terça-feira, 15 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #052 – AQUELA XÍCARA VERDE MUSGO (Marcos Fábio)

Publicado em 9 de novembro de 2025, às 11:21

– Nada tem de especial e tem tudo de especial.

Era essa a resposta que Tadeu sempre dava para quem perguntasse por que aquela xícara não era jogada fora. Mas não explicava o motivo. Afinal, era uma xícara pequena, a asa já tinha quebrado, o verde meio que perdeu o viço, havia uma lasca na borda. Tinha tudo para ser jogada fora, mas resistia na cozinha todo aquele tempo.

Aquela xícara verde musgo era o seu amuleto. Pra onde ele ia, ela ia junto. Quando foi para o Amazonas, a serviço da empresa de engenharia em que trabalhou dois anos, como gerente, ela foi na bagagem, metida entre as roupas, dentro de duas meias grossas. Resistiu. Voltou dois anos depois para São Luís, pra casa dos pais junto com ele, até rumar, de novo, desta vez para o sul, Bento Gonçalves, para mais um trabalho por temporada. Tadeu gostava dessa vida nômade, um tempo em cada lugar, uns anos em cada clima, ora frio, ora vento, ora calor. E ficava mais feliz ainda de poder levar sua xícara da sorte.

Ela quebrou a asa em casa mesmo, num acidente bobo, em Santa Catarina. Ele foi lavar e ela escorregou e caiu dentro da cuba. A asa não partiu na hora, ficou apenas trincada. Mas assim que ele foi secar, a asa caiu. Ele ficou puto, berrou um palavrão, pensou em colar mas achou que não daria certo. Abriu a tampa da lixeira acionando com o pé e jogou a asinha lá. Depois passou o dedo pela borda, como a pedir desculpas, e guardou-a.

Foi Bárbara quem deu para ele. Foi dela que ele ouviu, quando ainda tinha 18 anos: “Essa xicrinha é para você tomar seu cafezinho e lembrar de mim, todo dia. No dia em que ela quebrar, nosso amor quebra junto”. Ele recebeu dela na cama, na república em que morava com mais dois estudantes, o pai o pôs na capital para estudar e ser alguém na vida, já que, no interior, ele estaria condenado a ser comerciário – no máximo, pequeno comerciante, como o pai. Na capital, estudado, ele poderia ser alguém melhor.

Bárbara também era do interior e estava na capital pelo mesmo motivo. Fazia curso de Enfermagem e o conheceu numa festa de calouros. Ela era mais velha que ele, dois anos mais velha, e já estava no 3º. período quando ele entrou para fazer Administração de Empresas na estadual. Ela fazia na federal, mas sempre estava pelas calouradas. Dizia que as festinhas dos calouros eram animadas e boas pra pegar “neném de fralda”.

Quando Tadeu viu aquela moça meio aloirada, com aquele vestido azul, cheio de  umas estampas bonitas, que olhava para ele e acenava com um gesto de brinde com a cerveja, ele resolveu chegar mais perto. Chegou, perguntou o nome dela e a conversa se estendeu pela noite toda. Terminou às cinco da manhã, com um amasso, um belo amasso na porta da quitinete em que ela morava com uma amiga.

Dois anos os dois namoraram. Bárbara lhe deu a xícara no aniversário de um ano de namoro, porque Tadeu amava tomar café. Ele dizia que o café era o Lexotan dele. Ou a endorfina, a depender da ocasião. Ele recebeu o presente, emocionado, não sabia o que era porque ela o pôs numa caixa de sapato, para disfarçar. Quando abriu e viu a xícara, deu um risinho de felicidade e nela um beijo amoroso e agradecido.

A xícara durou mais que o amor. Quando terminou a graduação, Bárbara recebeu um convite para trabalhar no Ceará, em Tianguá. Tadeu estava no 6º. período. Ainda cogitou trancar o curso e ir com ela, mas ela não concordou. Ficariam a distância, alimentando o amor, dariam um jeito de resistir.

Não resistiu. Oito meses depois que ela foi, o romance acabou. Os contatos foram rareando, as obrigações de ambos foram pedindo mais atenção e algumas situações de romance foram aparecendo. No fim, ambos concordaram que era melhor pôr fim àquilo e seguir as vidas.

Mas Tadeu nunca a esqueceu. Rasgou os cartões que recebeu; apagou as fotos das redes sociais; cortou relações virtuais; deixou enfim de ter contato e lembranças. Só não se livrou da xícara. Para onde ele ia – e ele foi para muitos lugares, muitas vezes, chegou a mudar de estado duas vezes no mesmo ano – levava-a. A xícara era seu vínculo com Bárbara. Uma presença-ausência que ele fazia questão de manter.

Margarete não sabia da história sentimental da xícara, mas sabia do apreço do patrão por aquela coisinha verde musgo desquarado. Por isso ficou triste e apreensiva, quando ela caiu no chão e se espatifou, escorregando dos dedos cheios de espuma de sabão. Juntou todos os cacos, esperou “seu Tadeu” chegar do serviço aquele dia (ela sempre saía antes de ele chegar), explicou a situação, pediu imensas desculpas e não quis receber a diária. Ele disse que não era certo, que “essas coisas acontecem, deixa de besteira, Margarete!”. Colocou o dinheiro na mão dela e se despediu.

Margarete não viu a cara triste que Tadeu fez, abrindo a tampa da lixeira com o pé e jogando os cacos da xícara fora. Nem o suspiro que ele deu, quando a tampa se fechou.

“Já estava mesmo na hora”, ele disse, num sussurro quase inaudível. Mas ele ouviu, e apenas ele precisava ouvir.

SOBRE O AUTOR – Marcos Fábio Belo Matos é professor associado dos cursos de Pedagogia e Jornalismo da UFMA-Imperatriz. Autor de mais de 30 livros, entre textos acadêmicos e literários, entre os quais: “O 18o. Andar” (Novela, 2017, vencedora do Edital de Literatura da Fapema); “Palavras no Avesso” (Crônicas, 2018, vencedor do Edital Edelvira Marques, da Prefeitura de Imperatriz); “Veritas” (Contos, 2024, vencedor do 1o. Concurso Literário da Academia Ludovicense de Letras e do Prêmio Literário da Academia Imperatrizense de Letras). É membro das Academias Bacabelense e Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz.

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