórias de sua infância num interior do Nordeste. Aquela imagem ficou gravada em Estela ao longo dos anos e, agora, parecia mais viva do que nunca, enquanto ela embarcava para o Rio de Janeiro, para reencontrar sua família.
A decisão de morar com os tios e primos veio após muita insistência deles. Eles já estavam no Rio há mais de quinze anos e achavam que ela teria mais oportunidades por lá. A mãe se preocupava, claro, mas também entendia o desejo da filha de explorar a cidade grande, aquela promessa de um futuro que ela mesma nunca teve. Mas, antes de partir, Estela tinha uma missão importante: levar um presente simbólico, que unia sabores e lembranças. E esse presente era justamente um cuscuz.
A mãe preparou a receita com um carinho especial, caprichando em cada detalhe. Mas, dessa vez, havia algo a mais. “Guarde bem, Estela”, disse, enquanto escondia no meio da massa um pequeno anel dourado, uma joia que estava na família há várias gerações. Foi o mesmo anel que sua mãe recebeu ao se casar, um elo familiar carregado de afeto e história. Ela disse:
“Esse cuscuz é a nossa história. Não deixe que ele se perca, viu?” E ela ainda acrescentou:
“Muito cuidado quando for comer!”. As duas subiram e se despediram.
A viagem começou tranquila. Estela colocou o cuscuz dentro de uma bolsa térmica, bem segura. Ela estava animada, mas a mistura de ansiedade e cansaço a fez cochilar em uma das paradas. Ao acordar, seu coração disparou após o susto: a bolsa não estava mais ao seu lado. Ela olhou desesperadamente ao redor e se levantou de um pulo, revirando as prateleiras de bagagens e perguntando aos outros passageiros se tinham visto sua bolsa.
“Moça, o que você perdeu?” Perguntou uma senhora com uma sacola cheia de quitutes, uma outra iguaria para viagens.
“É um cuscuz, senhora… um cuscuz muito especial”, respondeu Estela, com uma angústia crescente na voz. E ela seguiu procurando sua bolsa térmica com o cuscuz dentro.
A rodoviária fervilhava. Pessoas de todos os cantos iam e vinham, algumas com pressa, outras parando para conversar. Estela sentia a ansiedade em chegar numa cidade grande como o Rio de janeiro, ainda está ansiosa por todo aquele clima, porém, ela perdeu sua preciosidade, seu cuscuz.
Era apenas um ‘cuscuz’, pensava, mas, ao mesmo tempo, era tudo o que ela queria entregar pessoalmente à família. Principalmente, porque o cuscuz faz parte de cada família nordestina, todavia, aquela família estava há muito tempo sem experimentar um delicioso ente da culinária regional. Era algo feito com tanto carinho e que representava um pedaço da história de cada um deles. Mas, ela também sabia que dentro do cuscuz havia uma joia preciosa de família.
Estela começou perguntando aos motoristas e ao pessoal da rodoviária, tentando segurar o desespero, ela dizia seu ‘mantra’ de momento:
“Vocês viram uma bolsa térmica azul? Tinha um cuscuz dentro.” Alguns riram com curiosidade, sem entender a importância de um cuscuz a ponto de merecer uma busca tão determinada.
Seu primeiro encontro foi com um senhor chamado Zeca, que vendia balas e lanches numa barraquinha improvisada. Ele ouviu o relato com atenção, balançando a cabeça:
“Moça, já vi muita coisa se perder por aqui, mas cuscuz… é a primeira vez.” Ele apontou para um ônibus próximo e sugeriu que ela falasse com a responsável pela limpeza dos veículos, talvez alguém tivesse encontrado e guardado por lá.
Seguindo a dica, Estela conheceu Rosa, uma senhora de sorriso largo, que parecia ter passado a vida inteira naquele terminal:
“Ôxe, menina! Procura logo com o seu coração, que cuscuz bom é aquele que a gente sente falta. Vou dar uma olhada nos ônibus, mas não crie muita esperança, viu?”. Pela expressão “ôxe!”, ela percebeu que também era do nordeste a mulher que limpava o ônibus.
Conforme a busca avançava, o cansaço e a frustração se misturavam. Estela queria desistir, mas havia algo naquele cuscuz que a impedia de abrir mão da busca. Em cada conversa, ela percebia que o valor daquilo ia muito além do prato em si, apesar do prato na culinária nordestina ser muito valoroso.
Depois de horas de busca, Estela já não sabia mais o que fazer. Estava exausta, entretanto, em meio à frustração, surgiu um último fio de esperança quando avistou um ônibus parado ao fundo do terminal, prestes a sair para uma nova viagem. O motorista, seu Nestor, era um homem paciente, de barba grisalha e olhos gentis. Ele ouviu o pedido de Estela e acenou com a cabeça, dizendo:
“Pode subir, moça, dá uma olhada. Esses perdidos sempre encontram o caminho de volta, acredita.”
Estela subiu no ônibus e começou a procurar entre os bancos. Para seu espanto, lá estava a bolsa térmica, intacta, acomodada entre os assentos! Aliviada, ela segurou o cuscuz com cuidado, sentindo o cheiro familiar e o calor que parecia ter se mantido durante toda a espera. Com o coração transbordando de gratidão, agradeceu ao seu Nestor e seguiu em direção à plataforma onde pegaria o próximo ônibus para o Rio.
A viagem foi longa, mas, dessa vez, Estela não desgrudou os olhos de sua preciosa caixa térmica, vírgula, ou melhor, cuscuz. Quando finalmente chegou ao Rio de Janeiro, foi recebida com abraços calorosos dos tios e primos que a esperavam. Entre risos e histórias, ela retirou o cuscuz e o colocou na mesa, sentindo que tinha cumprido sua missão.
Ao cortarem o cuscuz para compartilhar, uma surpresa: escondido, estava o anel de família, brilhando como uma relíquia redescoberta. Os olhos de todos se iluminaram de surpresa e emoção. Era como se aquele pequeno tesouro simbolizasse o reencontro, as memórias e a união que eles tinham preservado, apesar da distância.
Estela sorriu, percebendo que o valor daquele cuscuz ia muito além do que havia planejado. Ali, entre os sabores da infância e o brilho inesperado da joia, a família estava completa novamente. A viagem, o cansaço, a busca – tudo parecia valer a pena para esse momento.

SOBRE O AUTOR – José Luís da Silva Costa é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), especialista em Questão Agrária, Agroecologia e Educação do Campo. É autor do livro-reportagem: Terra de Bravura e Utopia – Vila Conceição I e II: o Primeiro Assentamento da Região Tocantina. É fundador e editor do Blog Do Avesso, espaço dedicado à análise de temas relacionados à política, à cultura e à sociedade. Além de artigos de opinião, publica contos de ficção de sua autoria.
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