sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Série Memória Imperatriz #02 – Passado e presente: as memórias das jornalistas de rádio e TV na Região Nordeste (Roseane Arcanjo Pinheiro)

Publicado em 25 de abril de 2026, às 9:09

Como as jornalistas de rádio e TV (Maranhão, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas), formadas nos anos 90, enfrentaram os desafios da profissão? Essa pergunta norteou a minha pesquisa de pós-doutorado (2023-2024), realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O período delimitado, com início na era da internet, foi escolhido porque gerou mudanças no jornalismo e na sociedade. No Maranhão, foram ouvidas jornalistas de Imperatriz e São Luís.


Para preservar a identidade das entrevistadas, elas foram identificadas com iniciais de mulheres que lutaram historicamente pelos direitos femininos: Dandara dos Palmares, Clara Camarão, Luiza Mahin, Nísia Floresta, Patrícia Galvão, Leolinda Figueiredo, Bertha Lutz, Leila Diniz e Therezinha Zerbini.


Halbwachs (2013) explica que a memória individual é constituída nas conjunturas sociais, onde são validadas pelas lembranças compartilhadas. Também durante os relatos, as comunicadoras trazem uma “apresentação estruturante”, em que relacionam suas perspectivas sobre as tensões e conquistas. Conforme Charaudeau (2010, p.143), o ato de comunicar reforça vínculos sociais, neles nos colocarmos em relação ao outro, ação necessária para a apreensão da vida e seus desafios.

Trajetórias – Dandara (nome fictício) lembra que precisou superar uma dificuldade pessoal. “Eu pensava: ‘não vou conseguir’. Sempre me preparo para não conseguir, mesmo que no fundo eu acredite”, afirma. As dúvidas de Dandara nos remetem à imagem que construímos de nós mesmas, que é tecida socialmente. À mulher geralmente se associou a fragilidade e a debilidade, imagens questionadas pela crítica feminista. Dandara, que desejava ser mais que esposa e mãe, navegou por um ambiente desejado, a universidade pública e o Curso de Jornalismo, que concluiu posteriormente com muito esforço.


Já as lembranças da infância e da adolescência moveram Nísia (nome fictício), por exemplo, a optar pelo curso de Jornalismo. Uma das razões, conta a jornalista, foi a vivência ao lado da avó, uma liderança comunitária, que a inspirou a lidar com pessoas, a ouvir experiências. Nísia aprendeu a valorizar a vivência coletiva e a debater questões sobre cidadania.


Se, para Nísia, o jornalismo foi uma escolha pessoal, no entanto, para Leila (nome fictício), a formação superior foi uma exigência da empresa de comunicação na qual trabalhava. Fazer o curso não foi fácil, em função de outra demanda: criar as duas filhas pequenas. Teve que faltar algumas vezes às aulas, porque uma delas havia adoecido. Outras dificuldades foram os finais de semana, com plantões e a falta de tempo para a família.

Enfrentamentos – Leolinda (nome fictício) lidou com a resistência do pai, que questionou a escolha do curso, como se ela não tivesse condições de iniciar a carreira sem o apoio de uma pessoa com poder, geralmente um homem, para alçá-la a um posto melhor na profissão. Ao reafirmar a opção pelo Jornalismo, a comunicadora conquistou experiências marcantes na universidade, como participar do movimento estudantil. Podemos chamar esse ato de “coragem de transgredir”, de não se sujeitar ao papel determinado socialmente e assumir escolhas desejadas e ousadas (HOOKS, 2013, p.36).


Por sua vez, Therezinha (nome fictício) recorda que, no começo da carreira, durante as reportagens de polícia e política, costumava ir “muito vestida”, “com cabelos presos, blazer ou camisas de mangas compridas”. Essas áreas, além de esporte, ainda são vistas como “redutos masculinos”, porém muitas repórteres já trabalham nelas, mesmo sendo atacadas, como beijos forçados e corpos tocados sem permissão, como mostram imagem na TV e na internet.


As comunicadoras de rádio e de TV fazem gravações nas ruas, quando seus rostos, vozes e corpos ficam conhecidos. Bertha (nome fictício) enfrentou há mais dez anos uma situação de assédio e ameaça de morte. A violência contra Bertha envolveu um profissional da mesma área, que iniciou o contato com a repórter através de e-mail institucional. Simulou que tinha interesse em enviar sugestões para os telejornais. Mas, ao longo do tempo, mudou o tom e abordou questões íntimas: “Então, comecei a cortar e cortar”, afirma a jornalista, que reagiu às posturas equivocadas. Não convencido, o criminoso foi ao local de trabalho da vítima.


Bertha começou a se sentir perseguida e chegou a ficar dias sem trabalhar. A violência se estendeu com ameaças e falsas informações à chefia, à família e colegas de trabalho. Segundo Amorim (2021), é difícil para as profissionais denunciarem os casos. Geralmente estão subordinadas a figuras masculinas, que têm dificuldade de intervir nas situações. Felizmente não foi o caso de Bertha. O autor da violência foi processado com apoio do setor jurídico da empresa.

Referências
AMORIM, Janaína Lopes O corpo está no contrato: estudo sobre as ocorrências de assédio sexual contra mulheres jornalistas nas redações de Imperatriz-MA. Dissertação (mestrado acadêmico) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade Federal do Maranhão, Centro de Ciências de Imperatriz, 2021.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2010.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Ed. Centauro, 2013.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

{Créditos das imagens:
Imagem de Roseane Pinheiro: Ana Celma de Arruda Martins
Imagem das mãos com microfones: Gerada por Meta IA}

SOBRE A AUTORA – Roseane Arcanjo Pinheiro – É presidenta do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz-MA – IHGI (2025-2027). É professora do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão – Campus Imperatriz desde 2008. Com pós-doutorado em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutora em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestre em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo. É Coordenadora do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Mídia e Memória (JOIMP). Integrante do Grupo de Pesquisa e Criação em Comunicação Audiovisual, Culturas e Artes (GPCOM). Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas.

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