O escritor e professor José Neres, um dos maiores especialistas em Literatura Maranhense, faz um balanço, nesta entrevista, da trajetória da nossa literatura, analisando o seu passado de glórias, avaliando as produções recentes e apontando caminhos para o papel dela no século XXI. José Neres é autor de diversas obras, nos mais distintos gêneros, e membro da Academia Maranhense de Letras (AML) e da Sobrames-MA.
Caderno Extra – Como você localiza, no panorama literário nacional, a literatura maranhense?
José Neres – As letras produzidas no Maranhão ou por autores nascidos no Maranhão sempre tiveram um lugar de destaque na literatura brasileira. Alguns autores sempre merecerem um destaque especial. Basta observar que todo e qualquer estudante do Ensino Médio já teve ou terá alguma aula sobre Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo, Raimundo Correia e já ouviram pelo menos citação de nomes como Graça Aranha, Maria Firmina dos Reis e Ferreira Gullar e de outros autores que quase sempre estão nas páginas dos livros didáticos.
Tivemos uma profusão de autores que produziram (e produzem) obras de excelente qualidade. Não se pode, por exemplo, falar em Romantismo no Brasil sem pelos menos tocar no nome e na obra poética de Gonçalves Dias e, atualmente, também no de Maria Firmina dos Reis. No caso do teatro realista, Artur Azevedo é uma figura essencial, bem como Teófilo Dias e Raimundo Correia, que tiveram presença marcante no movimento parnasiano. Nas últimas décadas, a obra de Maranhão Sobrinho tem conquistado grande relevância no Simbolismo. No chamado Pré-Modernismo e momentos iniciais do Modernismo os nomes de Coelho Neto, Graça Aranha, Catulo da Paixão Cearense, Humberto de Campos e Viriato Corrêa eram reconhecidos e cultuados em todo o Brasil.
Porém é preciso também lembrar que nossa educação tem passado por muitos momentos de crise e que nem sempre os estudos literários têm o merecido espaço em nossas escolas. Para muitos alunos (e até para alguns professores), a aula de literatura é apenas um momento chato em que autores e obras são elencados de forma quase mecânica e isso, sem dúvida, tem seus reflexos na divulgação das letras e não apenas das maranhenses, mas da língua portuguesa como um todo.
Caderno Extra – Se você puder caracterizar, quais os elementos que individualizam a literatura feita no Maranhão?
José Neres – A Literatura Maranhense tem algumas peculiaridades que são interessantes. Uma delas é o apego à própria terra, uma espécie de telurismo às vezes exacerbado. Para constatar isso, basta observar a quantidade de títulos com arquitetura poética e/ou narrativa ambientada no Maranhão. Josué Montello chegou inclusive elaborar todo um conjunto de livros com temática maranhense. Mesmo às vezes não estando na terra natal, os autores acabam fazendo alusões ao Maranhão, seja pela ambientação, seja pelas personagens criadas. Como ocorreu com Aluísio Azevedo em Casa de Pensão ou com Ferreira Gullar em seu Poema Sujo. Isso pode passar para alguns leitores de fora uma sensação de que vivemos em um eterno looping regionalista, o que não condiz com a realidade.
Outra característica que atualmente vem sendo revista é a ênfase dos autores em retratar a capital do Estado, como se o Maranhão fosse apenas São Luís. Porém, aos poucos, isso vem sendo modificado, principalmente com o surgimento de escritores em diversas cidades que têm construído uma obra de boa qualidade e com valorização das cores, dos tons e das vozes locais.

Caderno Extra – A literatura maranhense tem uma grande tradição clássica, com o epíteto da Athenas Brasileira soando forte. Hoje, podemos dizer que este lugar literário ainda é válido?
José Neres – Esse epíteto, possivelmente, foi responsável por duas situações paradoxais. De um lado, ele acabou projetando o nome do Maranhão para todo o Brasil, tanto pela qualidade e quantidade dos escritores que aqui surgiam quanto pela projeção deles no âmbito nacional a partir de trabalhos críticos de estudiosos como José Veríssimo e Sílvio Romero, que dedicaram diversas páginas de seus livros para comentar textos e autores maranhenses.
Por outro lado, essa ideia de que vivíamos em uma Athenas fez com que diversas gerações passassem a acreditar que aquele era o único caminho dentro de nossa literatura, passando a renegar (ou pelo menor refrear) as inovações estéticas que surgiam em diversas partes do Brasil e do mundo. Então a sensação saudosista de viver em uma Athenas acabou implicando consequências positivas, mas também negativas para o Maranhão.
Caderno Extra – E, falando em Athenas Brasileira, para quem não conhece, quais os grandes nomes clássicos da literatura maranhense?
José Neres – Conforme foi dito anteriormente, houve alguns momentos de nossa história literária em que os autores maranhenses foram vistos como figuras capitais das letras brasileiras. Alguns deles foram glorificados em vida, como é o caso de Gonçalves Dias; outros, no entanto, só tiveram o justo reconhecimento muito tempo depois do falecimento, como ocorreu com Maria Firmina dos Reis e com Maranhão Sobrinho.
Há também casos de escritores que foram idolatrados em determinados momentos, mas que depois passaram a ser estudados apenas por pesquisadores que se debruçam sobre algumas especificidades históricas e literárias. Esse é o caso do extraordinário pensador e jornalista João Lisboa, do professor e gramático Sotero dos Reis e do poeta Trajano Galvão.
Em termos de projeção nacional, tivemos também a produção literária dos irmãos Artur e Aluísio Azevedo, do poeta Raimundo Correia, dos prosadores Coelho Neto, Humberto de Campos, Viriato Corrêa, João Mohana, Josué Montello e dos poetas Ferreira Gullar, Nauro Machado e José Chagas, sendo que este último, apesar de não haver nascido no Maranhão, é dos nomes relevantes de nossa literatura.


Caderno Extra – Quem se destaca, hoje, na literatura do Maranhão?
José Neres – Essa é uma pergunta extremamente difícil, pois a resposta estará sempre sob o risco de esquecimentos e de omissões. Mas não se pode negar a penetração da poesia de Salgado Maranhão nas diversas esferas da cultura brasileira. Um nome que, mesmo uma década após seu falecimento ainda vem despertando muito interesse, é o de Nauro Machado, cujas obras inéditas foram sendo paulatinamente publicadas por sua esposa, a escritora e professora Arlete Nogueira.
Mais recentemente, alguns escritores têm se destacado tanto no cenário local quanto no nacional. Cito aqui alguns nomes com a certeza de que existem muitos outros: Sharlene Serra, Paulo Rodrigues, Luiza Cantanhêde, Bioque Mesito, Dyl Pires, Fernando Abreu, Samuel Marinho, Lenita Estrela de Sá, Seane Melo, Lilia Maia, Natan Campos, Marcos Fábio Belo Matos, Nonato Reis, José Ewerton Neto, Ronaldo Costa Fernandes, Daniel Blume, Sonia Almeida, Paulo Melo Sousa, Arlete Nogueira da Cruz, Félix Alberto Lima, Mhario Lincoln, Samarone Marinho, Sanatiel Pereira, Mario Luna Filho, Bruno Azevêdo, Eloy Melônio, Raimunda Frazão, Lourival Serejo, Joizacawpy Costa, José Carlos Sanches, Geraldo Iensen, Weliton Carvalho, Bruno Tomé, Adonay Moreira, Ana Luiza Almeira Ferro, Dilercy Adler, Samira Fonseca, Iramir Araújo, Linda Barros, Joaquim Haickel, Maura Luza Frazão, Dino Cavalcante, Kissyan Castro, Antonio Ailton, Silvana Meneses, José Carlos Gonçalves, Gabriela Lages Veloso, Eliane Morais, José Maria Nascimento, Laura Amélia Damous, Lindevania Martins, Neurivan Sousa, Rafael Oliveira, Rita de Cássia Oliveira, Vinícius Bogéa, Wílson Marques, Wilson Martins, Anna Liz Ribeiro, Marcelo Chalvinski, Cláudio Terças, Hagamenon de Jesus, Wanda Cunha, Herbert de Jesus Sousa, Morano Portela, Rute Ferreira, Tânia Rego, Sebastião Ribeiro, César William, Josoaldo Rego… a lista é enorme e sempre será incompleta.
Não posso deixar de citar alguns escritores que estavam no auge de sua produção quando foram colhidos pelo destino: Carvalho Junior, Rosemary Rego, Viriato Gaspar e Fernando Braga.
Todos esses escritores e muitos dos que não foram citados (por falha de memória e por disponibilidade de espaço gráfico), cada qual a seu modo, contribuem para que nossa literatura tenha visibilidade e merecem todos os aplausos
Caderno Extra – Na sua opinião, por que a literatura maranhense não tem, hoje, o mesmo destaque que teve no século XIX?
José Neres – Em uma sociedade que valoriza a não-leitura fica até difícil de falar em destaque literário. Por outro lado, vivemos em uma era em que as facilidades de comunicação e de divulgação de textos permitem que os trabalhos literários ultrapassem as barreiras do tempo e do espaço. Mas parece que não há uma vontade de pesquisar os autores contemporâneos. Estudiosos como Carlos Cunha, Clóvis Ramos, Mário Martins Meireles e Jomar Moraes fazem muita falta.
É difícil compreender como escritores talentosos como Laura Rosa, Dagmar Destêrro, Conceição Aboud, Manuel Caetano Bandeira de Melo, Nascimento Morais Filho, Fernando Moreira, Aldo Leite, Manuel Lopes e Ubiratan Teixeira tenham caído no esquecimento diante de tantas possibilidades de pesquisa.
Respondendo à pergunta, creio que o que acaba unindo os séculos XIX, XX e XXI seja o descaso para com nossa literatura, infelizmente.
Caderno Extra – A literatura maranhense, feita hoje em dia, é mais representativa na prosa ou na poesia?
José Neres – O Maranhão tem uma grande vocação para a Poesia, porém seus prosadores também são bastante talentosos. Mas, pelo menos, na última década, o grande destaque tem sido a produção de textos voltados para o público infanto-juvenil. Muitos escritores estão publicando nesse gênero e as obras demonstram grande qualidade técnica, com temas, textos e gravuras que estimulam o interesse da nova geração pelos livros de autores regionais.
Caderno Extra – Para você, por quais caminhos a literatura maranhense vai seguir, neste século XXI?
José Neres – É difícil assegurar algo acerca da literatura. Mas posso dizer o que eu gostaria que acontecesse. Gostaria muito que houvesse mais divulgação de nossos autores. É incrível o trabalho feito pelo Mhario Lincoln com o Portal Facetubes, algo gigantesco e que merece aplausos. As iniciativas do Marcos Fábio Belo Matos de publicar tanto autores iniciantes quanto os já renomados nas páginas de jornal é digno de uma premiação. Sempre imagino a emoção do jovem escritor ao abrir o jornal ou a página da internet e ali encontrar seu texto. É uma experiência inefável!
Gostaria de ver também mais inciativas como as que são gerenciadas pelo José Viegas e pala Cleo Rolim, quem mantêm um espaço reservado, no coração de um Shopping, para a divulgação dos autores maranhenses.
Quaisquer que sejam os caminhos de nossa literatura no século XXI, espero que eles sejam repletos de bons textos e de boas iniciativas.