Coisas que não se cortam com faca
“O que destrói uma casa não é o trovão, mas o prego torto no batente.”
Casimiro era funcionário público de segunda categoria — daqueles que, se deixassem de comparecer, só seriam notados após duas semanas consecutivas. Era como uma cadeira a mais: ninguém lembrava seu nome completo, e os colegas esqueciam sua presença como se ele fosse realmente parte do mobiliário. Nunca foi promovido, tampouco repreendido. Cumpria tudo sem erro e sem eco, como se sua exatidão fosse um tipo de ausência.
Tinha quarenta anos e um velho relógio de bolso herdado do pai, daqueles que precisa dar corda todas as manhãs, como quem acorda um morto querido para mais um dia de rotina. Era homem pontual, metódico, discreto nas palavras e generoso nos gestos. Casou-se tarde, por medo de morrer só e por esperança de não morrer só, razões que se anulam, mas que ele nunca insistiu em pensar.
Luzia, a esposa, trabalhava num salão de beleza e ostentava certa altivez prática: unhas vermelhas, cabelo sempre alisado e uma voz com as sílabas muito bem divididas, como se temesse ser mal interpretada. Quando casaram, abandonou o trabalho. Disse que não era mais necessário. Casimiro, que via nisso uma espécie de devoção conjugal, aceitou com ternura. Talvez tivesse acreditado que ela trocaria as escovas e chapinhas por panelas e temperos.Não o fez. Também não trocou por beijos ardentes, toques mais ousados por baixo dos lençóis.
Dormiam juntos, mas de costas. O calor era unilateral, ele aquecia e ela girava. Às vezes, ao vê-la andar pela casa com as pernas bem feitas e os pés descalços, Casimiro sentia um desejo tímido, que abortava antes do gesto. Não sabia se por medo, por cansaço ou por costume.
No primeiro mês, Casimiro não ligou. No segundo, ainda cozinhava por gosto. No terceiro, já o fazia por hábito. E, como quem não percebe a água esquentar em panela morna, foi assumindo o fogão como um altar silencioso, onde oficiava sozinho as liturgias do lar. Luzia nunca cozinhava e disso fazia quase um orgulho. Alegava que jamais prometera dotes de panela; em troca, limpava a casa à sua maneira, com vassouras mais simbólicas que eficazes. A poeira permanecia, mas bem espalhada, como se a simetria da sujeira pudesse ser disfarçada de asseio. Ele não reclamava.
Aos domingos, preparava a caranguejada. A esposa gostava muito. Ele, não exatamente. Todo casal mantém um prato preferido. Não só pelo gosto, mas porque ali reside uma concessão em forma de trégua. A única coisa que o fazia comer caranguejo era o vinagrete.
Luzia era inflexível quanto aos pelos. “Se tiver um só fio, eu não como”, decretava, com a severidade de quem transforma o gosto em mandamento. Casimiro, então, usava barbeador descartável, deslizando lâmina por lâmina sobre as patas relutantes dos caranguejos, como quem prepara uma oferenda para sacrifício. O gesto repetido já não era apenas higiene, tornou-se um modo de silenciar o incômodo — não dos bichos, mas dele mesmo. Lavava incontáveis vezes, até apagar qualquer vestígio — como se os caranguejos jamais houvessem saído do mangue, mas das cambadas expostas nas barracas pouco assépticas da feira.
Luzia era ainda mais categórica: “Caranguejo bom é o que vai vivo para a panela. Nada de matar antes de limpar, senão perde o gosto”. Casimiro não concordava, mas acatava, como quem assina um contrato que não leu. Assumia o ritual com a precisão de um torneiro mecânico em começo de expediente: mãos firmes, gestos calculados, olhos atentos. As garras, afiadas como sentença, pareciam feitas para punir a ousadia de quem ousasse tocá-los. Manuseava-os com o cuidado de quem opera um artefato ancestral, sabendo que um descuido bastaria para perder um dedo — ou a dignidade.
Mas não era só o risco físico que o incomodava. Havia ali uma inquietação mais funda, algo entre o desconforto moral e o pudor primitivo. Havia nos olhos dos caranguejos um movimento quase humano, um derradeiro apelo. No instante em que tampava a panela, o som do alumínio selando o destino dos bichos soava como um ato de traição. Uma inquietude ficava no ar como vapor que não se dissipa. Ainda assim, cumpria o rito.
Luzia não tolerava hesitação: “Eles nem sentem”, dizia, como quem herdou a tradição mais do que a compaixão. E então, ele lavava as mãos demoradamente, como quem tenta apagar da pele alguma culpa invisível.
Fazia tudo isso apenas por causa do vinagrete — aquele molho simples, aguado, quase banal, mas que, em sua mente, adquiria a solenidade de uma recompensa. Era ele, e só ele, que dava sentido ao sacrifício da carne e da concha, como se o sabor ácido e vivo do tempero pudesse redimir a violência do gesto que o antecedia. Era pelo vinagrete que ele comia o que não amava, que se doava sem retorno. Era nele que depositava, sem saber, o símbolo do cuidado que desejava receber. E que, pouco a pouco, deixava de esperar.
Luzia tinha uma teoria inegociável: Caranguejo só tem graça com arroz de toucinho — e toucinho só presta se for mole. Se eu quiser crocância, como torresmo”, decretava ela com a autoridade de quem não cozinha, mas comanda. Cabia a Casimiro, naturalmente, a execução da doutrina.
Cortar a manta do toucinho era o primeiro suplício. A faca, afiada minutos antes, já se rendia à gordura minutos após. A cada corte, o toucinho cegava a lâmina, como se lutasse contra o fio. Casimiro parava, riscava a chaira, recomeçava. Sempre no mesmo compasso. Os dedos deslizavam, a tábua se esquivava como base que já não tem chão. E tudo isso para que cada cubo ficasse do mesmo tamanho, quase uma maquete geométrica do esforço inútil.
Às vezes, entre um corte de toucinho e outro, Casimiro tirava o relógio do bolso e olhava as horas como quem espera um sinal. Meio-dia era sempre a hora exata em que servia o almoço. A comida podia não estar pronta, mas ele estava. O arroz, por sua vez, não podia pegar no fundo. Tinha que absorver o sal, o óleo, a espera e ficar maleável, como se houvesse chorado no fogo.
Casimiro, no entanto, não gostava de arroz de toucinho. A gordura lhe embrulhava o estômago, o gosto lhe lembrava a infância pobre. Mas comia. Sempre comia. Por causa do vinagrete. Aquele molho trivial, cítrico e limpo, que parecia ser a única coisa viva no prato e talvez no casamento. Era o vinagrete que lhe acordava a língua, que fazia o corpo lembrar do gosto das coisas. Como se o ácido fresco despertasse um desejo pequeno, quase esquecido, mas que ainda morava ali, entre o sal e o limão.
Num domingo qualquer, pediu a Luzia que fizesse o vinagrete enquanto ele cuidava dos caranguejos e do arroz de toucinho. Mas ela respondeu, como quem carimba um ponto final:
— Você sabe que eu não sei cozinhar!
Ele retrucou:
— Não se cozinha vinagrete, se corta. Nada difícil, só picar tomate, cebola, pimentão, coentro e espremer limão. Nada que precise ir ao fogo.
Depois de cumprir, em silêncio, todos os rituais que o domingo lhe impunha, exatamente como Luzia ditava, Casimiro sentou-se à mesa com a lentidão de quem, mais do que cansado, está à beira de alguma desistência. As mãos repousadas no colo, úmidas ainda do vapor e da espera. O prato fumegava, o silêncio ruminava a sala. Mas a cumbuca de vinagrete — pequena, translúcida, essencial — não veio. E foi ali, naquele detalhe, que algo dentro dele se partiu sem ruído. Nenhuma palavra foi dita, apenas ausência pousada sobre a mesa como um pano molhado que ninguém se dá ao trabalho de torcer. A semana passou como quem arrasta um corpo.
No sábado seguinte, reuniu coragem e tentou uma explicação amorosa, pedagógica, filosófica e até espiritual sobre a importância do vinagrete na partilha do domingo. Ela riu, com certo desprezo leve, e disse que faria. No domingo, havia na mesa uma tigela, sim — mas cada pedaço era um insulto geométrico. O tomate era cubista, o pimentão barroco, a cebola expressionista. Nenhum padrão, nenhum afeto.
Casimiro, num misto de ironia e desencanto, indagou:
— Você usou a faca ou os dentes?
Ela respondeu, sem olhar:
— Você sabe que eu não sei cozinhar. Se tu não quiser comer, não coma. Eu não faço mais. Nada do que eu faço te agrada!
A frase soou como sentença. E Casimiro recolheu-se, como se houvesse perdido um filho imaginário.
O ciclo repetiu-se. Novo sábado, nova promessa. Novo domingo, novo esquecimento. E então, pela décima ou centésima vez, Casimiro comeu o caranguejo sem vinagrete. Mas desta vez, com gosto de despedida.
Parecia mais um domingo. Casimiro foi ao mercado, mas não voltou pra casa. E perto do meio-dia, Luzia encontrou o bilhete sobre o fogão:
Se não há vinagrete, não há amor.
Como uma roupa esquecida no varal, seca, dobrada pelo tempo, Casimiro nunca gritou, nunca bateu porta, nunca exigiu explicações. Apenas se foi.
Dizem que hoje vive só, numa quitinete em São José de Ribamar, que mantém o hábito de cozinhar e o relógio do pai ainda marca os domingos. Mesmo quando atrasado, ele parecia saber o tempo certo das coisas que se perdem. Há quem o tenha visto na feira escolhendo tomates, cheirando coentros, selecionando cebolas com um ar de quem procura mais que frescor — talvez uma memória.
Talvez um vinagrete perfeito justificasse tudo. Cubos milimétricos de tomate maduro, sem semente, como se fossem rubis esculpidos à faca. A cebola branca, cortada com precisão quase cirúrgica, parcialmente translúcida. Pimentão, só o necessário, em tiras mínimas, presença contida. O cheiro-verde fresco, picado bem fino, espalhado com parcimônia, como quem perfuma discretamente e reúne os sabores. O vinagre branco derramado aos poucos, misturado ao azeite claro e generoso. Sal na pitada exata, o suficiente para acender a língua sem apagar o frescor. Ou talvez apenas a dignidade que julgava merecer, servida em porções miúdas, sob o olhar distraído de quem nunca teve fome.

SOBRE O AUTOR – César Borralho – Nasceu em Codó e chegou a São Luís poucos dias após o nascimento, vindo com a família em função da transferência profissional de seu pai, cidade onde cresceu e consolidou sua trajetória intelectual e artística. Professor de Filosofia e poeta, dedica-se às áreas de pensamento crítico, cultura e educação. Premiado em concursos literários nos estados do MA, SP, RJ e PB, recebeu o Prêmio Nauro Machado e foi semifinalista do Pena de Ouro 2024. Sua obra integra antologias nacionais e projetos culturais da UFMA, além de publicações pelas editoras Vivara, Patuá e Casa Brasileira de Livros.