Um veterano agente de trânsito, Ribeiro é mais um exemplo clássico de como os mais espertos sempre procuram o caminho mais fácil para se dar bem, usando como estratégia o famoso “jeitinho”. É constrangedor, mas irônico o que ocorreu com Ribeiro. Convidados para um almoço de boas-vindas do tio de sua namorada, e para impressioná-la, pensando em levantar um ganha fácil, aborda um motorista e, sem saber de quem se tratava e pensando ser um cidadão comum, cria alguns pretextos para conseguir alguma propina.
Aquele, definitivamente, não era um bom dia para Ribeiro. Era uma tarde abafada, e o guarda de trânsito Ribeiro estava de mau humor. Seus plantões intermináveis na BR-010 em Imperatriz. O trânsito estava infernal, o sol escaldante criava miragens no solo do asfalto e nenhuma nuvem sequer dava o ar da graça. A namorada era um tanto exigente, o final de semana do evento se aproximando, uma roupa nova, uns sapatos bacanas eram o mínimo com que deveria se apresentar, mas com o orçamento estourado tudo isso estava lhe tirando a paciência, e ele começava a alimentar a ideia de que precisava “dar um jeito” de levantar algum dinheiro extra. Ele já conhecia as manhas: uma abordagem aqui, uma multa ali, e se o motorista estivesse nervoso o bastante, um aceno sutil poderia resolver tudo — sem muito esforço.
Foi então que ele viu um carro de luxo se aproximando. O modelo brilhante chamou sua atenção. “Essa vai ser fácil”, pensou, já se preparando para criar uma justificativa para a abordagem. Com um gesto firme, sinalizou para o motorista encostar. O carro parou suavemente e Ribeiro caminhou até a janela, já com o discurso pronto.
— Boa tarde, senhor. Documentos, por favor — disse Ribeiro, com um tom de autoridade exagerado, enquanto analisava o motorista com um olhar crítico. O homem, de terno impecável, entregou a carteira de motorista e os documentos do veículo sem hesitar. Seu semblante era calmo, mas sério.
Ribeiro olhou os documentos por alguns segundos e, sem encontrar nenhum problema real, decidiu improvisar.
— Parece que seu veículo está com a placa um pouco desgastada. Isso pode gerar uma multa, senhor — disse, enquanto franzia o cenho de forma teatral.
O motorista levantou uma sobrancelha, mas continuou em silêncio, apenas observando o guarda com paciência.
— Além disso, estou percebendo que seus pneus parecem um pouco carecas. Sabe que isso também é uma infração, certo? — continuou Ribeiro, na esperança de que o homem começasse a demonstrar nervosismo e tentasse “resolver” a situação ali mesmo, com algum dinheiro.
O motorista inclinou-se levemente para frente, como se estivesse analisando as palavras de Ribeiro. Depois de alguns segundos, ele abriu um sorriso discreto e disse calmamente:
— Interessante. Sabe, eu sou o novo comandante do batalhão de trânsito. Fui nomeado esta semana. Estava fazendo uma ronda para conhecer o comportamento nas ruas, e você, meu caro, parece estar bastante à vontade em criar pretextos onde não há.
O sangue de Ribeiro gelou instantaneamente. Ele mal acreditava no que acabara de ouvir. O novo comandante? Seus olhos se arregalaram e ele sentiu o peso de suas palavras mal-intencionadas se voltarem contra ele como um tiro certeiro. Tentou disfarçar, mas suas mãos tremiam visivelmente enquanto devolvia os documentos ao motorista.
— Ah, senhor… eu… eu só estava tentando garantir que tudo estivesse em conformidade, sabe… segurança nas vias, e… — Gaguejou, completamente desconcertado. O comandante apenas o observava, sem perder o semblante calmo.
— Não se preocupe, guarda Ribeiro. Amanhã teremos uma reunião no batalhão. Acho que seria uma boa oportunidade para discutirmos condutas como essa. Espero você lá, às oito. Pontualmente.
Sem mais uma palavra, o comandante ligou o carro e foi embora, deixando Ribeiro parado na calçada, pálido e suando. A “propina fácil” se transformou em um pesadelo que agora ameaçava sua carreira.
Na reunião da manhã seguinte, o clima de tensão era evidente entre a corporação, para Ribeiro estava angustiante, sentia a sensação de estar caminhando em direção de uma câmara de tortura. No discurso, o coronel foi enfático no tema das abordagens, mas, percebendo o pavor estampado no rosto de Ribeiro, foi moderadamente discreto e não mencionou seu nome, afirmou que qualquer deslise de algum dos seus comandados, naquele quesito, o infrator sofreria a penalidade cabível.
Um peso descomunal caiu dos ombros de Ribeiro, foi esta a sensação que ele teve após ter assinado uma advertência na sala do comandante, minutos depois da reunião. – para não dizer que você não teve uma oportunidade de corrigir sua conduta, voce terá mais uma chance. – Disse-lhe o comandante. Envergonhado, mas agradecido, Ribeiro sai da sala respirando ofegantemente. – Ufa! Escapei! – Pensou consigo.
Todavia, o final de semana, cuja cerimônia lhe motivou a trapalhada do dia, estava batendo à sua porta. Que o tio de Handara era um figurão importante e que estava chegando na cidade era toda a informação que Ribeiro possuía. Não foi possível comprar a roupa e os sapatos novos, mas uma nova ideia, subitamente, invade a mente do ambicioso cabo Ribeiro: usar um fardamento com uma patente mais elevada certamente iria impressionar e subir no conceito do famoso tio de Handara, sua namorada. Era o que devia fazer. Com o uniforme de um colega da corporação, o sargento Sousa, foi que ele elegantemente se vestiu.
Handara percebeu algo estranho, porém não quis questioná-lo no momento, sua preocupação maior era apresentar o tio ao seu namorado. Ela era de família abastada e era muito importante esta cerimônia de boas-vindas para o irmão de seu pai. Os drinks, os petiscos de entrada antes do prato principal, os risos, as conversas agradáveis, estava tudo perfeito, não fosse aquele momento de: ATENÇÃO TODOS!
Era hora de apresentar aos convivas a figura mais importante e motivo do evento.
Senhoras e senhores, é com indescritível e imensa alegria que damos as boas-vindas e apresentamos aos senhores e senhoras aqui presentes nosso convidado de honra, com quem nos congratulamos e a quem oferecemos este singelo buffet e com vocês… – o orador dá uma pausa, fazendo suspense e conclui: – nosso mais novo comandante da corporação, coronel Silveira! Aplaudam todos!
Nesse momento, Ribeiro ficou petrificado e em pânico, quis recuar, mas Handara imediatamente o arrasta pelo braço para apresentá-lo ao tio. Hesitante, ele tentou não encarar o coronel, mas já era tarde, estavam os dois ali novamente, um diante do outro. O tremor das mãos e o suor gelado que lhe escorria ao pescoço não foram possível esconder.
– Tio, este é o Ribeiro, meu namorado, gostaria de apresentá-lo. – o coronel o encara e, ironicamente, o cumprimenta:
– Como vai tenente? Ou seria Cabo Ribeiro? Bem, aos poucos, a gente vai se conhecendo.
Ribeiro não conseguiu dizer uma palavra. Empalideceu, sem nenhuma reação. Na primeira oportunidade, desprendeu-se da namorada e imediatamente buscou fugir do campo de visão do coronel, que começava a fazer seu discurso de agradecimento antes de todos se servirem. Todos, menos Ribeiro, que não conseguiu mais se manter no local, foi acometido por um desarranjo intestinal e, antes que se regalasse dos inúmeros sabões, correu direto para o banheiro para curtir seus dissabores e de lá não retornou à festa.
Como um tiro que saiu pela culatra, suas tentativas de corrupção acabaram por atingi-lo com uma força que ele nunca poderia ter previsto.

SOBRE O AUTOR – José Conceição da Silva, popularmente Zezinho Silva, é nascido em novembro de 1963, em Santa Inês – MA. Filho de Dejanira e João Valdivino, é casado com Carlisvonete e pai de Jose Henrique, Felipe e Gyanna.
É professor na rede estadual, no Colégio Militar Tiradentes, em Imperatriz.
Ama a literatura de cordel.
É graduado em Letras pela UNIASSELVI.
Tem três livros lançados: As Histórias do Lendário Joaquim da Mata, Um amor todo Especial e As outras aventuras de Joaquim da Mata e três participações, como coautor, em antologias.
É membro da AAL (Academia Aramense de Letras).