Ela separava as peças por cores. Das mais claras às mais escuras, sempre deixando todas bem dobradas dentro das enormes sacolas de plástico que arrastava de casa em casa. Era de manhã. Sol firme. Trancou o cadeado do portão e quase perdeu a chave quando tentou se equilibrar com as sacolas. Antes de seguir ladeira acima, limpou o suor da testa com uma toalha de rosto desfiada.
Aquela era Rosângela. Mãe de dois filhos, com mais de quarenta anos de idade e casada com um motorista da firma. Os pés não se desequilibraram com a plataforma marrom que calçava e o corpo seguia adaptado à saia jeans que passava dos joelhos. Mas o que mais sabia fazer era agradar seus clientes. Vendia blusas, vestidos, saias, até biquínis que lhe arrancavam risadas quando exibidos. Nunca usaria algo tão escandaloso, como dizia, safado demais para uma mulher casada. E naquela manhã, no entanto, tinha um endereço específico para visitar. Ficavam logo ali, no alto da ladeira, em um condomínio fechado, com direito a guarita e câmera de segurança no portão.
Rose esbugalhou os olhos para a câmera. Como a dona da casa já havia deixado avisado, passou pelas grades pesadas com facilidade. Do lado de dentro seguiu pelo meio da rua vazia, tão limpa em comparação a sua. Ela tocou no interfone da casa de porta de vidro e gramado aparado. Não havia muros por ali.
– Entra Rose, você chegou bem na hora.
Uma loira em um macacão de cor terracota apertou em um botão e a porta se abriu. Rose entrou sem muita cerimônia. Já conhecia Lindalva desde a adolescência, apesar da loira ter tido uma vida fácil com sua família bem abastada. Rose sabia do marido médico de Lindalva e vez ou outra se comparava, apesar das repreensões que fazia a si mesma na sua mente. Se tinha todo dia o que comer e um trabalho digno, era preciso agradecer.
Lindalva pediu para que Rose a ajudasse a descer o zíper do macacão. A sacoleira atendeu. Colocou as suas sacolas em uma mesa perto do guarda-roupas planejado e de lá retirou algumas peças de roupa que a loira havia encomendado. Se tudo saísse bem, Rose não voltaria com nenhuma daquelas peças para casa.
Rosângela olhou para a cliente com um pouco mais de atenção. Ela não usava apenas um sutiã, mas também uma cinta que apertava a sua barriga. Viu o rosto de Lindalva com menos marcas de expressão causadas pelo tempo. Para onde estava escoando a sua velhice? Por fim, a cliente se deteve em um vestido branco. Simples, de alça fina. Usaria ele sem sutiã.
– Me diga uma coisa Rose. Esse ficou realmente bom?
Rose levantou a cabeça. Estava entretida separando algumas roupas.
– Mulher, você fica linda de qualquer jeito. Esse aí deu uma boa realçada nos teus peitos.
Lindalva passou as mãos pelos seios pequenos.
– É… talvez. – tirou os olhos do seu reflexo e mirou em Rose. – Mas não é o suficiente para a ocasião. Vou comprar, mas quero que você encontre um vestido um pouco mais justo. Quando viaja?
A viagem. Como ela poderia ter esquecido?
– Amanhã cedo desço pra Goiânia.
– Traga mais dois vestidos desse modelo, só que de cores diferentes. Você sabe do meu gosto, então tenho certeza que vai acertar.
Rosângela já havia guardado o restante da sua mercadoria. Não tinha sido uma venda como ela esperava, mas pelo menos não havia saído no prejuízo.
– Eu também queria pedir um favor. – Lindalva agora estava do lado de Rose. Queria que ela escutasse bem o que iria falar. – Na mesma feira onde você compra as roupas, tem uma loja de espelhos. Quero um daqueles da moda, um orgânico. O nome da loja… hum, deixe-me lembrar. – Ela pegou o celular e rolou o dedo pela tela por cerca de um minuto. – É a Metanoia Espelhos. Traz um pequeno, quero colocar na minha loja. É um daqueles que é trincado no meio.
Rosângela recebeu o valor do objeto em dinheiro vivo e concordou que faria aquele favor. Aliás, elas se conheciam há muito tempo, não era um incômodo. Rose tentava engolir aquele pensamento a todo custo. Sentiu um frio na barriga com aquele pedido. Mas como não ia lhe custar nada, um pequeno desvio de rota na grande feira de Goiânia não ia ser tão desgastante assim…
Rosângela acordou com alguém sacudindo o seu ombro. Estava sentada na poltrona de número 3 no ônibus que saiu de Imperatriz a Goiânia de uma madrugada a outra. Já havia passado das 23h00 e a movimentação nas barracas, nas pequenas lojas e nas lanchonetes de piso pegajoso, era intensa. Ela tinha até as 8h00 da manhã para fazer suas compras, tomar café e voltar para o ônibus. Com apenas uma bolsa de alça comprida, onde estava todo o seu dinheiro, ela se misturou com a multidão de homens e mulheres. Tornou-se uma massa entre as negociações de preço, de descontos, dos gritos entre os furtos e das vozes das pessoas que transformavam seu dinheiro em bolsas e sacolas imensas, cheias de mercadorias que iam de fábricas para as pequenas cidades e lugarejos quase que intocados do país.
Depois de um tempo, os braços de Rose já estavam vermelhos de tanto segurar as sacolas pesadas. Agitou-se quando de repente veio à sua memória o pedido especial de sua cliente. Levou suas mercadorias até o ônibus e voltou correndo para um corredor estreito de loja pequenas com a iluminação comprometida pelas roupas penduradas até o teto.
O relógio marcava 3h00 da manhã. Metanoia Espelhos estava diante dela. Tão apertada quanto as outras lojas. Rose entrou um pouco tímida. Todos aqueles espelhos ampliando a sua cabeça, tronco, pernas. Estes diminuíram suas mãos, braços e tornozelos. Fragmentavam a sua imagem em pedaços desconexos. Se sentia fatiada. Não via a hora de sair dali.
No balcão um homem a atendeu sorrindo. Exagerado. Duro. Rose pediu pelo espelho rachado, por mais estranho que aquilo pudesse parecer. Ele sumiu por uns instantes e já retornou com o espelho envolto em papelão e fitas. Se justificou dizendo que Lindalva havia encomendado por telefone. Rose pagou e voltou o sorriso para o vendedor. Depois disso, arrastou sua rasteirinha seca até o corredor mal iluminado. Chega. Já havia feito demais por uma madrugada só.
A poltrona do ônibus parecia dura. Havia caído no sono repentinamente e acordou quando sentiu alguém se aproximar. Era uma mulher de pescoço longo. Rose notou o cabelo brilhante, curto, estático. A moça, que talvez tinha seus vinte três anos, tinha pele mais pálida que Rosângela vira na vida. Será que era algum tipo de anemia? A nova passageira virou o pescoço para Rose de forma tão rápida que ela se assustou. Os olhos eram rígidos, sem pálpebras. Tinha um sorriso duro como o do vendedor da loja de espelhos.
Ela se chamava Catarina. Rose a cumprimentou. A pele cinzenta não era fria e nem quente. Viu um contorno no antebraço dela e uns fiapos plásticos. Talvez um fio da roupa que ela usava. Rose virou o rosto para a janela. Goiânia parecia tão mórbida naquele dia, apesar do céu claro e sem nuvens. Ela só queria chegar em casa. Ainda sentia-se fatiada por espelhos.
24 horas depois ela recebeu uma ligação de Lindalva. Rose já estava na rodoviária. Havia trocado apenas algumas palavras com Catarina, a moça que se movia estranhamente pelo ônibus. Rose nunca tinha visto uma cintura humana tão fina. Quando ambas estavam do lado de fora, trocaram algumas ideias sobre a viagem. Por uma grande coincidência, Catarina conhecia Lindalva e estava indo naquele momento para a loja dela. Perguntou se ela podia acompanhar Rose, já que era a sua primeira vez na cidade. Rosângela não quis soar mal educada e aceitou. Tomaram um táxi e foram até o endereço indicado, no centro da cidade.
A loja de Lindalva ficava em uma esquina privilegiada. Rose sonhava em um dia ter aquilo também. Só que o segmento de sua cliente loira era a venda de manequins e outras um zilhão de coisas. A grande inauguração seria em breve e Lindalva parecia radiante naquele dia, principalmente ao abraçar Catarina com força.
– Trouxe a encomenda? – essa foi a primeira frase direcionada a Rose naquele dia. A sacoleira engoliu um “bom dia” e “obrigado” irônico que ia soltar.
– Tá aqui. – Rosângela estendeu o pacote para ela.
Lindalva trancou a porta da loja. Rose foi até o bebedouro que encontrou em meio àquela bagunça de manequins despedaçados e caixas e mais caixas de papelão empilhadas. A água bateu no estômago vazio. Ela ouviu a voz de Lindalva chamando o seu nome.
– Olha que coisa linda Rose, já me sinto até mais bonita olhando pra ele.
Rosângela agora tinha de certeza que sua cliente tinha algum problema sério. Era nada mais do que um espelho trincado ao meio e com formato de omelete. Aquilo nas mãos dela facilmente iria para o lixo. O rosto de Lindalva aparecia repartido em dois, deixando assim seus olhos desiguais e sua boca distorcida enquanto falava.
Mas foi nesse momento que Rosângela sentiu alguém atrás dela segurar o seu braço com muita força. Antes que gritasse, viu Catarina atrás de si. A mulher perdera as suas poucas feições humanas e agora tinha o rosto sem expressividade de um boneco de plástico, somente as suas mãos se moviam e interrompiam a corrente sanguínea de Rose.
– Catarina veio te acompanhar para que nada saísse do planejado. – disse Lindalva, ainda se olhando no espelho. – Essa semana vai ser a grande inauguração da minha loja e Rose, você é minha convidada de honra. Vai receber todos os clientes com um sorriso no rosto. Sabe, estou te fazendo um grande favor. Vai ser tão gostosa quanto eu e Catarina.
Catarina tapou a boca de Rosângela. A sacoleira via seu rosto fatiado no espelho quebrado. Ela se debatia como peixe capturado, onde cada movimento faz com que o anzol afiado entre mais fundo, dilacerando a carne. Perdeu o movimento dos membros, até tombar no chão repentinamente. Seus dois braços, agora feitos de plástico pálido, se soltaram do seu corpo. Estava fatiada.
Lindalva levantou uma taça de champanhe de maçã para o alto. A música tocava enquanto as pessoas iam se achegando à nova loja da cidade. A Metanoia Shopping do Lojista tinha dois andares repletos dos mais diversos produtos, como cabides, araras, armários, belos balcões e os mais diversos modelos de manequins.
A sua única funcionária da loja, chamada Catarina, servia os convidados com alguns salgadinhos. Ela passava por todo o estabelecimento, garantindo que tudo estava em ordem enquanto a patroa ria diante das câmeras.
Catarina foi até a vitrine. Cinco manequins femininos e dois masculinos estavam virados para a rua. Cada pessoa que passava parava ou dava uma olhada rápida para o que estava exposto ali. O que um dia foi Rosângela agora vestia 36. Catarina pôs nela um biquíni fino, de cor laranja e, no alto da cabeça careca, uma peruca de um cabelo liso castanho. Pendurou uma bolsa artesanal no seu ombro e uma sandália número 33 nos seus pés.
– Que conjuntinho lindo moça, pode tirar ele para eu provar?
Ao ouvir aquele pedido da cliente jovem, pegou o manequim e levou para o provador mais próximo. Tirou o biquíni, a peruca e a bolsa. Deixou a boneca nua, virada de costas e encostada na parede no canto escuro. Ficaria ali até que encontrasse alguma roupa ao gosto da patroa. Não havia pressa. Seria montada e desmontada inúmeras vezes, até por fim ser esmagada dentro de um caminhão de lixo qualquer.

SOBRE O AUTOR – João Marcos reside em João Lisboa, no estado do Maranhão. É mestrando em Comunicação Social e formado em Comunicação Social/Jornalismo, ambos pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além de sua vasta produção literária em contos, publicou o livro-reportagem “A Sombra da Gameleira: histórias e memória de cidade de João Lisboa” (2021) e, no campo da ficção, lançou “O Círculo de Fogo” (2022) e “Cucacanga” (2024).Também é criador do projeto de incentivo à leitura, o Ler Transforma, e é membro fundador da Academia de Ciências, Letras e Artes de João Lisboa (ACLAJOL).