Esta é uma história de amor à literatura e, por extensão, ao SALIMP (Salão do Livro de Imperatriz).
Uma curta história de amor: diferente, irracional, inaceitável, chocante… Você, onze anos apenas, uma criança arredia: com o mundo aos seus pés e a vida à sua frente. Tudo apontava para que nada desse certo. Mas deu!
Apesar da sua natureza nômade, e o meu comportamento sedentário, havia algumas afinidades entre nós. O gosto pela Literatura era uma delas. Você trazia consigo centenas de mensagens que eu gostaria de ter, milhares de livros que eu gostaria de ler… Você era como se fosse uma enciclopédia ambulante na qual eu, sedento de sabedoria, iria saciar minha sede nos desvãos do seu mirrado corpo.
Durante sete dias você foi assediado, acariciado, apalpado… por crianças, jovens e adultos; o interessante é que eu não sentia ciúmes, logo eu, que sou ciumento por natureza, fiquei apático, irreconhecível, não importava em dividi-lo com os presentes. Fossem homens ou mulheres, crianças ou adultos. Nada disso tinha importância.
Foram sete dias apenas, você se foi, sem um adeus, sem um aceno de mão, sem um até logo sequer. Deixou comigo a dor, a saudade e a esperança de um dia qualquer nos encontrarmos novamente.
Um ano depois, você voltou! Não como da primeira vez, foi diferente. Não foi à primeira vista, pois eu tinha certeza de que o conhecia de algum outro lugar, em outras encarnações. Talvez. Por que não? Eu, na minha timidez que sempre me impediu de aproximar-me dos causos e das coisas. Com você foi diferente: bastou um rápido olhar para descobrir, em cada detalhe do seu corpo, o que estava escrito na sua alma. Percebi, de imediato, que a deferência dada a mim era a mesma dada a todas as outras pessoas. Fossem altas ou baixas, gordas ou magras, adultas ou crianças, homens ou mulheres… Não, não importava. Isso não me importava. Pasmem os senhores: isso não me deixava nem um pouco constrangido: pelo contrário, minha admiração por você só aumentava. Eu chamei de carisma essa qualidade inerente a algumas pessoas de atraírem outras.
Novamente foi efêmero nosso relacionamento, e mais avassaladora a minha paixão. Assim como da primeira vez, durou apenas sete dias. Você foi embora, sem um adeus. Hoje no local dos nossos encontros, confesso que notei certo ar melancólico no velho prédio. Apesar do seu aspecto grosseiro, da sua estrutura metálica, ele se encontrava sorumbático, macambúzio, ou simplesmente triste, como queiram. Percebi, ainda, que à sua volta havia algumas gotas do sereno da noite, parecendo lágrimas de saudade de nós dois e de mais um punhado de pessoas que por ali passaram durante os sete dias. Nada importava naquele momento: só a saudade de você povoava a minha mente. Eu não percebia nada ao meu redor. De dentro dos carros que transitavam na rua, algumas pessoas me olhavam com curiosidade. No meu devaneio, nem sentia tais presenças. Apenas me perguntava: por que as coisas que queremos bem, as pessoas que amamos tanto têm permanência tão curta ao nosso lado? Por que, meu Deus?

Ali, naquele local, durante uma semana, você foi tão assediado que nem percebeu que fiquei com alguns pedacinhos de você, que ainda hoje guardo com muito carinho, na esperança de que volte daqui a um ano.
Queria porque queria dizer do sentimento que me atormentou durante um ano. Foram 365 dias de dor e de saudade, desde que você se foi. Procurei, no armário das palavras, a que melhor definisse o instante da partida. Não encontrei. Na prateleira empoeirada das metáforas, catei, sem sucesso, uma que explicasse aquele momento. Em vão. Numa hora como aquela vivida, não achava a palavra certa, ainda que buscasse nas gavetas mais difíceis de serem abertas, no badalo das rimas perfeitamente metrificadas ou nos acordes das músicas sonoramente tristes. Ignorei o dicionário e contentei-me em rabiscar aqui, neste pedaço de papel branco – que já teve a cor da esperança – apenas uma palavra: SAUDADE.
Mas você voltou, e eu sabia que voltaria. Voltou com nova roupagem, nova dinâmica, um ano mais velho, mais sério… mas era você. Eu o reconheceria entre milhares. Diz a sabedoria popular: “Todos os caminhos chegam à bodega”. Nem todos, um desses caminhos trouxe você até a mim e a várias outras pessoas. O nosso reencontro fez a dor e a saudade, que senti durante um ano, ficarem cada vez mais pretéritas. Já estou quase me acostumando com seu vaivém. Aceito sem reclamar o assédio constante a você; as carícias do público já não me afetam mais; não me importam. Só importa você. Melhor dividir a sobremesa do que não comer sobremesa alguma.
Dispenso a modéstia para definir-me uma fagulha ardente no amor que você sente por este torrão, e pelas pessoas que aqui vivem, cuja hospitalidade faz com que volte todos os anos. Vi, ouvi e participei, mais uma vez, com incontida alegria, de sua volta. Sabe quando milhares de pessoas dirigem-se para o mesmo local, quando centenas de ouvidos ouvem as mesmas respostas: sim, voltei, estou aqui porque também amo vocês. Era isso mesmo que acontecia: todas as pessoas olhavam para você, queriam tocá-lo, afagá-lo. Inclusive eu. E foi assim durante sete dias novamente, nenhum a mais, nenhum a menos. Como das outras vezes, você partiu. A diferença é que, desta vez, você participou da despedida, ouvindo um recital de poesia feito em sua homenagem. Músicas foram cantadas, abraços foram dados, apertos de mãos; até lágrimas foram derramadas, nenhuma mais pura e sincera que as minhas. Aquilo é que era amor! Guardo até hoje alguns pedacinhos de você, acaricio-os, como se estivesse acariciando você, e fico esperando a sua volta, como tenho feito todos esses anos.
Desta feita, uma angústia apoderava-se de mim, era como se aquela safra de bons encontros estivesse no fim. Eu não conseguia encontrar motivos para tanto. Recorri ao baú das minhas lembranças, também não encontrei motivação para tanto. Não havia outra maneira, só me restava esperar, foi o que fiz. Passaram-se os anos, um, dois três, quatro… e até hoje você não me deu a graça da sua presença. Chamei isso de abandono de vulnerável. Nada havia a fazer.
SOBRE O AUTOR – Francisco Itaerço Bezerra formou-se em comunicação Social com extensão em jornalismo pela UEMA. É membro da Academia Açailandense de Letras, cadeira número 22 e da Academia Imperatrizense de Letras, cadeira número 07. Autor de quatro livros: “Cada Poesia uma História”, “Meias metades: Histórias de vida Contadas em Pedaços”, “Um punhado de Poesia e Uma Mão Cheia de Prosa” e “Encontro Entre poesias e contos”, além de participar de duas Antologias.