sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Vivendo pela metade

Publicado em 11 de maio de 2026, às 17:16
Fonte: Por Ana Luiza Nogueira e Emilly Castro

Viver a diversidade sexual e de gênero abertamente é, para muitos jovens, uma experiência permeada por invalidação, insegurança e a necessidade constante de provar o próprio valor. É dentro desse cenário, imerso em um contexto religioso, que Imperatriz – segunda maior cidade do Maranhão – impõe adversidades nas vivências da população LGBTQIAPN+. Com discursos políticos heteronormativos e tensões nas implantações de políticas públicas, a comunidade LGBTQIAPN+ enfrenta uma realidade em que a violência e o preconceito são generalizados. 

Andar pelas ruas sem medo, criar relacionamentos afetivos e ser visto além da própria sexualidade são luxos negados a muitos. “Geralmente, não há segurança,” afirma um jovem Queer, que preferiu não se identificar. Outra mulher lésbica, que compartilha do mesmo receio, expressa um temor constante: “Sinto que posso ser atacada a qualquer momento”. O medo de sofrer agressão ou de encontrar alguém de índole maliciosa faz com que a comunidade viva atenta o tempo todo em espaços públicos. A preocupação maior reside na negligência e omissão dos órgãos de segurança pública, e no receio de que agressores não sejam punidos devidamente.

Vivências Cruzadas

França Bahia Lima, mulher lésbica, descreve a cidade como a “mais bolsonarista do Maranhão”, o que contribui para um lugar hostil onde o preconceito é cultivado e a violência não é devidamente denunciada por medo de represálias. Eduardo da Conceição Jorge, homem gay, concorda que Imperatriz é uma cidade tradicional e conservadora e é  “muito difícil você ir para um local e se sentir seguro para ser você”. 

O medo não é uniforme, mas universal. Para Luca de Castro Araújo, homem trans, o pavor concentra-se no banheiro público, espaço de violação recorrente de corpos trans. “Tenho medo de usar banheiros públicos”, resume. 

Já Maria Luíza Cruz Vieira, mulher bissexual, desloca esse medo para o espaço aberto da rua: “Eu sinto que sempre vai ter alguém olhando torto […] tenho medo de ser espancada”. Enquanto Luca teme o confinamento e a falta de testemunhas, Maria Luíza teme a agressão explícita e a humilhação pública. Em ambos os casos, a cidade não acolhe, apenas vigia. 

O peso da Identidade: a jornada de Luca

Ser LGBTQIAPN+ em Imperatriz, para Luca de Castro Araújo, é uma experiência atravessada por altos e baixos. Para o jovem transsexual e bissexual, o preconceito se manifesta de forma mais aguda em sua identidade trans. Luca relata que o erro deliberado de pronomes e o desrespeito são frequentes, muitas vezes justificados por crenças pessoais ou religiosas, mesmo no ambiente escolar. Essa violência verbal, mascarada como “preferência” ou “brincadeira”, afeta profundamente sua experiência diária.

Na sua vida acadêmica, a fase do ensino médio foi marcada como um dos primeiros espaços de violação, o estudante relembra que no ambiente educacional, o desrespeito era explícito e muitas vezes legitimado por discursos religiosos. “Tinham casos na minha sala de alunos que falavam de dar graças a Deus pelo holocausto porque matava gay, e ninguém fazia nada, imagina um aluno falar isso numa sala de aula e o professor ouvir e não falar nada.”  denuncia Luca, sobre a época escolar.

Já na universidade mudou o cenário mas não mudou a violência, Luca recorda momentos do início de sua graduação onde houve demora para ter seu nome social no sistema educacional, e isso acarretou em episódios de transfobia. “Teve uma frase de uma pessoa que me deixou muito mal, foi no começo das aulas, a pessoa falou, ‘ai, só tem tantos homens na nossa sala, eu fiquei, tipo, e eu? Aí ela disse, ‘não botaram teu nome ainda, então tu não conta”, relembra.

A falta de capacitação dos profissionais de saúde também é um problema evidente. Luca relatou uma experiência negativa com uma psicóloga que, além de ser preconceituosa, demonstrou não saber nem o que era bissexual e muito menos o que era trans, evidenciando que esse despreparo afeta diretamente o acesso a direitos básicos, como saúde e educação. 

Jorge: a tensão do afeto masculino

Para homens gays, como Eduardo Jorge, as dificuldades se concentram na esfera dos relacionamentos afetivos, na liberdade de andar na rua sem medo e na necessidade de ser visto além da sua sexualidade. O medo se manifesta sutilmente, mas de forma constante, nos espaços públicos.“Eu sou uma pessoa que se expressa demais, mas às vezes tem locais que a gente, infelizmente, não consegue se expressar tanto assim”, expõe.

A preocupação não se limita à agressão física, mas ao olhar julgador e às piadas que geram receio. “É muito difícil você ter um espaço seguro onde você possa ficar com a pessoa que você gosta sem ficar olhando para os lados e ver se vai ter uma pessoa homofóbica ali te olhando de um jeito horrível e ruim”, desabafa. Essa constante vigilância é uma herança de tempos mais duros e cruéis, mas que se manifesta ainda hoje.

Eduardo Jorge e Luca Araújo, acadêmicos de Jornalismo na Universidade Federal do Maranhão. Foto: Acervo Pessoal

Ouça o relato de Eduardo Jorge sobre a ausência de movimentação LGBTQIAP+ em Imperatriz fora do mês de junho:

A pressão de não estar “Em cima do muro”

A comunidade bissexual lida com a dificuldade única da invalidação da sexualidade. Muitas vezes, Maria Luiza Cruz, jovem de 19 anos, ouve que está “em cima do muro” ou que deixa de fazer parte da comunidade se estiver em um relacionamento com alguém do sexo oposto.

Em uma pesquisa de campo, algumas pessoas bissexuais, que preferem não se identificar, em Imperatriz relatam que, por não serem “visivelmente LGBTQIAPN+” ou por não serem assumidas, enfrentam menos dificuldades no cotidiano e se sentem mais seguras em espaços públicos.

No entanto, esta “passagem”, tem um preço: o medo de se assumir para amigos e parentes e a insegurança em comentar a própria sexualidade em ambientes como o de trabalho. “Nunca me rejeitaram por isso. Mas eu sempre tive muito receio, dentro das poucas empresas que eu trabalhei, de comentar a minha sexualidade. Porque eu realmente não sei como os meus colegas de trabalho vão reagir a isso”, relatou Maria Luiza.

França: autocensura e pertencimento

França Bahia Lima, 22 anos, relatou que quando está em casal, evita carinhos e se mantém atenta, escolhendo a autocensura para se proteger. O medo de reações agressivas é, muitas vezes, maior do que a vontade de demonstrar afeto, medo esse que não só se restringe ao estar em público mas também para denunciar. “Além da insegurança, que não é documentada, a gente não tem uma polícia, os casos de homofobia e preconceitos no geral com a comunidade, não é denunciado em lugar nenhum, porque a gente não vai na delegacia por medo de sofrer mais preconceitos.”, expõe.

Sua trajetória foi marcada por decisões tomadas ainda muito jovem, fortemente influenciadas pelo ambiente familiar, especialmente pela relação com a mãe, e a união estável precoce surgiu, em sua vida, como uma consequência direta desse contexto, mais ligado à tentativa de escapar de conflitos e opressões, a saída de casa pareceu, desde cedo, uma alternativa possível para reduzir o sofrimento. “Eu casei com 17, então, temos esse problema, porque o homossexual ele sai de casa muito cedo pra não sofrer tanta violência. E no meu caso de violência, eu sofri muito, eu fui espancada quando eu era adolescente”, relembra a estudante, evidenciando como a violência física e emocional esteve presente desde a infância e ajudou a moldar escolhas feitas sob pressão e medo.

Violências como essas também estiveram presentes em estigmas relacionados a sua saúde desde cedo, pois sua mãe a fazia realizar testes de HIV a cada três meses, baseada na crença de que homossexuais tinham “tendências a ter AIDS”. Mesmo em postos de saúde, mulheres lésbicas são frequentemente questionadas sobre o uso de anticoncepcionais, exigindo que justifiquem sua orientação sexual repetidamente, cenário que também já atravessou as vivências de França.

Ouça o relato de França Lima sobre como a homofobia a levou a sair de casa aos 17 anos, e como esse caminho ainda é uma saída para muitas meninas LGBTQIAPN+: 

Um palco de Repressão e Esperança

A dor de cada um, seja ela o medo de ser assassinado, o julgamento no olhar alheio, a exclusão na roda de amigos ou a invalidação da sexualidade, faz parte de uma história coletiva que clama por respeito e visibilidade. A luta de Luca, Jorge, Maria Luiza e França, e de tantos outros, é a prova de que a coragem de ser é, em si, um ato revolucionário em Imperatriz.

Narrativas tão jovens, torna preocupante o olhar sobre o envelhecimento da comunidade LGBTQIAPN+ na cidade. O amadurecimento dessa comunidade só será digno se a geração atual entender que a liberdade conquistada é uma herança que deve ser continuamente defendida, pois a coragem de existir em Imperatriz, seja no ato de ser vista de mãos dadas com outra mulher, na luta por validação, busca por respeito ou na afirmação da identidade trans, é um lembrete de que a batalha por direitos e humanização está longe do fim, porque, por mais dura que seja essa luta, ela serve como alicerce para um futuro onde ninguém precise temer ser quem é.

Produto desenvolvido por acadêmicos do curso de jornalismo da UFMA/Imperatriz na disciplina de Leitura e produção textual II, coordenado pela professora Camila Rodrigues Viana, e publicado no site Região Tocantina, editado pelo professor Marcos Fábio Belo Matos e diagramado por Eduardo Jorge. 

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