Após uma longa noite de sonhos intranquilos, Moira desperta sobressaltada, levanta-se e põe-se em frente a uma antiga penteadeira – uma relíquia pertencente à sua família, por gerações. Por um instante, ela contempla o espelho e vê uma mulher de oitenta anos, com seus cabelos grisalhos em completo desalinho, rugas ao redor dos olhos e boca, bem como olhos azuis, que outrora cintilavam, mas agora se encontram opacos.
– “Em qual espelho ficou perdida a minha face?” – suspirou, angustiada.
Moira é uma juíza renomada, aposentada há alguns anos, que mora em uma suntuosa mansão. Mas, apesar de toda a sua riqueza, não tem herdeiros. Logo após a aposentadoria, ela entrou em crise, pois encontrou-se frente a frente com a pergunta que a inquietou por toda a sua vida: quando será o meu tempo?
Ao sair de seu quarto, Moira caminha até uma grande janela, no final do corredor, e põe-se a observar a chuva. À medida que cada pequeno cristal d’água cai sobre a grama, traz à tona, com toda a vivacidade, as antigas memórias da aurora de sua vida.
A pequena Moira adorava dias de chuva, pois, nesses dias, sua mãe tinha o hábito de contar histórias, sentada em uma cadeira de balanço, para ela e suas duas irmãs, que faleceram em um trágico acidente, quando Moira tinha apenas cinco anos de idade. Por isso, a menina cresceu sufocada pela superproteção materna e as altas expectativas do pai.
Agora, em frente à grande janela, Moira estava tão absorta em seus pensamentos, que não percebeu o avançar das horas. Permaneceu nesse transe até as sete horas, quando a governanta veio chamá-la para tomar seu desjejum. Alguns instantes depois, Moira estava perante a mesa posta com fartura, mas ela estava sem apetite, e quis tomar apenas uma xícara de chá.
– De fato, do fundo do poço só se pode tirar memórias ou mesmices… – refletiu Moira.
Que contraste Moira enxergou entre a fartura deste café da manhã, para uma única pessoa, e todas as refeições de sua família – ou até mesmo a ausência delas – em seus dias de infância. Essa percepção a transportou para o dia em que sua mãe recebeu um misterioso presente de uma falecida senhora: uma penteadeira de mogno, com miligramas de ouro incrustado em desenhos floreados, e um espelho embutido no majestoso móvel.
Moira aprendeu a ler e escrever bem cedo. Seus dias eram milimetricamente administrados pelo pai, que tinha um único objetivo na vida: fazer com que a filha jamais enfrentasse as mesmas privações pelas quais ele passou. Por isso, a menina tinha de estudar, dia e noite, para que, no futuro, tivesse uma profissão de prestígio e retorno financeiro a curto prazo.
Após o seu desjejum, Moira caminha por vários corredores e decide ir até o seu oásis particular: uma biblioteca de grandes dimensões, com prateleiras até o teto, todas preenchidas com edições de luxo de centenas de livros, desde os clássicos até os contemporâneos da literatura universal, em vários idiomas. Um leve lampejo acende uma fagulha em seus olhos azuis. Ela está no único lugar em que realmente se sente realizada.
Moira pensou como teria sido sua infância em uma biblioteca como aquela, como teria se divertido, inventando suas próprias histórias, ou até mesmo imaginando ser a protagonista de seus romances favoritos.
Quando menina, seus passatempos favoritos, nas folgas de sua pesada rotina de estudos, imposta pelo pai, eram ler contos de fadas e romances que a transportavam para outros momentos e mundos e brincar em frente à majestosa penteadeira de sua mãe. Ao contemplar o espelho, ela não via a pequena garota de belos cachos castanhos e olhos azuis cintilantes, e sim, a protagonista da história que estava lendo, ou escrevendo.
O maior sonho de Moira era se tornar uma grande escritora, no futuro. Por isso, ela tinha um diário, no qual criava um mundo todo seu, cuja única lei era a liberdade. Bem, esse era o seu sonho, porém ele não estava nos planos de seu pai, que queria, a todo custo, que ela fosse rica. Por essa razão, ela escondia seu diário na última gaveta do imponente móvel de mogno, assim também como sua força para escolher o próprio destino.
Ainda na biblioteca, uma pequena lágrima cai dos tristes olhos azuis de Moira, ao lembrar de seu antigo diário infantil e perceber o quanto a sua existência foi vazia… vazia de significado e, principalmente, de felicidade.
– Cada instante do nosso passado nos faz ser quem nós somos – disse consigo mesma.
Nesse instante, a governanta entra na biblioteca e encontra Moira em prantos.
– A senhora está se sentindo bem? – perguntou a governanta.
– Não se preocupe comigo, só estou um pouco emotiva. – disse Moira, enxugando as lágrimas.
– Desculpe interrompê-la. Mas o Contador está lhe aguardando na sala de visitas, devo pedir-lhe que retorne em outro momento? – disse a governanta, com um olhar compreensivo.
– Não. Diga que irei descer em alguns minutos – disse Moira, resignada.
– Certo, senhora. Você realmente está se sentindo bem? – insistiu a governanta.
– Obrigada pela preocupação, mas o meu problema não pode ser resolvido agora – disse Moira, enigmática – não deixe o Contador esperando, diga que irei em instantes.
A compaixão de sua funcionária a fez viajar mais uma vez em suas memórias. Moira se viu perante o seu único e melhor amigo, que era também seu vizinho. Os dois costumavam brincar juntos no quintal de suas casas. Ele costumava ouvir, pacientemente, as queixas de Moira sobre a superproteção dos pais e como se sentia sufocada por isso.
O garoto sempre a alegrava e distraía com suas histórias, pois ele também era dono de uma imaginação fértil, porém, estava fadado a um destino no qual sua criatividade de nada valia. Ele era extremamente pobre, vivia em uma miséria maior do que a família de Moira jamais experimentaria. Por isso, quando completou apenas dez anos de idade teve de começar a trabalhar em uma fábrica de tijolos, para que a família não definhasse de fome.
Temendo que a filha se apaixonasse pelo garoto, quando eles chegassem à juventude, e assim tivesse um destino diferente do que ele planejara, o pai de Moira proibiu a amizade das duas crianças, o que as condenou a um caminho, no qual não havia tempo, nem espaço, para amizades ou sentimentos, somente para a monotonia diária e a solidão.
O temor do pai de Moira tinha uma explicação. No passado, ele é que fora o melhor amigo pobre de sua esposa. A avó, que Moira jamais conhecera, era uma mulher muito rica, que tinha apenas duas filhas, dentre as quais a primogênita um dia viria a ser a mãe de Moira. Contudo, a rica senhora não aprovava o relacionamento entre sua distinta filha e um rapaz tão humilde, pois acreditava não passar de um mero interesse financeiro.
Por isso, deserdou sua primogênita no dia em que recebeu a notícia do casamento e se ausentou, assim, para sempre da vida de sua filha. Somente em seu leito de morte, arrependeu-se pela dura decisão e suplicou a sua segunda filha, a única herdeira de toda a sua fortuna, que entregasse a penteadeira à sua irmã, pois era uma relíquia, que atravessava gerações de primogênitos de sua descendência.
Agora, em seu escritório, Moira discute acaloradamente com o seu Contador, pois descobre um desfalque em suas finanças. E toda essa agitação lhe causa uma enorme dor no peito e ela cai desmaiada.
Quando Moira recobra seus sentidos, ela se encontra deitada em sua cama e percebe o olhar cansado de sua governanta, que ficara em vigília, a noite inteira, cuidando de sua estimada senhora.
Um turbilhão de pensamentos invade a mente de Moira. Ela enxerga sua vida como um delicado castelo de areia que está sendo soprado pelo impetuoso vento da morte. Restam, agora, poucos grãos… Ela percebe que sua existência fora preenchida unicamente pelas ausências de seu passado.
Em seu peito aquela mesma dor se acentua, ela enxerga uma luz muito forte e imagina como teria sido a sua vida se ela tivesse, de fato, tomado as rédeas de seu próprio destino. Pois, em seu último suspiro, ela compreendeu que o futuro é um quebra-cabeças, com inúmeras lacunas, que podem ser preenchidas por várias peças disponíveis.
Inquieta, com a respiração ofegante, Moira desperta no dia de seu décimo oitavo aniversário. Tudo não passou de um sonho…

SOBRE A AUTORA – Gabriela Lages Veloso é escritora, poeta, crítica literária e mestra em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Colabora com coletâneas e revistas no Brasil e no exterior. É autora do livro de poesia O Mar de Vidro (2023), que faz parte do acervo das bibliotecas mais prestigiadas do mundo, como, por exemplo: Linga-Bibliothek, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha; Biblioteca da Universidade de Cambridge, na Inglaterra; Biblioteca da Universidade Politécnica de Macau, na China; Biblioteca da Université Sorbonne Nouvelle, na França, e Widener Library, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Atualmente, é colunista do Portal Imirante.com (filiado à rede Globo).
Respostas de 5
O conto “O Relicário” constrói-se como uma narrativa de espelhos, tempo e herança, em que o objeto material não atua como mero adereço, mas como verdadeiro dispositivo de memória e consciência. A penteadeira, atravessando gerações, assume a função de relicário no sentido mais profundo, pois guarda não apenas rostos refletidos, mas destinos interrompidos, escolhas adiadas e afetos interditados.
Moira é uma personagem densamente trabalhada. Sua condição de juíza aposentada, cercada por luxo e reconhecimento social, contrasta com um vazio existencial que o texto faz emergir com delicadeza e firmeza. A pergunta que a persegue, “quando será o meu tempo?”, funciona como eixo silencioso da narrativa, reaparecendo nas imagens da chuva, do espelho, da biblioteca e, sobretudo, no diário oculto, símbolo da vocação sufocada e da liberdade não exercida.
Há grande sensibilidade na forma como a autora articula memória individual e herança familiar. O rigor imposto pelo pai, justificado pelo medo da miséria, revela-se como reprodução de uma violência anterior, herdada da avó que deserdou a própria filha. O conto não julga de maneira simplista, mas expõe como o trauma social e econômico se converte em controle afetivo e moral, moldando destinos sob a aparência de proteção.
O recurso ao sonho não fragiliza a narrativa. Ao contrário, amplia sua potência ética. O despertar de Moira aos dezoito anos não apaga o vivido, mas o ressignifica como advertência. O futuro, descrito como um quebra-cabeça de múltiplas lacunas, afirma uma concepção madura de liberdade, entendida não como garantia, mas como possibilidade que exige escolha.
A escrita de Gabriela Lages Veloso destaca-se pelo equilíbrio entre lirismo e clareza narrativa. A linguagem é imagética sem ser ornamental, e a melancolia que atravessa o conto não se entrega ao sentimentalismo. Trata-se de uma reflexão literária sobre tempo, autonomia e herança, que permanece no leitor após o término da leitura, como um espelho que continua a interpelar mesmo quando já nos afastamos dele.
É um conto que honra o projeto “Um Conto aos Domingos”, oferecendo uma leitura que acolhe, inquieta e permanece.
Caro César Borralho, essa foi uma das leituras mais detalhadas e profundas que já fizeram do meu conto. Ele foi escrito há alguns anos e foi a minha primeira publicação literária, por isso, é muito importante para mim.
Há projetos que não apenas publicam textos, mas educam o tempo do leitor. Um conto aos domingos pertence a essa linhagem rara: a de iniciativas que devolvem à leitura o seu ritmo próprio, semanal, atento, quase ritual. Não se trata apenas de oferecer literatura, mas de criar um hábito de escuta, um espaço em que a palavra é aguardada e recebida com respeito. O projeto constrói, assim, uma pequena ética da leitura, feita de constância, cuidado e confiança.
Em O Relicário, Gabriela Lages Veloso trabalha uma matéria delicadíssima: o tempo que se perde e o tempo que ainda pode ser escolhido. A narrativa avança por camadas de memória com elegância e contenção, fazendo do espelho e da penteadeira muito mais que símbolos. São dispositivos narrativos, lugares onde a história se deposita no corpo e onde o destino se revela como adiamento. Moira surge como figura de contraste. Uma vida socialmente bem-sucedida, cercada de conforto e prestígio, mas interiormente marcada por uma ausência funda, a de quem foi privada do direito de desejar.
A autora demonstra pleno domínio do ritmo do conto clássico, sem rigidez e sem pressa. O texto respira. Alterna introspecção e revelação com naturalidade e conduz o leitor por imagens de alta densidade afetiva. A chuva que reabre a memória, a biblioteca como território de verdade, o diário escondido como metáfora da vocação silenciada. Tudo se articula num diálogo fino entre herança, destino social e liberdade, sem didatismo, sustentado por uma prosa limpa, sensível e consciente de seus próprios símbolos.
O desfecho, ao reconduzir Moira aos dezoito anos, não dissolve o drama vivido. Ao contrário, o intensifica. O sonho não aparece como consolo, mas como advertência. A literatura, aqui, não pacifica; desperta. E é justamente nesse ponto que o conto se eleva, ao lembrar que o futuro, embora frágil e incerto, ainda pode ser tomado pelas mãos.
Parabéns à autora por um texto maduro, delicado e honesto, que compreende a literatura como espaço de revelação e risco. O Relicário não é apenas um conto sobre o passado, é um convite ético à coragem de viver antes que reste apenas a memória daquilo que não foi.
Muito obrigado pelo incentivo, meu amigo. Sigamos juntos nessa trilha (às vezes, íngreme) da Literatura.
Muito obrigada pela sua leitura, César Borralho!