Ed Wilson Araújo
Publicado, originalmente, no Blog do Ed Wilson: https://edwilsonaraujo.com/escala-de-professora-e-7-x-0/
Nesse último dia de maio, animado com o avanço da luta pelo fim da escala 6 x 1, quero me congratular com todas as pessoas que ralam muito, dia e noite, em precárias condições de trabalho, turnos exaustivos, baixos salários e, no dia a dia, enfrentam condições de mobilidade absurdas dentro de ônibus, metrôs e trens ou, para chegar mais rápido, gastam parte da renda com transporte de aplicativo.
Aqui, na minha comodidade, nesta noite de domingo, sentado em frente ao computador, fico pensando em milhões de pessoas que voltam para casa depois de mais um dia de trabalho.
Esses homens e mulheres estarão sempre em primeiro lugar no meu espectro de justiça trabalhista.
Por elas lutamos até conseguir um importante avanço que pode aliviar os corpos exaustos na jornada 6 x 1.
Aproveito também para dizer que, em volume de trabalho, a labuta dos professores e professoras é na jornada 7 x 0.
Para quem não conhece a vida de um docente universitário, é preciso informar que a sala de aula é apenas um dos momentos em que estamos trabalhando.
Os outros tempos, horas e horas, dia e noite, todos os dias, são dedicados a tarefas inumeráveis que vão de simples assinaturas eletrônicas até atividades bem mais complexas.
Estudamos para preparar conteúdos, corrigimos provas, nos reunimos em diversas instâncias para cuidar de burocracia, escrevemos artigos e livros, emitimos pareceres, somos permanentemente afetados por normas e resoluções que precisam ser lidas e interpretadas, orientamos TCCs, dissertações e teses, participamos de bancas de conclusão de curso de graduação e pós-graduação, coordenamos estágios, organizamos eventos, fazemos pesquisa e extensão, preenchemos infinitos formulários e administramos toda sorte de situações dessa profissão cada vez mais complexa e dependente de intermináveis telas, aplicativos, plataformas e mecanismos de vigilância e controle.
Fico por aqui, mas a lista de atividades é interminável…
Tudo isso é feito em função de alcançar métricas cada vez mais exigentes para progredir na carreira e alimentar o sistema educacional.
Às vezes fico pensando que a corrida frenética da produção acadêmica virou um retorno à jornada de 12 horas da Revolução Industrial.
Muitos docentes estão adoecidos com novas e velhas síndromes, ansiedade, estresse, variados níveis de cansaço físico e mental, somados a moléstias ocupacionais, comorbidades e transtornos.
É claro que, no meio disso tudo, temos prazer e motivações para seguir em frente, sonhando com uma aposentadoria minimamente digna.
Longe do lugar comum de encarar a Educação como sacerdócio ou missão transformadora, a vida real de professores e professoras é do trabalho permanente.
Basta abrir o e-mail e estão lá as notificações mandando a gente trabalhar, trabalhar e trabalhar…
Para essa lógica seguir em frente, as instituições de ensino superior começaram a introduzir planos de qualidade e até palestras de coachs para receitar lições mágicas de autoajuda sobre motivação, resiliência, sinergia e inovação.
Os novos mentores do velho capitalismo criaram esse combo de palavras elegantes para disfarçar o capataz que manda a gente “se reinventar”, submeter, ajoelhar e rezar na cartilha das mudanças, geralmente batizadas de “modernização”.
Nas suas pomposas palestras, os coachs dizem que precisamos converter as dificuldades em aprendizado, transformando o professor em empreendedor de si mesmo, para servir de exemplo à sociedade cada vez mais extorquida pelo capitalismo.
E, para conectar as coisas, ah, que glória (!), temos de ter sinergia, um tipo de prozac dessa nova didática produtivista que beira à escravização.
Quando saímos dos lugares físicos, entramos em um eterno home office, herança da pandemia, que nunca mais saiu das nossas vidas. Então, somos consumidos pelo microtrabalho, “invisível”, mas dotado de uma carga absurda de esforço e tempo.
Nessa forma de conceber a Educação, o ócio, indispensável para quem trabalha com pensamento, uma ação necessariamente reflexiva, que demanda tempo, é considerado um insulto. Ficar ocioso é feio, nefasto, fora de época, porque agora precisamos produzir mais, cada vez mais, para atender à lógica ultraliberal do trabalho docente.
O conglomerado multinacional Todos pela Educação é o novo regente das políticas educacionais. “Todos”, nesse caso, é o núcleo restrito do capital que pode viver no ócio, às custas do trabalho docente nas escolas e universidades, transformadas em fábricas de aulas e diplomas.
A perspectiva da “modernização” inclui ainda, necessariamente, a perda ou restrição de direitos.
Trata-se de uma noção elementar: menos direitos e mais metas, implica mais-valia.
Bem, vou ficando por aqui porque preciso trabalhar.
Esse pequeno texto é um alerta para conversarmos sobre a saúde física e mental dos(as) docentes.
SOBRE O AUTOR – Ed Wilson Ferreira Araújo é doutor em Comunicação (PUCRS), graduado em Jornalismo e mestre em Educação, ambos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), presidente da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Maranhão (Abraço-MA) e membro da Agência Tambor.