terça-feira, 11 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #061 – COR ÚNICA? (Bárbara Lima Alves dos Santos)

Publicado em 1 de fevereiro de 2026, às 9:30

— Kamari Moyo, acorde logo! — Diz minha mãe dando três toques na porta —, ou caso contrário chegará atrasada para a escola. — Alerta, girando a maçaneta e vendo-me ainda de pijama com os cabelos crespos soltos e espalhados pelos travesseiros macios e sedosos.
— Pelos meus ancestrais! O que ainda está fazendo nessa cama? — Questiona com as pupilas dilatadas.
— Isabel. — Digo, sem abrir os olhos para encarar os seus raivosos.
— O que? — Junta as sobrancelhas.
— Quero que me chame de Isabel e não mais de Kamari. — Colocou o travesseiro no rosto dispensando o sermão de sua mãe.
Marjani olha, de relance, para a penteadeira da filha e encontra uma chapinha, recém usada, no local. De novo, volta a olhar para ela deitada a sua frente só que, desta vez, deixando a raiva de lado e a observando com um olhar desconfiado.
— Desde quando você quer ter o cabelo liso? — Pergunta, cruzando os braços e vendo a filha erguer os braços se espreguiçando.
Logo em seguida, deu de ombros.
— É mais bonito. — Sentou na cama, encarando a mãe cara a cara.
— Não existe cabelo mais bonito do que o outro, filha. Só existem cabelos. — Argumenta, sentando ao seu lado na cama. — Mas pensei que gostasse do seu cabelo como ele é. Por que isso agora?
Kamari suspirou pesado.
— Mãe, existe uma cor certa? — Olhou para a mãe em busca de uma resposta.
Suas palavras foram como um balde de água fria jogada no rosto de Marjani. Por segundos, ela ficou em êxtase. Não conseguia formular uma palavra sequer. Até que, enfim, voltou à realidade naquele quarto com a sua filha.
— Do que está falando, querida? — Deposita a mão em seu ombro.
— Não conheço ninguém com o cabelo igual ao meu aqui e tampouco com a minha pele escura. Todas as atrizes, modelos, bonecas, entre outras, são loiras, têm olhos azuis e são brancas. Na minha escola, quando digo que sou africana, as crianças me olham com pena, pois dizem que sou pobre. Outras com desprezo, porque dizem que sou uma feiticeira. — Abaixou a cabeça, olhando para as mãos, mas sua mente vagava muito além disso.
Seu quarto estava repleto de posts, notou sua mãe, mas nenhum deles tinha um homem africano. Suas músicas eram clássicas da América. As mulheres: brancas e loiras. Cabelo liso e nenhum crespo. A sua identidade era vista como alguém de baixa renda ou marginal e isso estava afetando Kamari a tal ponto de ela não aceitar a sua originalidade.
Kamari prosseguiu:
— Jesus é branco de olhos azuis. Papai Noel é branco de olhos azuis. Santa Maria é branca de olhos azuis. Elon Musk é branco de olhos azuis. Barbie é branca de olhos azuis. Michael Jackson é branco. As pessoas mais ricas e importantes do mundo são brancas. Mas eu não sou, então isso quer dizer…— Procurou as palavras —…Às vezes, eu sinto que não sou importante o suficiente… que o que sou não é aceito. As pessoas fazem comentários que me machucam. Por que nossa origem é tão atacada?
Kamari desabou nos braços da mãe e começou a chorar.
— Em primeiro lugar, isso não é verdade, querida, você é muito importante. — Segurou as maçãs de seu rosto, beijando o topo de sua cabeça carinhosamente — Em segundo lugar, isso acontece, minha filha, porque muitas pessoas ainda não compreendem a riqueza que carregamos em nossa pele, em nosso cabelo, na nossa cultura. Elas têm medo do que é diferente. Mas nós, africanos e afrodescendentes, temos uma história de resistência, de criatividade e de originalidade que ninguém pode tirar de nós. Assim como nós, outros têm a sua própria.
— E onde estão o paraíso das outras histórias? Por que ninguém as conhece?
— Estão escondidas nas histórias não contadas, mas que existem e resistem. Elas surgem quando reconhecemos que não há uma única verdade ou perspectiva, mas sim um vasto universo de relatos que formam quem somos como humanidade. Mas as pessoas são ignorantes demais para saberem disso, meu bem, elas acreditam apenas no que restou daqueles que colonizaram os nossos ancestrais. — Conta, mexendo nos cabelos salientes da filha.
— Isso não é justo — pondera Kamari — Não faz sentido. Todas as histórias deveriam ser ouvidas, não é?
Sua mãe sorri fraco.
— Sim, deveriam. Mas, quem controla a narrativa também controla a forma como vemos o mundo. Quando ouvimos só uma história, ela pode nos fazer acreditar que aquela é a única verdade. E isso cria preconceitos e estereótipos. O “paraíso das outras histórias” que você pergunta está justamente em dar voz a essas histórias esquecidas ou silenciadas, em reconhecer que existe mais de uma versão para cada realidade. — Novamente, fica de frente à filha massageando suas mãos — É por isso que você é importante e não pode deixar que os comentários maldosos façam com que esqueça quem é você e a sua identidade.
— Entende, mamãe. Desculpa — Diz, abraçando Marjani com muita força.
— Sem problemas, querida. Essa é uma fase que eu já esperava — Retribuiu o abraço carinhoso — Mais uma coisa, querida.
— O quê?
— Você está atrasada para ir à escola.

SOBRE A AUTORA – Bárbara Lima Alves dos Santos, conhecida pelas suas histórias como BLADS DJEV. Desde de 2020, época da pandemia, conforme ficava em casa olhando para o teto, percebeu que gostava de imaginar como seria em outra vida. Com isso, começou a imaginar várias e várias personagens em diferentes personalidades e diferentes contextos. Em seguida, começou a escrever todas as ideias e, a partir disso, não conseguiu mais parar. Desde então, vem escrevendo contos atrás de contos. Ingressou no curso de Letras – Literatura da UEMA – Bacabal com o intuito de alcançar o que almeja: uma autoria sua a ser publicada.

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