quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #74 – GATO PRETO NO CAMINHO DO VIZINHO (Gilmar Pereira)

Publicado em 20 de junho de 2026, às 9:50

A confusão estava formada, embora não tenha procurado entrar na pilha. Pois já sabia para quem iria sobrar. O vizinho, aos gritos, logo cedo da manhã, falava que era o meu gato que, na noite anterior, fizera a maior algazarra em cima do seu telhado.

– Pudera!

Resmungava eu no mais alto degrau da certeza.

– Só pode ser teu gato!

Gritava e se apoderava dos mais variados pretextos para me ameaçar, para me difamar sem embasamentos:

– Fez do meu telhado um campo de batalha ontem à noite!

Acordara toda a circunvizinhança com seus chiliques e esteiras, e olha que era em uma manhã de domingo, quando todos querem esticar o descanso. Imagine o fuzuê:

– Desarrumou todas as minhas telhas. O telhado ficou uma peneira!

Pobre vizinho, não sabe ele que nem crio gato. Aliás, animal nenhum. Mas, na sua compreensão, isso não lhe continha, pois jogara todo seu infortúnio na minha pessoa, na minha inocência.

Já não tinha muita simpatia por bichos, e quando li, tempo atrás, o conto “O Disfarce do Endemoninhado”, no livro Deslumbres e Arrepios, onde o autor narra que o personagem fora, no primeiro encontro, envolvido pelo mimo de um indefeso gatinho e o adotou para ser seu bichinho de estimação e vi no que deu no final do conto…? Nunca mais eu quis saber de me aproximar de gatos. Na verdade, de animal qualquer.

Agora essa do vizinho que atribuía o rebuliço de um gato desconhecido, que não sei se existe mesmo ou é apenas projeção da mente dele, para me atormentar, para me tentar tirar o sossego…

– Pra lá com essa história de gato!

No momento, me concentrei em busca de uma solução e tentei me defender:

– Olhe aqui…!

Não me deixou falar, estúpido. Saiu aos gritos que iria tomar as providências cabíveis. Me contive e recuei nas minha justificativas, e ainda, com o dedo em riste:

– Não canse por esperar!

No dia seguinte, o silêncio predominou na vizinhança, que até parecia que ele tinha se mudado. Que bom se fosse verdade. A única coisa que ecoava em minha mente era a frase ameaçadora que pronunciara:

– Não canse por esperar!

Dias depois, apareceu com a cara mais limpa do mundo, ou melhor dizendo, com a cara deslavada. Bateu em minha porta no maior disfarce e pediu:

– Ô vizinho, me arrume um pedaço de carne!

E sorriu com atrevidamente:

– Se não tiveres, um pedaço de peixe também serve!

Olhei ele de cima a baixo, quis aproveitar a oportunidade e lhe desconsiderar. Mas não é de minha natureza, e achei por bem lhe dar um pedaço de carne. Lógico que não iria cortar um pedacinho de meu salmão, só para perpetrar os desejos de um insolente, que não media esforços para me aborrecer.

Recebeu o pedaço de carne com as pontas dos dedos e com um sorriso descarado agradeceu, engolindo, como sempre, o início da palavra:

– Brigado!

No meio da noite seguinte, no meu pretenso aconchego, me despertei, assim sem mais nem menos, com o ocorrido:

– Para que meu vizinho quer mesmo um pedacinho de carne? Pois, até onde eu sei, ele é vegetariano, assim com todos em sua casa?

Essa questão me tirou de tempo. Meu vizinho é assim, mora perto só para tirar o meu sossego. Não consegui pegar no sono àquela noite e as interrogações iam pipocando em minha cabeça:

– Para quê ele quer mesmo um pedacinho de carne?

A questão se apoderou do meu inconsciente, e a obsessão, recorrente em mim, fadigou, em que sequer cochilei pela noite inteira.

Dois dias depois daquela inconveniência, vinha de volta para casa, quando, passando pela rua paralela à minha, onde os quintais dão fundo uns para outros, me saltou os olhos uma confusão em uma das casas, um corre de gente e os clamores emitindo choros e palavrões.

Me aproximei discretamente, objetivando informações. Fui surpreendido. O gato reprodutor de estimação do delegado daquele distrito, que morava ali, acabara de morrer envenenado.

Puth! Que fatalidade! Lamentei.

No primeiro momento, meu pensamento foi, irremediavelmente, no pedaço de carne, recordei do rosto cínico do vizinho. No entanto, lembrei, por seguinte, da bravura do delegado. Delegado, delegado não. Bate-pau; função que as autoridades atribuíam aos grandes maus-elementos, para colocar ordem em pequenos malfeitores.

 E a frase que não me largava ecoou sem me dar trégua:

– Não te canse por esperar!

Isso mesmo, não tenho língua grande, mas não te enfade por esperar, vizinho!

SOBRE O AUTOR – GILMAR PEREIRA da Silva nasceu em 23 de maio de 1957, na cidade de Xambioá – TO. Reside em Imperatriz – MA.É casado com Ana Lúcia Salazar da Silva, com quem tem dois filhos, Gil Gilmar e Anna Sara.Formado em Letras, Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. É fundador do GRULI (Grupo Literário de Imperatriz), onde desenvolveu, junto com outros escritores, um providencial trabalho literário em Imperatriz, nos anos 1980/90. É membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, cadeira 28, que tem como patrono o imortal Viana Guará. Tem alguns livros publicados: Percurso insólito e outros percursos – Crônicas; O Camaleão que queria ser gente – Fábula; Bem perto é muito longe – Romance infantojuvenil; Cemitério de sonhos – Romance infantojuvenil.

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