Vaidade. O vizinho acabara de sentar na cadeira do barbeiro. Esperara quase trinta minutos para ser atendido. Prontamente sentado e posto o avental, o mesmo de tanto uso, puído, encarochado e com cheiro horrível de cu viajado, dava repulsa.
Pensou baixinho, evitando de comentar, deixando seu lado arrogante de sempre e buscando sua réstia de humildade, atalhando, assim, para não constranger o barbeiro que era amigo de muitas datas.
– Que nojo! Concluiu em seu pensamento pedante:
Fechou os olhos como sempre fizera e sentiu a escova penetrar no cabelo quase totalmente branco e com possibilidade mínima de algum dia cair. Em seguida, pelas mãos do barbeiro, a máquina de corte com a lâmina número três entrou em ação e aquilo lhe deixava, para variar, sonolento.
Era para ser, comumente fora, normal aquela tarefa tão usual em seu cotidiano. No entanto, fora surpreendido por uma voz feminina que por ali quase não se via:
– Quer comprar cuecas?
Meu vizinho, de súbito, quis abrir os olhos, mas, de relance, percebeu que a pergunta não fora feira para ele.
– Não, minha senhora!
O barbeiro, a quem fora direcionada a pergunta, respondera de pronto.
Entendeu, mesmo com os olhos desligados das imagens reais do salão, o que estava acontecendo. Foi quando ouviu pela segunda vez, a voz da vendedora:
– E o senhor, quer comprar cuecas?
Houve um silêncio no ambiente. A resposta não veio. Foi quando pressentiu que a indagação, desta ocasião, era dirigida a ele. Com os olhos semiabertos, viu a mulher em sua frente, através do reflexo no espelho e a proposta sendo reiterada:
– O senhor, quer comprar cuecas?
A resposta saíra timidamente em monossílaba:
– Não!
Sem pestanejar, adiantou a vendedora:
– Não! Por que não?
Salivou a boca e, na sua natural paciência (meu vizinho é assim), contrapôs a insistência da ambulante:
– As minhas cuecas é minha esposa quem compra e disso não abro mão, por nada desse mundo.
A vendedora, como uma boa profissional, não desistiu no primeiro momento, e expôs seus predicados, exibiu a sua amabilidade que exigia no seu ofício:
– Tenho aqui à disposição vários modelos, cores e tamanhos, você vai gostar. Garanto que vai gostar!
Ele, meu vizinho, de imediato, fixou os olhos na imagem da mulher refletida no espelho e saiu em defesa:
– Quando fiz sete anos de casado, fui acometido por falta de apetite sexual. Por seguidas ocasiões broxava; insistia e broxava, persistia e também broxava. Acreditava que era a crise dos sete anos, que tanto falam os entendidos no assunto.
Fechou os olhos enquanto o barbeiro penteava seu cabelo para frente, na tarefa de alinhar o corte. A vendedora não tirou os olhos dele, demostrando interesse na conversa que se principiava. E ele, mesmo de olhos fechados, deu continuidade ao diálogo:
– Aí minha mulher insinuou que tinha a solução para o problema – duvidei prontamente, mas queria por tudo uma solução e dei abertura para a dissolução do enigma que me abatia. Ela, sem demora, jogou fora todas as minhas cuecas, as velhas e outras nem tanto usadas…
Houve uma pausa na conversa, pois o barbeiro, na sua dolorosa tarefa de usar o aspirador para espanar os cabelos soltos no avental encardido, interrompeu a conversação.
Todos os que estavam no salão, além da mulher e do barbeiro, ficaram em atenção no contexto que estava descambando, possivelmente, para o lado picante.
Já na ausência do barulho, meu vizinho deu prosseguimento em sua eloquência:
No outro dia, ganhei de minha esposa uma dúzia de cuecas novas. Empolgado, vesti a primeira e achei um tanto quanto folgada, vesti a segunda, também folgada, assim como todas as outras. A princípio, fiquei aborrecido com aquele descaso. Mas, sem saída, passei a usá-las, mesmo a contragosto. Sete dias depois meu apetite sexual, abruptamente, voltou e, dessa vez, como um vulcão em estado permanente de erupção; ninguém me segurava. Minha mulher acordava pela manhã sorridente que parecia que dormira nas nuvens…
A vendedora, nesta altura da conversa, baixou a cabeça em um misto de acanhamento e excitação. Só ela sabia o que lhe passava pela cabeça.
– Dias depois, minha esposa explicou o que prejudicava minha virilidade, era que usava cuecas apertadas. Sorri dela, sorri do caso, sorri dos vexames que passei, mas era verdade. Problema resolvido.
Naquele instante, o barbeiro discretamente se livrou da escova que estava na mão esquerda e apalpou, com discrição, um lado da perna, procurando o vinco da cueca que lhe apertava por demasia. Um cliente que esperava ser atendido, e ouvira a conversa, se dirigiu cabisbaixo ao banheiro, certamente para esticar a sua, que lhe cingia desde muito tempo.
A vendedora, por conseguinte, ganhou mais dois clientes que passaram a usar cuecas um número a mais do que sempre usavam, na vã pretensão de serem um pouco mais homens, pelo menos em suas casas.

SOBRE O AUTOR – GILMAR PEREIRA da Silva nasceu em 23 de maio de 1957, na cidade de Xambioá – TO. Reside em Imperatriz – MA.É casado com Ana Lúcia Salazar da Silva, com quem tem dois filhos, Gil Gilmar e Anna Sara.Formado em Letras, Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. É fundador do GRULI (Grupo Literário de Imperatriz), onde desenvolveu, junto com outros escritores, um providencial trabalho literário em Imperatriz, nos anos 1980/90. É membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, cadeira 28, que tem como patrono o imortal Viana Guará. Tem alguns livros publicados: Percurso insólito e outros percursos – Crônicas; O Camaleão que queria ser gente – Fábula; Bem perto é muito longe – Romance infantojuvenil; Cemitério de sonhos – Romance infantojuvenil.