Nos últimos anos ela se encantou de tal maneira pelas redes sociais que a sua gostosa vida sozinha lhe permitia dormir com os óculos e o celular no canto direito da cama, na direção da cabeça e próximo à parede branca do quarto. E, naquele dia, acorda e ainda deitada tateia à procura dos óculos e do celular. Encontra e tenta ler a mensagem visualizada que fica na horizontal, dificultando a leitura. Senta-se, coloca o celular na direção dos olhos e sorri e, numa piscada de olhos, volta ao século passado: o seu exame de qualificação na importante universidade, a banca, seu orientador suspeito, um professor corporativista e ele, o novo professor chegado de um país do outro lado do Atlântico gelado. Retornava, parece, de um pós-doc. Deveria estar entrando nos quarenta anos.
Eram tempos difíceis para ela.
Já professora, naquela universidade do norte, tinha terminado os créditos do mestrado na importante universidade do sudeste e retornado ao seu estado. Prestado concurso e aprovada, trancou o mestrado. Depois de dois anos retornava ao exame de qualificação. Estava nervosa, mas controlada como as folhagens quando vem a ventania e não se deixam levar. Ele lhe chamou a atenção no clima de adversidade, a sua calma, seu distanciamento de quem não sabe da situação, mas um olhar acolhedor e curioso por aquela jovem senhora que deveria estar na metade de sua década de trinta anos e tinha longos cabelos cacheados.
– Quanto tempo!?, século passado!
O título da palestra lhe chama a atenção: “O perspectivismo em Nietzsche”. De imediato, envia uma mensagem perguntando a data e horário da vinda do professor. Recebe a resposta e trata de levantar e seguir o resto do ritual matutino.
Passa a semana.
E Chega o dia da vinda do professor.
Um pouco antes do horário estava no auditório. Cumprimenta colegas e estudantes. Está bonita. Agora, com os cabelos curtos e brancos. Doutora e já com algumas homenagens. Ele, internacionalmente conhecido, escritor de vários livros, com certeza não lembrava dela. Ela sabia, mas admirava ele e queria vê-lo.
Está entre duas camadas de cadeiras, quando alguém lhe toca suavemente as costas, vira e vê o jovem professor da sua universidade dizer-lhe:
– Esse é o professor Savóia!
Ela olha rapidamente para o todo dele e o vê de cabelos brancos e meio careca, um pouco vergado, mas sem barriga, ainda de óculos e falando baixo:
– Muito prazer!
– Ô professor, tudo bem? Fez uma boa viagem? Seja bem-Vindo!
– Obrigada…
-Professor, o senhor fez parte da minha banca…
Ele olha atento para ela e ergue a cabeça numa clara tentativa de tentar se lembrar…
– Com o prof. Akley!…
– Lembro desta banca. O Akley morreu novo.
– Professor, aquele filósofo que o senhor falou na minha defesa eu trabalhei no doutorado… Professor, aquele vídeo que o senhor gravou sobre Heidegger eu passo na minha sala de aula….
Duas estrelas em noite luminosa acenderam em seus olhos e o sorriso se abriu e estavam a baterem as mãos de alegria. Ela deduzia que ele deveria perguntar quem era ela. Mas os olhos dos dois incendiavam faíscas. Ele diz:
– Você é uma professora muito generosa…
O jovem professor interrompeu aquele encontro para apresentá-lo a outros professores e seguiram. Deram a volta e encontram com ela sentada. Alguém pede para tirar foto com o professor. Logo, ela tem a ideia de registrar aquele momento e pede para também tirar foto. Oferece o celular para a moça que estava a tirar as fotos e o professor a abraça sorrindo e diz: – Memória feliz!
E assim, em sorrisos e abraços, várias fotos são tiradas, a moça encerra e entrega o celular a ela dizendo:
– Pintou o maior clima entre vocês!
Ele não ouviu, saiu sorrindo com o jovem professor.

SOBRE A AUTORA – Rita de Cássia Oliveira, Professora Associada 3 do Programa de Pós-Graduação em Letras–PGLetras – Mestrado Acadêmico e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia-PPGFIL, Mestrado Acadêmico da Universidade Federal do Maranhão. Possui vários artigos publicados em revistas acadêmicas nacionais e estrangeiras. Participou da Organização de Coletâneas nas áreas de Letras e Filosofia. Possui crônicas publicadas em jornais diários e antologias. Já publicou dois livros de poesia: Renascer Mulher e Poiesis. E dois livros de Filosofia: Introdução à Filosofia, com Marcos Sinésio e A via longa da existência errante: uma interpretação d’O Guesa, de Sousândrade à luz da hermenêutica de Paul Ricoeur.