quarta-feira, 9 de setembro de 2026

RESENHA – UM LIVRO POTENTE PARA UM MUNDO LOUCO (Marcos Fábio)

Publicado em 25 de janeiro de 2026, às 10:58

Livros da dita Literatura nunca são apenas para entreter, sua função primeva, de nascedouro, a razão mesma de serem escritos e estarem ali, na prateleira das livrarias [ou, agora, nos sites, marketplaces e redes sociais das editoras]. Todos os livros já escritos “de literatura” são também feitos para dizer algo mais, com maior ou menor contundência.
Lembro de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos [quem não leu ainda, recomendo fortemente!], uma denúncia poderosa da relação desigual do sertanejo Fabiano e sua família e do coronel, dono da terra e de tudo o mais. Lembro do “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, que denuncia, com uma linguagem crua e poética, a ditadura, a opressão e a São Luís dos anos 1970 da sua infância com suas debilidades. Lembro, puxando mais para atrás a história, de toda a literatura de Lima Barreto, que, em fins do século XIX, escrevia para gritar contra as injustiças de um Brasil que se queria republicano e modernizante, mas ainda era [era?] racista, desigual e atrasado.
É assim também que enxergo o livro “Teus olhos estarão sobre mim”, romance do escritor Marcos J. Custódio, que saiu em 2025 pela Mondru Editora.
Maranhense de Imperatriz, o autor já tem uma trajetória na literatura, tendo contos selecionados em várias coletâneas. Ganhou o segundo lugar no Prêmio Barueri de Literatura (2022) e menção honrosa no 21º prêmio literário Paulo Setúbal. Também participou da antologia de contos OFF Flip 2024.
“Teus olhos estarão sobre mim” traz uma história que, não fosse por este mundo louco em que vivemos, que nos assalta a atenção com suas esquisitices de toda ordem, poderia ser absurda. Mas não é. É, sim, perfeitamente plausível, dadas as condições em que a sociedade vive e trata quem vive nela.
Luísa é uma pessoa em situação de rua que, por um acaso do destino, está no lugar certo, na hora certa. Foi bater na porta de uma casa rica, de um bairro rico de São Paulo, e acabou sendo adotada como pet por Alexandra, a poderosa dona da casa. Luísa vira, então, Lulu, e é tratada como se um cão fosse, com todas as benesses que um pet de família rica merece: tem comida especial, tem tosador, tem profissional para lhe ensinar os melhores comportamentos caninos, tem uma casinha ultraconfortável, na grande área livre que circunda a mansão.
Luísa, rapidamente, compreende que seu conforto depende de que se adapte, o mais rápida e eficazmente possível, a seu novo papel. E assim o faz. É um Lulu perfeito para a vida da sua dona. Seus dilemas, guarda-os para si, ou para Deus: “Recolhida a sua casinha, Lulu implora a Deus coragem para cruzar de vez o limiar que segrega humanos e bichos. Quer realizar a travessia para o lado de lá. Tenha a bondade de me dar a transformação.”
Lulu é tão insólita quanto perfeita. Tanto que os amigos de Alexandra tentam imitá-la e, também, adotam seus pets-gente, ampliando a fauna de cães vindos da favela, que abandonam as duas pernas e passam a engatinhar, latir e fazer gracejos, para o deleite dos seus proprietários [tutores, como agora se diz…].

O livro é potente porque expõe, com muita criatividade e sem denuncismos baratos, a disruptura social em que vivemos. Com uma linguagem seca [como o fez Graciliano], Marcos J. Custódio, ao mesmo tempo que nos confronta, nos deleita e nos faz pensar: será que vamos chegar a isso? Ou melhor: quando é que vamos chegar a isso?
Alexandra é o paradigma de uma sociedade em que os ricos tentam compensar, com um pouco da sua riqueza, a vida dos pobres que lhes servem e que estão ao seu redor. Luísa é o espelho de gente que, de tanto sofrer e penar por falta de oportunidades, de comida e banho, de remédio e escola, aceita qualquer coisa que lhe propõem para não sofrer mais – ou sofrer um pouco menos. E toda essa história, que se desenrola no livro, acaba sendo uma possibilidade de existência, neste mundo do avesso em que estamos – o mundo em que nada nos surpreende, nada mesmo…
Um livro que, ao mesmo tempo, entretém, denuncia e nos faz pensar. Bem ao estilo dos grandes livros da literatura, “Os teus olhos estarão sobre mim” tem todos os ingredientes para seguir estrada longa.

SOBRE O AUTOR – Marcos Fábio Belo Matos é maranhense de Bacabal. É professor dos cursos de Jornalismo e Pedagogia da Ufma – Imperatriz. Autor de mais de 35 obras, entre textos acadêmicos e literários. Membro da Academia Bacabalense de Letras, da Academia Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz. Na sua obra, se destacam os livros: “…E o cinema invadiu a Athenas; a história do cinema ambulante em São Luís (1898 a 1909)”, vencedor do XXV Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, de 2002; “Crônicas de Menino”, vencedor do Prêmio BNB de Cultura, de 2004; “O 18o. Andar”, vencedor do Edital Literatura da Fapema, de 2016; “Veritas”, contos, vencedor do Prêmio da Academia Ludovicense de Letras, de 2023 e do Prêmio Literário da Academia Imperatrizense de Letras, de 2024.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Sites relevantes para pesquisa

Publicidade