quarta-feira, 9 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #069 – UM RAIO NA FAMÍLIA (Domingos Almeida)

Publicado em 19 de abril de 2026, às 10:30

Hoje era para ser um dia especial em nossa família, e até certo ponto foi, mas aconteceu algo que deixou todo mundo estarrecido e ainda não entendemos direito. Meu tio Alfredo convidou a família para um almoço na casa dele para a gente se despedir do meu primo José, cinco anos mais velho que eu, que vai estudar fora do país. Na verdade, ele é primo do meu pai, e pela lógica somos primos também. Ontem à noite choveu muito, e a casa do meu tio está a alguns metros da linha de transmissão da Companhia de Energia, em um bairro que ainda está se formando.

Tem poucas casas, no entanto, sobra lama de um barro avermelhado que gruda nos sapatos, chinelos e mancha fácil a roupa. Quando cheguei já estavam acomodados no quintal, embaixo de uma latada coberta de lona preta. Alguns parentes não compareceram. Meu primo estava sentado junto ao grupo, parecia meio deslocado. Tinha um olhar distraído, semblante acanhado, com as mãos contraídas contra as pernas. Cumprimentei-o apertando sua mão. Ele deu um tímido sorriso, o suficiente para revelar o aparelho que ele usa nos dentes. Eu também uso. É a segunda vez que o vejo. Mas dessa vez ele estava muito diferente: cabelo grande, crespo, usava óculos, pele mais retinta, parecia mais forte também.

Chegou a hora de almoçar, dentre as opções tinha arroz, feijão, carne assada, cozidão, peixe assado e cozido, salada e molho de pimenta. Depois que comemos a esposa do tio Alfredo serviu refrigerante de limão e Jesus, cerveja em latas e Brazlowa. Eu não bebo. Percebi que José também não. Nem refrigerante. A tarde seguia tranquila com as crianças brincando na terra do tio fazer massa de cimento, ao pé da parede, sob protestos e ameaças de suas mães, conversas jogadas fora entre um gole e outro de bebida; histórias engraçadas e muitos risos.

Hora ou outra envolviam meu primo nas conversas, ele reagia respondendo o básico, ou com um sorrisinho contido. Alguns, como eu, mexiam no celular, quando, de repente, a tela do meu começou falhar, levantei a cabeça e percebi que a farinha do prato de carne flutuava e a faca parecia caminhar sobre a mesinha, como se o chão estivesse tremendo. As pessoas falavam em câmera lenta, eu ouvia o eco de suas palavras. Num instante, um forte grito interrompeu aquela sensação esquisita:

– Pietro, sai daí agora. Se eu for aí vou te rachar bem no meio – gritou a esposa do meu tio, irmão do meu pai, ameaçando seu filho que brincava na torneira, desperdiçando água.

Notei que as outras pessoas não perceberam o que aconteceu, exceto o José, que estava ofegante e assustado. Trocamos alguns olhares sem entender nada do que acontecia. Ele levantou, entrou em casa, deixando o chinelo do lado de fora, tomou um copo de água, retornou e mudou a cadeira de lugar, ficando à sombra do pé de macaxeira, do lado de fora da latada. Estávamos com medo. Trocamos muitos outros olhares tentando encontrar explicações um no outro.

O desconforto nele era visível. A esposa do tio Alfredo percebeu e chegou a perguntar se ele não queria descansar. A resposta foi negativa. Cheguei a acreditar que era insanidade da minha cabeça, mas como poderia ser, se meu primo também havia percebido? Meia hora se passou, quando, no exato momento em que o tio Alfredo servia mais uma rodada de bebidas, começamos a sentir um ruído forte no ouvido, dessa vez todos sentiram, exceto as crianças.

De pronto olhei para o José, que era o mais afetado. Estava completamente paralisado, os ouvidos sangravam e lágrimas escorriam de seus olhos. Foi então que vimos um forte clarão, acompanhado de um estalo ensurdecedor. O raio atingiu em cheio meu primo. Uma onda de choque jogou todos no chão, nos deixando completamente surdos por alguns instantes. As plantações do quintal, de macaxeira, cuxá, pimenta, feijão e pepino também foram atingidas pelo raio e pegaram fogo. José ficou coberto de uma luz incandescente e começou a flutuar.

De seus olhos saía um fogo azul assustador. Do corpo saíam vários pequenos raios que tocavam o chão. Ele olhava diretamente para mim como se quisesse me dizer algo, seu rosto pedia socorro. Senti uma ligação inexplicável, pude compartilhar por alguns instantes das emoções dele, que eram de muito medo, conseguia sentir seu coração. Mas mal conseguia me mexer no chão. Só pude abrir a câmera do celular e filmar alguns preciosos segundos.

Após dar-me aquele olhar doloroso, a luz se intensificou e, quando apagou, ele tinha desaparecido. Todos estavam aos prantos sem entender nada. Às pressas, juntaram suas coisas e foram embora. Meu tio Alfredo ainda procurou por José no quintal e nas proximidades. Ele está desolado. Eu estou aqui, olhando o vídeo sem saber o que fazer com ele. Estou muito confuso, e, para completar, acabei de ver no noticiário da televisão que um super-raio foi registrado em São Paulo pela primeira vez na história. Sinto uma angústia no peito e muita vontade de chorar.

SOBRE O AUTOR – Domingos de Almeida é ator, diretor de teatro, jornalista e escritor. Natural de Alto Alegre do Pindaré – MA, reside em Imperatriz desde 2011. Possui Mestrado em Integração Contemporânea da América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e Doutorado em Mídia e Cotidiano na Universidade Federal Fluminense (UFF). É membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), Professor do Curso de Jornalismo e do Mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – Campus Imperatriz. Publicou 07 livros, entre eles, “Xica do Sertão de Terra e Puaca”, reconhecido com o Prêmio Literário da Academia Imperatrizense Letras (AIL-2021). Atualmente, coordena o Grupo de Pesquisa e Criação em Comunicação Audiovisual, Culturas e Artes (GPCOM) e o Projeto de Extensão Mostra Afro de Artes Cênicas (MARCAS).

Uma resposta

  1. …. Que história impactante! Meu corpo inteiro leu, sentiu, re-agiu… Um texto impecável, direto, sem rodeios. Aquela sensação descons(c)ertante, abalável.
    Dom, és um artista múltiplo, do papel aos palcos.

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