
Esta é uma história que Carlos sempre contava para os seus sobrinhos quando a família se reunia. Eram raros os momentos de diversão entre eles, mas, quando se encontravam, principalmente em datas comemorativas, a festa era de dar inveja.
Era uma família diferente de todas as outras. Os seus membros, tanto jovens quanto velhos, apreciavam os cantos dos pássaros. Amavam debater os nomes, as melodias cantadas e até faziam eleições todos os Natais para escolherem o pássaro do ano. E foi em um desses Natais que Raul, um dos sobrinhos de Carlos, resolveu passar a história contada para as pessoas reunidas, que foram excepcionalmente convidadas para a ocasião. Todos estavam do lado de fora da mansão histórica construída em um dos bairros de São Luís e, quando o relógio marcou meia-noite, Raul começou…
O jovem Jorge havia jogado o seu violão no canto do quarto na noite seguinte. Levantou-se e foi imediatamente fazer as malas. Estava falido. Tinha saído de Grajaú para a capital São Luís com o sonho de ser um grande artista. Mas viver ali, no bairro Centro, dentro de um casarão decrépito, havia chegado ao seu fim, visto que as moedas estavam na conta exata para comprar uma passagem de volta para a sua cidade natal. Coçou a cabeça e espremeu os olhos a vislumbrar a imagem de seu retorno para Grajaú como um completo fracassado.
Jorge tinha talento, ele sabia disso, mas não era suficiente. Recebia elogios na noite e nas praças durante o dia, porém, nada disso bastava. Com uma mala nas mãos e o violão pendurado do outro lado, seguiu a pé rumo à rodoviária.
Subindo uma ladeira, Jorge se deparou com uma pequena loja que nunca havia visto nos mais de dois anos que morou ali. Era pequena, estreita e fazia parte de um dos casarões históricos. Era pintada de azul e havia belas lousas nas paredes, sendo aquela parte de uma arquitetura de séculos que Jorge não conseguia mensurar. Mas aquela não era uma loja comum: de alto a baixo, estava repleta de gaiolas, muitas delas vazias, mas outras tremiam com o voo dos pássaros presos que cantavam sem parar. Jorge parou um momento e começou a apreciar as gaiolas e lembrou-se do tempo em que era um garoto feliz em Grajaú, quando passava o dia com sua baladeira caçando passarinhos dentro do mato por pura diversão. Porém uma voz suave o arrancou dessas recordações:
— Posso ajudá-lo?
Jorge viu um homem alto, negro e de terno alinhado.
Sua voz era tão aveludada que Jorge sentiu-se repentinamente à vontade, como se ouvisse uma boa música.
— Não, obrigado – o jovem respondeu.Estava só olhando. Tô indo pra rodoviária.
— Vejo que você é músico – disse o homem, sem se importar com a deixa de Jorge, toca violão?
— E canto também – acrescentou, um tanto que envergonhado. Ele se sentia um fracasso.
— Pode tocar para mim?
Jorge estremeceu com a proposta.
— É que… bom… tudo bem.
Jorge tirou o violão da capa, afinou as cordas e começou Desafinado, de João Gilberto. Nunca havia cantado aquela canção com tanta verdade. Fechou os olhos. Se sentia desafinado, desalinhado. Mas sentiu o pulsar do seu coração ao tocar e as lágrimas quentes rolaram pelo seu rosto.
Quando terminou, viu o homem batendo palmas para ele. Estava sorridente.
— Você é muito talentoso, meu jovem. Tenho certeza que João Gilberto amaria ter ouvido essa interpretação.
Jorge limpou as lágrimas.
— Bom, obrigado.
— Mas, não… não sei… falta algo em você.
O homem se aproximou do jovem e começou a examiná-lo.
— Vamos entrar. Quero te mostrar uma coisa.
Jorge não tinha como recursar. E, quando entrou na loja, viu a infinidade de pássaros presos em gaiolas. Eram de todos os tamanhos e os cantos se misturavam. O homem pegou uma gaiola que estava na altura de sua cabeça, pendurada por um gancho que tinha no alto do teto.
— Este é um Sabiá-laranjeira. Canta lindamente. Pelo preço certo, você pode levá-lo para casa.
O sabiá tinha uma cor de ferrugem e cantava como Jorge nunca havia visto na vida.
— Muito obrigado, mas eu não quero comprar um pássaro. Estou indo embora da cidade. — Jorge logo percebeu que estava envolto em um papo de vendedor.
Então, vendo que Jorge estava saindo, o homem abriu a gaiola e pegou o pássaro com uma mão e, diante de seus olhos, apertou a ave até que do bico saiu uma bolinha alaranjada brilhante. Depois disso, colocou o pássaro de volta no cativeiro. Mas o animal não cantava mais.
— Tome. É um presente.
Jorge deu um passo para trás, mas logo voltou sua atenção para aquilo que via diante dos seus olhos. Abriu a mão e recebeu a bolinha brilhante, que tinha o tamanho de um caroço de feijão. O homem de terno abriu a boca e apontou o indicador para a sua garganta e Jorge entendeu que ele precisava engolir aquilo. Fechou os olhos e obedeceu.
Algum tempo depois, Jorge conseguiu comprar o seu primeiro apartamento. Agora, depois de ter conseguido um contrato com uma grande gravadora, não lhe faltavam shows. A prosperidade era tamanha que estava enviando dinheiro para casa e os pais administravam a quantia comprando casas, terras e gado.
A voz de Jorge era sem igual. Todos aplaudiam o seu talento, suas composições. O violão parecia ganhar vida em seus braços e até o intitulavam de o novo João Gilberto e o responsabilizavam de ter trazido a tradicional bossa nova para as principais listas dos mais tocados nas plataformas digitais. O primeiro álbum de Jorge, o Devaneios de Um Jovem Tropical, foi bem recebido pela crítica.
Porém, Jorge, agora também conhecido como Jorge Nova-Bossa, não se sentia satisfeito com o que tinha conquistado. Ainda falhava em alcançar notas mais altas e precisava de novas composições, já que o seu debut havia sido lançado há três anos. Queria agora ganhar prêmios, alcançar outros países e até encontrar um amor e, para isso, sentia que deveria voltar onde tudo começou.
De volta a São Luís, Jorge colocou uns óculos de sol, chapéu e roupas simples para que não fosse reconhecido nas ladeiras do centro histórico. O seu motorista ficaria aguardando em um bar próximo dali, também para não levantar suspeitas. Jorge abriu um sorriso quando o encontrou sentado em um tamborete na porta da sua loja. Vestia o mesmo terno desde o último encontro, mas era como se o tempo não tivesse passado. Os pássaros cantavam presos em suas gaiolas.
— Que visita mais agradável! — disse ele, levantando-se e abrindo os braços. Jorge deixou-se envolver. – Eu sabia que você voltaria, meu rapaz. Vejo que está feliz.
— Sim. Sou imensamente grato pelo que fez. Trouxe um presente para você. — Jorge tirou um disco de vinil de dentro de sua bolsa e entregou para o homem. Havia a foto de Jorge na capa seguido com um fundo em tons alaranjados.
— Nossa, muito obrigado. Pode assinar pra mim?
— Claro. — Jorge tirou uma caneta do bolso, mas o homem recusou.
— Eu tenho uma caneta especial para isso. Vamos, entre.
Jorge seguiu logo atrás, apreciando assim as aves ali naquela loja vintage. Sentia como se estivesse em uma outra época ali dentro.
— Eu vim aqui porque…
— Precisa de mais talento? – perguntou o homem, interrompendo o jovem.
O cantor balançou a cabeça afirmativamente. Sentia um frio na barriga.
— Eu sabia que você ia voltar. Sempre voltam. Seja para aprender algo, ou pela fama, ou por inspiração. Bom, para você eu tenho algo muito, mas muito especial.
O homem foi até a parede e de lá trouxe uma gaiola maior que as outras. Dentro havia um pássaro com penas cinzas e avermelhadas e um bico firme.
— Esse aqui é o Uirapuru-Verdadeiro. Essa ave tem o canto mais belo de todas as aves. Quando o Uirapuru canta, a floresta fica em silêncio para ouvi-lo.
Os olhos do homem brilhavam enquanto ele falava. Abriu a gaiola e sem esforço pegou o pássaro com firmeza. Apertou a ave e uma bolinha azul saiu de seu bico. Quando terminou, devolveu a ave muda à gaiola. Jorge estendeu a mão, mas o homem fechou a palma da mão, recolhendo o talento para si.
— Imaginei que teria um preço — desabafou Jorge.
— Não é nada muito pesado, claro. Pode autografar o meu vinil? — ao falar isso, uma caneta se materializou na mão dele.
Jorge pensou por alguns segundos, mas logo pegou a caneta e fez o autógrafo. O homem cumpriu a sua parte e Jorge colocou a pequena bola brilhante goela abaixo e, ao abrir os olhos novamente, se viu no meio da rua, sozinho.
Quando o nome de Jorge foi anunciado pela terceira vez naquela noite, a plateia não se conteve e todo o auditório explodiu em palmas. Ele, agora com 27 anos de idade, conquistou um grande prêmio nacional. Além disso, havia feito uma performance invejável cantando o seu mais novo sucesso, a música Folclore Experimental, que ficou mais de três semanas como número 1 nos charts de música no Brasil.
Na semana seguinte à premiação, Jorge pegou um voo para São Luís. Ele tinha um endereço certo. E, ao chegar no seu destino, olhou para os lados, à procura da loja do homem que vendia gaiolas. Não encontrou nada. No local onde antes havia uma calçada e um portão de ferro colonial, um muro com cerâmicas quebradas distorcia as suas memórias. Na calçada, sacos de lixos impediam a passagem dos pedestres. Jorge só poderia estar ficando louco, pensou.
Ele precisava encontrar aquele lugar novamente e ele tinha certeza de que estava na rua certa.
— Me procura?
A voz, vinda detrás dele, lhe provocou arrepios.
Quando se virou, viu o mesmo homem que procurava. Ele segurava uma gaiola vazia.
— Não está satisfeito com o que eu te dei? – disparou.
— Eu… sim, não estou. — Jorge fechou a cara. — Parece que quanto mais eu conquisto, mais eu quero. É como se algo me consumisse de dentro para fora – disse Jorge, colocando a mão no peito.
O homem abriu um sorriso largo.
— E do que mais você precisa? Tem dinheiro, fama e reconhecimento…
— Eu quero mais. Quero não só o mercado brasileiro, quero o mundo. – Os olhos de Jorge brilharam, ao dizer isso.
— Infelizmente, isso não será possível.
— Por que não? – perguntou Jorge, em um tom áspero. — Eu posso pagar. Diga o valor.
— Quando eu disse que o Uirapuru era o bem mais valioso da floresta, eu não mentia. Você esgotou as suas possibilidades. Se não conquistou mais, foi por falta de competência.
— Como ousa falar assim de mim? Sou Jorge Nova-Bossa! O maior artista da minha geração. Meu nome permanecerá para a história! — Jorge tinha os punhos cerrados. Estava irado. — “Jorge Nova-Bossa desaparece nas ruas de São Luís”.
— Esta será a manchete dos jornais amanhã. Isso mesmo, você acertou: será notícia.
Ao falar isso, o homem apertou o pescoço de Jorge e de sua boca saiu uma bolinha do tamanho de um caroço de fava, de cor verde. Ele a tirou da boca do jovem artista, que foi ao chão arfando. Quando conseguiu se recompor um pouco, tentou xingar algumas palavras, mas nenhum som saiu dos seus lábios.
Ao ver o desespero nos olhos de Jorge, o homem pegou o talento de cor verde e engoliu de uma só vez. E, percebendo que as coisas poderiam ficar piores, Jorge tentou correr, mas sentiu uma dor que tomou o seu corpo e, quando deu por si, percebeu que havia se tornado um pardal.
O homem pegou o pássaro desorientado e colocou dentro da gaiola. Ele seguiu em linha reta e sumiu no alto da ladeira.
No dia seguinte, não se falava em outra coisa: Jorge Nova-Bossa estava desaparecido. Com o passar do tempo, perderam as esperanças e as buscas foram abandonadas e as músicas de Jorge foram caindo no esquecimento. E assim, depois de alguns anos, o pardal morreu na gaiola. Não de fome ou sede, mas de saudade. Sentia falta de cantar, de fazer aquilo que o seu coração pulsava.
Todos ficaram admirados com aquilo. Nunca haviam ouvido nada parecido. Era tudo tão diferente. A família, a casa, a história. Mas a verdade é que, quando Carlos encontrou o sobrinho, colocou a mão no ombro do garoto e disse:
— Ainda brincando com os humanos? Isso é feio, Raul. Se quiser tomar algo deles, que seja por livre e espontânea vontade.
Raul respirou fundo, vencido, respondeu:
— Poxa, tio, quando é que você vai me levar para fazer isso?
— Fazer o quê?
— Enganar os humanos.
— Qual história você contou hoje para eles? – Carlos pousou os olhos sobre os humanos. Os olhos estavam vidrados e os corpos rígidos. Raul sabia bem como hipnotizar os humanos. Para aquela família, isso se aprendia ainda quando criança. — Ah! Sei! Contou a história do Jorge, não foi?
Raul balançou a cabeça afirmativamente. O terno de Carlos era impecável, como sempre.
— Bom, você tem razão. Está na hora de começar o seu serviço. Venha, vou te levar para a minha nova loja de gaiolas que abri no Recife. Você vai amar a vista do mar.
[Conto publicado originalmente na antologia “Contos da Lua Cheia”, Peculiar Editora, 2023]

SOBRE O AUTOR – João Marcos reside em João Lisboa, no estado do Maranhão. É mestrando em Comunicação Social e formado em Comunicação Social/Jornalismo, ambos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além de sua vasta produção literária em contos, publicou o livro-reportagem “À Sombra da Gameleira: histórias e memória da cidade de João Lisboa” (2021) e, no campo da ficção, lançou “O Círculo de Fogo” (2022) e “Cucacanga” (2024).Também é criador do projeto de incentivo à leitura, Ler Transforma, e membro fundador da Academia de Ciências, Letras e Artes de João Lisboa (ACLAJOL).