sábado, 17 de outubro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #049 – “DR” EM DOSE DUPLA (Heloy Melonio)

Publicado em 28 de setembro de 2025, às 0:06

Que a vida é uma escola, todos sabemos. Que pode ser uma peça de teatro sem ensaios, também não é novidade. E que o tempo é mestre, já nos foi ensinado algum dia. O que nos falta, talvez, seja matricularmo-nos nessa escola, viver esse tempo que passa e esperarmos o momento certo para entrar ou sair de cena.

E você, caro leitor, terá a oportunidade de decidir a lição a ser aprendida na claridade da vida ou na penumbra do palco.

Nesse contexto filosófico, Raí, Elton, Lara e Samira se encontraram numa mesa da vida, de onde nasceu uma amizade que se consolidou. Ficaram tão íntimos que não se sabia se realmente eram só amigos. Em momentos de descontração, abraçavam-se, beijavam-se. Mas, até então, eram apenas amigos.

Tudo começa no restaurante de uma universidade federal, em 1998. Uma amizade espontânea, pois eram de cursos diferentes. Eles e os outros seis estavam sempre juntos –  dentro e fora do campus. E quase todos já tinham mais de vinte anos, pois não passaram em seus primeiros vestibulares.

O tempo passou, e a vida foi tomando novos rumos.

Alguns entraram para o mercado de trabalho, outros prosseguiram na vida acadêmica. Elton e Raí eram economistas: o primeiro, executivo de uma multinacional, o segundo, gerente de um grande banco. Lara e Samira decidiram pelo mestrado. Nessa circunstância, o grupo não resistiu à aridez dos novos tempos. Mais raros, seus encontros aconteciam em lugar antecipadamente escolhido. O último foi numa pousada, em Barreirinhas, principal cidade dos Lençóis Maranhenses, a 260 Km da capital, São Luís. Apenas sete apareceram. Entre eles, os quatro “inseparáveis” desde os primeiros dias de vida universitária.

Samira, a mais jovem e a mais cortejada. Não era bonita, mas era charmosa. Ou melhor, “gostosinha”, no jargão da galera da universidade. Cabelos castanhos, seios a perder vista, quadris largos, pernas torneadas. Lara, loirinha de baixa estatura, tímida. Os outros…

Dois anos mais tarde, um vazio ameaçava a continuação do grupo. Os laços de amizade afrouxaram-se, exceto para quem ainda morava na mesma cidade. Em especial, nossas personagens que, agora, já mantinham um relacionamento amoroso definido. A vida e o tempo os ajudaram a redefinir prioridades. Bem empregados, já passava da hora de cada um formalizar a união com seu respectivo par. Elton se casou com Lara, em 2005. No ano seguinte, foi a vez de Raí casar-se com Samira.

Esses remanescentes agora se ocupavam de suas famílias e carreiras. Mas, frequentemente, encontravam um momento nos barzinhos e pizzarias da vida, e na praia aos domingos. Assunto não faltava: farras, paqueras, viagens. Gastavam mais tempo revisitando o passado do que falando do presente ou do futuro. Mas nem tudo era revelado, porque cada um tinha seus “segredinhos”, daqueles que não se contam a ninguém, se é que isso existe.

Num certo dia de dezembro, Samira, ávida seguidora do horóscopo, leu a previsão para o ano novo: “É hora de viver novas experiências. Prepare-se para grandes emoções”.

O tempo passava, e a vida lhes reservava fortes surpresas.

Enquanto isso, um novo cenário ameaçava a estabilidade dessa amizade. Dois anos após seu casamento, Samira via-se num affair que já se desenhava desde a faculdade, quando ela e Elton se “pegavam” aqui e ali. Reavivaram uma irresistível atração, mas não se consideravam namorados. Apenas aquela velha “amizade colorida”.

Num de seus encontros, Samira sugeriu o fim dos encontros:

– Então você quer acabar com nossas saídas? É isso mesmo?

– Não assim de uma vez, mas… Não podemos passar a vida inteira fazendo isso, não acha?

– Só acho que não se pode acabar com o que nos satisfaz.

Essa discussão se tornou rotina, mas não dava em nada. Eles não dispunham de tanto tempo para jogar conversa fora. Cinco minutos depois, estavam nas nuvens. Na cama, uma tabelinha de dar inveja à dupla Bebeto e Romário, na Copa de 94. Se casados, esse chamego talvez não fosse assim tão inebriante. As relações conjugais iam bem, e não havia razão para buscar prazer fora do aconchego do lar. Mas as coisas da paixão nem sempre pedem explicação.

Certa noite, curtiam uma social num barzinho. Raí, exímio bebedor de vinho, sugeriu um brinde com um Cabernet Sauvignon. Lá pelas 23h, Lara percebeu que Samira e Elton saíram para o banheiro quase ao mesmo tempo. E percebeu certa demora dos dois. Levantou-se num ímpeto, e também foi ao banheiro. E viu que o marido segurava furtivamente o dedo mindinho da mão esquerda de Samira enquanto voltavam à mesa. “Apenas um gesto carinhoso”, pensou. Fingiu não ter visto nada, e até sorriu para os dois. “E se for algo mais sério?”, alertou seu instinto de mulher.

Insensível, o tempo segue seu curso, e o teatro da vida pode ter cenas perigosas.

Desconfiada, certo dia Lara contratou um táxi para seguir o marido quando ele saía para o almoço. Já estava quase convencida de que exagerara em sua imaginação. Mesmo assim, decidiu por uma terceira investigação. E aí, a cena indesejada: viu Samira entrar no carro de Elton. Seguiu-os até o LOVE PLUS, um motel de segunda categoria, perto do centro.

Ficou evidente que o marido e sua best friend tinham um caso. E agora? De espírito calmo, manteve-se calada e indiferente por alguns dias. Mas algumas questões a incomodavam. Separar-se ou aceitar a pecha de “chifruda” acomodada? Não, não aceitaria tal situação. Mas um escândalo, — e Clara, a filhinha de quatro anos — certamente pesariam numa decisão mais dramática. “Será que alguém já sabe disso?”, indagava-se.

Do horóscopo, Samira se ligou à canção dos Fevers (1971): “Nem sempre o sol brilha/ Também há dias em que a chuva cai”. Morria de medo que essa chuva chegasse aos ouvidos do marido e de sua melhor amiga. Sentia-se aliviada porque já tentara — algumas vezes — encerrar o caso. Dos males, o menor: saidinhas mais escassas. Mas continuou no caminho aparentemente mais fácil, sob os aplausos de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar/ Vida leva eu”.

O tempo se revelava esse “mestre” de que falam os poetas. Não o tempo que passa ao léu, mas o que é monitorado por uma mente capaz de, na hora certa, aceitar ou rejeitar os desígnios da vida. Porque nem o tempo nem a vida abdicam de sua missão pedagógica. E Lara parecia aprender, no devido tempo, algumas dessas lições. Mas, ao contrário do poema gonçalvino, achava-se “fraca” para esse tipo de combate.

Quarta-feira, 13h45, Samira e Elton recebem um interfonema no HAPPY END, um motel de luxo afastado do centro. O gerente informava que — se assim o desejassem — seriam bem-vindos ao quarto 13, ao lado do que estavam. Um casal adepto do “suingue” os convidava para tomar uma taça de vinho Cabernet Sauvignon, safra 1960. E antecipou que os anfitriões eram pessoas simpáticas e discretas. E que a porta estaria entreaberta.

Samira e Elton hesitaram por um minuto. Esse tipo de orgia não era a sua praia. Não por repelir a prática, mas porque seu tempo de cama era restrito. Mas, considerando que, nesse dia, tinham mais tempo disponível, podiam dar-se ao luxo de se demorar um pouco mais. E um convite assim era sui generis — e, no mínimo, mais atrativo. Elton se antecipou: “Por que não? Tudo tem seu tempo”. Puseram toalhas e passaram para o quarto 13. O casal anfitrião, sob o cobertor da luz vermelha, saudou seus tão-esperados parceiros: “Surpriiiise!”

O experiente Elton sabia o enredo desse samba antes de se jogar na passarela da volúpia. Samira parecia ouvir a voz de seu signo: “Encontros improváveis podem levá-la ao cume do prazer”. Mesmo na penumbra, uma lição logo ficaria clara: o tempo mostra que a escola da vida, na hora certa, revela os verdadeiros atores.

Os anfitriões ligaram a luz amarela. E, enfim, Samira e Elton estavam frente a frente com seus respectivos cônjuges.

SOBRE O AUTOR – Eloy Melonio – Maranhense de São Luís, professor, escritor e letrista. Graduado em Letras (FAMA/2007). Membro da AMEI e da APB (Academia Poética Brasileira/2018). Livros publicados: Dentro De Mim (2015) e Travessia (2021). Idealizou o “Dia Municipal da Poesia” (Lei 6.394). Concursos de poemas: 3º Lugar no III FESTMACPU (UEMA/2017) e 2º lugar no I Concurso de Poemas da APB (2024). Em 2021, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo da Câmara Municipal de São Luís. É colunista de alguns sites, entre eles o FACETUBES (APB) e Blog do Ed Wilson.

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