sábado, 15 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #070 – Questão de consciência (Heridan Guterres)

Publicado em 9 de maio de 2026, às 9:38

Naquele 20 de novembro, mesmo tendo o dia amanhecido cinza, com nuvens escuras que sobrevoavam o céu da cidade, ela levantou cheia de energia e por que não dizer alegria, por saber que aquele seria um dia especial.


Desde a véspera, escolhera um vestido tomara que caia verde, vermelho e preto, tênis all star branco. Nos cabelos colocaria uma flor amarela grande, presa por um grampo a suas fartas madeixas cacheadas.
Tomou banho, passou creme no corpo e começou a se vestir. Feito isso, um toque de pó compacto, finalizando a make com um batom ultra vermelho.


A barriga em jejum roncou e ela, de tão ansiosa, optou por tomar apenas um gole morno do café que ficara sobre a mesa, na velha garrafa que já não mais permitia que o líquido continuasse quente por muito tempo.


Bebeu o café em pequenos goles, enquanto lembrava os preparativos para a data, feitos por ela e o grupo de pesquisa do qual fazia parte.


Pretendiam fazer um estardalhaço na pracinha que ladeava a faculdade, como forma de lembrar de todas as atrocidades feitas contra o povo negro. Todas! Indistintamente; as dali da pequena cidade onde morava, mas também de outras que, mostradas diariamente, na televisão ou nas redes sociais, atingiam e feriam todo mundo, fazendo com que a dor de um fosse de todos.


Já ia saindo de casa, quando lembrou do cartaz, feito à mão, que ia ficando esquecido, sobre o sofá.
Nele, em letras graúdas e cuidadosamente escritos, em negrito, os dizeres: “Porque consciência negra é todo dia! Não ao extermínio da população negra!”


Para causar ainda mais, decidiu sair com o cartaz aberto. E assim o fez. Consciente de sua beleza e presença marcante, atravessou ruas e avenidas, cartaz em punho. Ao olhar mais para cima, pôde avistar os outros colegas que já se juntavam para iniciarem o ato!


Haviam escolhido aquele horário, quando professores e estudantes chegariam para as aulas. Quando adentrassem a instituição seriam surpreendidos pelo grupo que trazia nas mãos nomes de mártires de antes e de agora. Pessoas negras, vítimas de toda sorte de atrocidade!


Correndo atravessou a rua e quando já estava prestes a colocar os pés na pracinha, a BMW surgiu, enfurecida, cantando pneus e jogando para cima da menina que mal pôde conter o grito de horror, ante o reconhecimento de carro e motorista. Em segundos, o filme lhe passou à cabeça.


O playboy mais cretino da faculdade, o filhinho de papai que se achava o “comedor” e que não aceitava negativas das meninas, estava ao volante.


Odiava aquela pretinha bonita que o recusou e humilhou, dando um sonoro “não” ao convite para um rolê. Havia planejado tudo.


Ia levá-la para uma volta, dar uma bebida e depois ia comê-la e descartá-la como o lixo que achava que ela era e todas as outras meninas iguais a ela.


Não conseguiu seu intento porque a nojenta, filha da puta, o tinha rejeitado na frente de todos!


Desse dia em diante, seu ódio triplicara, assim como o desejo de comer aquela escrota. Mas tudo que ela fez foi lhe dizer não, o desmoralizando. Ao avistá-la atravessando a rua, rumo à pracinha, decidiu.


Pensando nisso, enfiou o pé no acelerador, avançando de um jeito que ela não conseguiu fugir. O carro a acertou em cheio, jogando seu corpo para o alto como bola na cabeça do zagueiro.


Ainda conseguiu contemplar o bailado do corpo no ar. Ela conseguia ser bonita e tinhosa até em um momento como aquele. Braços, pernas e cabelos fazendo uma coreografia no espaço.


Não gritou. Parecia rir mais uma vez da cara dele. Caiu, segurando o cartaz com os dizeres: “Porque consciência negra é todo dia! Não ao extermínio da população negra!”


Voltando a si, meteu o pé no acelerador e fugiu, cantando pneus, enquanto colegas e professores corriam para amparar a negra linda e altiva; a ativista social que acreditava que o mundo seria melhor quando as pessoas tivessem na mente que a igualdade era questão de respeito e consciência.


Mas isso estava longe de acontecer. O último pensamento dela foi: “Podem até atentar contra nossas vidas, mas jamais tirarão de nós o riso e o desejo de lutar!”

SOBRE A AUTORA – HERIDAN DE JESUS GUTERRES PAVAO FERREIRA é residente no Quilombo Liberdade, entrelaça sua trajetória acadêmica e literária às memórias, raízes e vozes da Baixada Maranhense, território de onde brotam histórias e casos que alimentam sua escrita.Doutora em Informática na Educação pela UFRGS e mestra em Letras pela UEMA, é professora efetiva da UFMA e membra da Academia Maranhense de Ciências. Sua atividade profissional concentra-se na formação de professores e nos estudos da linguagem, com interesse pela memória, ancestralidade, cultura popular, identidades negras e ensino de língua portuguesa como L2 para surdos.Escritora e compositora, foi premiada com o Prêmio Viriato Corrêa, na categoria literatura infantojuvenil. Sua produção nasce do encontro entre oralidade, território quilombola, formação acadêmica e memória afro-maranhense.

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