Quando cheguei à casa entranhei encontrar um copo vazio na mesinha de centro da sala de estar. Não sei por que ele fez isso. Não fazemos isso, essa mesa foi herança do pai, que fazia móveis de mogno e todos na família brigaram por esses móveis de madeira feitos pelo falecido.
Hoje, percebi que algo estranho na casa me acompanhava. Uma companhia que eu não via, mas sabia da existência, pois a sentia em cada cômodo que adentrava. O que era mais esquisito é não ser algo que veio comigo da rua, mas estava na casa, e que também percebeu minha existência assim que adentrei.
Comecei a vasculhar outros objetos, tentando encontrar algo fora do lugar. Além do copo, nada parecia diferente, a não ser aquela presença. Ela preenchia todo o ambiente. Nunca tive medo de coisas sobrenaturais, mas comecei a acreditar que algo naquele lugar estava me dizendo que eu precisava notar o provável acontecimento de algo que eu não gostaria de ter presenciado.
Foi muito certo na minha mente, aconteceu algo aqui, será que dona Lúcia veio visitá-lo, falou mal de mim, ele foi me defender e brigaram? Mil pensamentos invadiam minha mente. Se ele pelo menos atendesse ao telefone. Merda! Esqueceu o celular. Não tem nada estranho nesse celular.
– Alô? Dona Lúcia? Tudo bem?
– Sim, querida! Preciso falar com Rafael, ele está?
– Ele deve ter ido aqui perto, cheguei há pouco e não o encontrei em casa. Acabei de encontrar o celular dele, deve ter esquecido, ou foi em algum lugar próximo e decidiu não o levar.
– Estranho, não é melhor ir procurá-lo?
– Não, não, vou esperá-lo em casa, deve chegar já já.
– Tudo bem, acho um pouco estranho você não se preocupar, mas…
– Ok, dona Lúcia, assim que ele chegar aviso que a senhora ligou, tchau!
Que mulher chata, não vou me preocupar, mas quase falei que ele que não deixava um livro em cima da mesinha de centro, deixou um copo úmido. Enfim, vou fazer um café, quando ele chegar digo que não é bom sair sem o celular, quando ele entrar pela porta vai sentir o cheiro e vai ficar feliz antes mesmo de me ver!
Nossa, até esqueci da presença entranha dentro dessa casa quando senti o aroma do café!
– Rafa!! Onde você estava? Por que não levou o celular?
– Fui à padaria aqui perto, não vi necessidade de levar!
– Tua mãe ligou!
– Daqui a pouco ligo para ela!
– Não, Não!!! Liga logo, se não ela vai dizer que eu não avisei que ela ligou!
– Deixa de besteira, Renata! Quero tomar café com esse pão quentinho, depois retorno a ligação dela, venha, sente-se aqui.
Por que o som do café caindo dentro da xícara parece estar mais alto do que normalmente está? Ou será que nunca havia notado esse som?
– Rafa…
– Renata, por que o som do café caindo dentro da xícara parece …
– REnataaaa!!! Não corre, por que você está correndo?
– Vou sair de casa, estou com medo de ficar aqui, que coisa sombria, sensação esquisita de companhia sem ver ninguém além de você.
– Eu também estou sentindo isso, mas não vou sair correndo para rua… kkk
– Para de rir, Rafa, quero sair daqui, não estou me sentindo bem!
– Ah, por que você deixou um copo em cima da mesinha que era do seu pai?
– Onde? Meu pai do céu, por que você fez isso, Renata? Você sabe que eu não gosto de colocar nada nessa mesa!
– Mas eu não coloquei esse copo aí, inclusive achei muito estranho quando cheguei e vi esse copo em cima da mesa.
Essa presença estranha me acompanhou na padaria, em casa, como não percebi esse copo em cima da mesinha de papai?
Nós sempre planejamos fazer algo que não queremos fazer, mas precisamos fazer. Com isso, sempre quero plantar provas onde não deveria haver vestígio para mostrar que sou mais sã do que pareço ser. No entanto, mostro, com minhas atitudes, que estou louca e inconsequente. Ele é ótimo para mim. Me ajuda emocionalmente e financeiramente. Me faz companhia e sempre percebe quando não estou bem.
Não lhe agradar, e desconfiar dele, me faz parecer ingrata e doida. Quando fiquei chateada de ele me deixar sozinha na casa da minha mãe e vir dormir em casa sozinho também, não foi a tristeza que me invadiu, foi a raiva, e raiva move, a tristeza deprime. Eu não estava angustiada, estava enraivecida, com vontade de criar nele a sensação de que, se há algum louco (a), não deve ser eu, que, na maioria das vezes, sempre “é”.
Cheguei imaginando a cena daquela mesa idiota cheia de copos molhados em cima. Quando chega à casa da minha mãe ele deita e faz o que quer, aqui, onde moro, nem meu pé pode tocar aquele móvel.
Deixar um copo ali pode parecer tão simples, mas o deixaria louco. Assim o fiz. O deixei louco, imaginei tão bem a cena que até duvidei se haveria de ter sido eu mesma a plantar aquela prova dizendo que não havia sido.
Depois de vê-lo duvidar de mim e de si mesmo, resolvi colaborar. Disse que talvez eu mesma havia colocado e não lembrava de nada. Mas ele mesmo disse que eu nunca havia feito isso, por que faria agora? Isso é muito estranho, falou.
Vi uma gota de suor nervoso escorrer pela lateral dos olhos dele que ao longe confundia-se com uma lágrima, o sal de ambas deixa os olhos vermelhos, não sei se foi o que aconteceu, mas foi o que vi. Ele chorou. Nunca o vi chorar. Não sei se tive mais raiva ou pena. Nunca chorou por mim, mas estava chorando agora por causa de um copo vazio.
Mas e essa presença?! Exclamou perguntando, bom, com isso eu também não contava. De fato, notei uma presença estranha, mas acreditava ser minha consciência gritando para que eu não agisse daquela forma idiota. Perguntei por que ele estava chorando e fui abraçá-lo. Ao corresponder ao abraço, me disse que achava que estava ficando louco.
Bem, era isso que eu queria, que ele sentisse essa sensação tão forte a ponto de não saber se era verdade ou mentira. Eu não podia retroceder. Permaneci irredutível. Continuei a fazer reflexões altas e concordar com as coisas que ele falava, até que a mãe dele ligou novamente reclamando porque ele atendeu ao telefone em casa e ainda não havia retornado a ligação.
Na conversa, ouvi ele dizendo: isso também aconteceu aqui, mas ainda acho que algum de nós esqueceu e pôs o copo na mesinha. Perguntei o que houve assim que ele desligou e ele disse que a mãe estava se sentindo mal, que sentia que alguém a estava acompanhando e que a mesa de centro da casa – igual a nossa – tinha um copo em cima, e que não lembrava de tê-lo colocado ali, pois ninguém colocava nada em cima desse móvel.
– Bem, querido, vai ver teu pai veio revogar os móveis de madeira dele. Para isso, deixou um copo vazio, para mostrar que esse cuidado excessivo de vocês é desnecessário.
– Não gostei da brincadeira, eu estou aqui em lágrimas, minha mãe desesperada e você brincando com uma situação estranha dessas.
– Desculpa, estou nervosa, não sei o que dizer. Vou dormir um pouco, não dormi nada na casa de mamãe sem você lá. Não estou me sentindo bem, me acorda daqui a uns minutos, ou venha deitar-se também, descansar um pouco.
– Pode ir, daqui a pouco irei. Por enquanto, quero entender quem foi essa mulher que entrou aqui e deixou esse copo.
– Como você sabe que é uma mulher?
– Acho que tem uma marca de batom no copo.
– Estranho, dormi sozinho aqui, como poderia uma mulher ter deixado esse copo aqui?
– Rafael, você dormiu sozinho mesmo? Por que você veio embora e me deixou dormindo sozinha na casa da minha mãe?

SOBRE A AUTORA – Daphne Jardim Sampaio Silva. Graduada em Comunicação Social e em Letras pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Mestra em Letras pela UFMA.
Desenvolveu a pesquisa: A narrativa fictícia escrita por fãs de Literatura Brasileira na internet: análise comparativa de fanfictions de Dom Casmurro (Machado de Assis), agora publicada como livro.
Ministra aulas de Literatura, Língua Espanhola e Língua Portuguesa.