segunda-feira, 7 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #080 – CALENDÁRIO DA DECADÊNCIA HUMANA (Gilmar Pereira)

Publicado em 9 de agosto de 2026, às 8:28

Segunda feira. O barraco em que a menina morava com pai e mãe era um dos mais miseráveis. A fumaça e a neblina do lixão ao lado retratavam a decadência da humanidade.

– Papai acordava cedo e, com ele, eu e mamãe íamos remexer o lixo. Como sempre, em busca de algo que nos servisse; papai catava plástico e alumínio. Mamãe, papel. Eu, com uma panela amassada, fuçava os restos de comida, separando o que ainda poderia ser consumido – juro que pouca coisa servia, no entanto, por nossa necessidade, tudo era útil.

– Papai brigava quando eu não conseguia encher a panela. Dizia com raiva:

– “Sua imprestável”! – Não sei de onde ele tirou aquele nome – imprestável. Chamava-me tanto desse nome que os vizinhos, alguns, me ironizavam:

 – Olha a “imprestavelzinha”!  Procurava não me chatear, papai me batia sempre que me revoltava com as coisas que os outros faziam comigo. Apanhava, dizia ele – para respeitar os outros. Papai era assim; para os outros, tudo, para mim e mamãe, nada.

– Tinha vários urubus onde eu disputava os restos de comida. Mas tinha um que nunca se aproximava; ficava lá do tronco de uma árvore queimada a me olhar, sabia que ele estava a me olhar. Pois dava-me um calafrio sempre que eu o encarava.

– Também não poderia esquecer, em hipótese alguma, que, se aparecesse gente diferente na redondeza, teria que me esconder. Algumas vezes ficava por dias no matagal ao lado. Tinha medo, mas papai não queria que eu fosse vista, dizia:

– Eles poderão te levar para um lugar muito ruim, minha filha!

– Que lugar seria pior que aqui?! Imaginava a menina na sua ingenuidade.

Terça-feira. Naquele fim de mundo, parecia que terça-feira era um dia da semana para ser esquecido. No lixo que chegava, não vinha resíduo de comida.

– Papai dizia. Dizia não, papai xingava, que o povo dessa cidade esquecera da gente. É triste. É o dia que mais apanhava. Papai se vingava em mim e, às vezes, em mamãe. Achava que éramos as culpadas pela miséria. Eu ficava, nesse dia, quietinha. Ficava com fome. Achava que mamãe ficava também. Doía em mim.

– Nesse dia papai tirava para beber. Horrível era quando ele voltava. Ficava tremendo tanto de fome como de medo. Apanhar de papai é pior que passar fome.

Quarta-feira, o horário era o mesmo. A fumaça e a neblina deixavam o ar carregado. O frio a fazia tremer. As moscas, em alvoroço, não a deixavam quieta. Sentavam-se na menina como se fosse uma comeia, e a menina, a própria mãe rainha.

– Pensava em mamãe, que deveria sofrer. Pensava em mim. Mas eu sofria mais que ela. Só em ver mamãe catando papelão para papai vender e esconder o dinheiro para beber cachaça me dava tristeza. E nós ficávamos com fome e seminuas, enquanto ele se divertia. Doía ver aquilo.

– Naquele dia, o urubu me observava de mais perto. Já não estava lá no tronco da árvore queimada, como sempre estava a me olhar. Hoje, quarta-feira, ele estava me olhando de uma estaca que fazia divisa com o matagal. O olhar dele me dava medo. Não um medo como o que sentia de papai, quando ele estava para chegar bêbado.

Quinta-feira. O tempo se mostrava sem evolução, para aquele mundo. O ar cinzento tomava conta da beleza que estaria por trás do cenário de miséria. O sol era um ponto quase apagado no espaço. Reinava a tristeza da menina, que nada poderia fazer.

– Papai disse que teria que encher a panela de comida. Do contrário, ele iria tirar o meu coro com chibata. Tenho medo quando papai me ameaça com chibata. A chibata é feita de um coro cru e ficava dependurada na ripa do barraco.  Dói muito quando ele me bate. É como se fosse uma brasa riscando minha pele. Ficava em carne viva todo o meu corpo, ele lavava com água de sal. Como doía!

– Tenho a obrigação de encher toda a panela, esta era minha missão. Mas não dependia de mim. Que pena me dá. Não dependia de mim. Dá vontade de chorar. Só que não posso chorar. Se papai ouvisse meu choramingo, me bateria para calar.

A menina pouco pode fazer. Não dependia dela. O mundo era cruel com ela.

– Papai vai me matar. Achava que não deveria voltar para o barraco. Pior seria se não voltasse! Pensava a pobre menina com um amargo na boca que sentia. O mundo aos seus pés já não existia, era um vazio, e um só desamparo.

– Papai vai me matar! Repetia a pobre menina, que já se preparava para apanhar.

Entrou desconfiada no barraco, colocou a panela no lavatório, que servia também de mesa.

– Quando papai viu a panela quase vazia, seus olhos avermelharam-se de ódio; sua ira transbordara pelo olhar. A única palavra que ouvi dele foi a de sempre:

– Sua imprestável!

– Daí em diante, só sentia a chibata romper a minha pele, como fogo queimando – ai como doíam as chibatadas de papai. Não podia gritar. Mamãe? Mamãe não podia me socorrer. Mamãe tinha medo de papai. Mais medo que eu. Percebia no seu olhar que tinha medo.

– Fiquei que dava pena. Não tinha mais fome e nem sede, apenas amargura. O choro já não mais me satisfazia. Queria morrer se fosse possível. Queria morrer para não mais sofrer! Ah! Como queria morrer! Deixe que eu morra, meu Deus! Deixe-me!

Sexta-feira. A menina tinha que levantar e sair para a labuta. A blusa encardida estava colada às costas, grudada com sangue que ainda brotava de seu corpo fraco e debilitado. As moscas faziam a festa em seu corpo frágil e imundo.

– Ninguém para me acudir, meu Deus? Interrogava a sofrida menina que, para o mundo, não existia, era apenas um vulto sem dignidade.

– Sei que as pessoas estranhas de que papai falava poderiam me socorrer. Mas, infelizmente, somente as pessoas de sempre; pobres miseráveis como nós. Nada poderiam fazer.

Sexta-feira era muito triste. Só as pessoas de sempre, pobres miseráveis que viviam na mesma rotina. O urubu que observava a menina, neste dia, se aproximou.

– Não tenho medo? Pensa no seu mais profundo desgosto pela vida. Na sua mais obstinada revolta contra a morte, que relutava em não vir.

– Ele me olhava de um jeito diferente; meio alheio e meio atento. Será que queria me dizer algo? Será que poderia me aliviar da dor. Aliviar meu sofrimento?

Sábado. A menina tentava esquecer a surra que levara. Pensando em coisas um pouco melhores do que sua realidade cruel e implacável.

– Hoje, com certeza, irei encher a panela com resto de comida que nos alimentará para mais um dia de sobrevivência! Vou conseguir, juro que vou!

A menina esqueceu o frio que fazia. A fumaça e toda intempérie da vida e, com as mãozinhas em carne viva, esgravatava a montoeira de resíduo, em busca de restos que poderiam ser úteis.

– Estou com um olho no lixo e o outro no urubu. Engraçado, todos os outros urubus se aproximam, disputavam cada palmo de espaço comigo, mas aquele não; ficava de longe, tenho certeza de que a me observar. O pescoço estirado para cima, o bico constantemente em minha direção. Não se aproximava, mas sabia que não era por medo, era algo que não compreendia, um mistério que não conseguia entender.

– Tentava espantar as moscas, mas era tempo perdido, era uma batalha impossível de vencer. Papai até reclama da minha labuta contra elas. Os meus lábios pareciam uma fruta podre assediada por moscas. Meus olhos embaçavam com o movimento frenético que elas faziam. Aborrecia-me, mas não podia deixar papai ver.

Domingo. Seria um dia bom para os desprovidos do mínimo necessário. Seria dia de festa, se não fosse o outro lado da sociedade que fazia a diferença.

– Papai, naquele dia, me olhava com estranheza, como se eu não existisse, como se eu fosse uma figura apagada. Eu sentia um frio anormal. Não um frio como sempre senti. Era um frio que vinha de dentro para fora; vinha de minha alma.

– Mamãe não fora diferente, o olhar dela deixava uma nesga de vazio, de um espaço a ser preenchido. Eu estava confusa, algo me apertava, me deprimia.

– Papai e mamãe caminhavam à frente. O frio, que insiste em me dominar, me deixava abatida. Sem força. Deitei em um papelão. O frio, rasteiro, me alucinava. Peguei outro papelão e cobri meu corpinho inacabado, tentando amenizar a frieza.

– Cochilei por um segundo. Ouvi o barulho do motor do trator. Mas aquele barulho era constante na rotina do lixão. Tornei a cochilar. Quando, por uma fração de segundo, ouvi um estrondo. Um estrondo dentro de mim.

– A princípio, achei que tinha gritado, mas não gritei, não saiu grito algum, pois a rotina de todos continuou no seu percurso, inclusive papai e mamãe.

– Depois me vi sentada lá de cima do tronco de árvore queimada onde o urubu costumava ficar. Vi papai e mamãe separando, no lixo, o que servia para eles.

– Vi meu corpinho inerte entre os papelões amassados e ensopados de sangue.

– O urubu, agora, somente ele, se aproximou do corpo com um caminhado desengonçado. Com o bico afiado virou o papelão expondo meu corpinho triturado pela esteira do trator. Nesse instante, vendo aquela cena, quis gritar, mas uma Luz me envolveu e me levou.

– Lembro que meu último pensamento foi – amo mamãe, e papai também!

SOBRE O AUTOR – GILMAR PEREIRA DA SILVA nasceu em 23 de maio de 1957, na cidade de Xambioá – TO. Reside em Imperatriz – MA.É casado com Ana Lúcia Salazar da Silva, com quem tem dois filhos, Gil Gilmar e Anna Sara.Formado em Letras, Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. É fundador do GRULI (Grupo Literário de Imperatriz), onde desenvolveu, junto com outros escritores, um providencial trabalho literário em Imperatriz, nos anos 1980/90. É membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, cadeira 28, que tem como patrono o imortal Viana Guará. Tem alguns livros publicados: Percurso insólito e outros percursos – Crônicas; O Camaleão que queria ser gente – Fábula; Bem perto é muito longe – Romance infantojuvenil; Cemitério de sonhos – Romance infantojuvenil

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