sexta-feira, 14 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #041 – A OBRA (Daphne Jardim Sampaio Silva)

Publicado em 20 de julho de 2025, às 8:45

Eu imaginava que a imagem dizia o que eu queria ver. Mas, na verdade, ela aparecia para mostrar o que eu não deveria ter visto. Quando fui à casa de Jorge, vi somente as coisas fora do lugar. Não percebi que havia mais do que bagunça naquele pequeno apartamento. Um lindo quadro atrás do sofá.
Perguntei se poderia organizar os livros e pegar um saco de lixo para armazenar as latinhas e garrafas de cervejas espalhadas pela sala. Ele respondeu que tudo bem, porém, não parecia muito satisfeito com minha atitude. Se alguém chegasse à minha casa e perguntasse se poderia limpá-la, eu abraçaria a pessoa como se ela tivesse me oferecido dinheiro.
Mas Jorge parecia contrariado. Então limpei tudo a contragosto. E queria logo sair dali, como ele havia faltado ao trabalho e não parecia bem após o término do namoro, pensei que estava ajudando quando me disponibilizei a visitá-lo e prontamente ajudei com a casa assim que cheguei no AP.
Ritinha, não precisa pôr as roupas na máquina, eu cuido disso, você já fez muito, pode ir se quiser. Nossa, depois de ouvir isso, não sei se finalmente fiquei feliz com o “agradecimento” ao reconhecer que ajudei, ou se me senti mal por ele praticamente me mandar embora.
Voltei para casa refletindo sobre se de fato ajudei ou fui ajudada. Parece que o ser humano ajuda para ouvir obrigado. Se eu quisesse mesmo ajudá-lo, não ficaria irritada por ele não ter sorrido com minha oferta de limpar aquela imundície. Saí me sentindo bem e leve, parece que ao limpar o apartamento de Jorge, limpei minha inércia de prestar auxílio somente quando sou solicitada.
Entre tantas coisas que passavam pela minha cabeça, estava a estranheza com a qual Jorge me olhou assim que elogiei o quadro. Parece que aquela imagem não pertencia àquele lugar. E ele sabia disso. Tanto que logo se justificou que não era dele, e que iria devolver à ex-namorada assim que pudesse reencontrá-la.
Entendi perfeitamente, afinal é natural querer afastar-se do causador do sofrimento, ou aproximar-se ainda mais. Depende do nível de amor que a pessoa sente por si mesma. Jorge, que não parecia amar alguém, quanto mais a ele próprio, correu atrás de Laura mesmo sabendo que ela o tinha trocado pelo colega da mesa ao lado do escritório de contabilidade da empresa.
Eu trabalho no RH, sabemos de tudo. Nos recursos humanos da empresa chegam as fofocas que temos e que não temos interesse de saber. Quando alguém contou sobre o caso da traição de Laura, ficamos boquiabertos. Aquilo de sempre, nas redes sociais altas declarações, na vida social, baixas emoções. A vida dos dois era basicamente o que sabíamos através das postagens de Laura, visto que ela mostrava desde onde comiam até onde dormiam.
Jorge não ria para nada. Ninguém sabia se ele gostava daquela exposição, também não parecia reclamar, exibia uma indiferença irritante. Tanto que comentávamos que se um dos dois fosse trair, certamente seria Jorge, que não mostrava afeto a nada e a ninguém.
Mas, como dizia o amigo de Joseph Climber: “a vida é uma caixinha de surpresas”. Laura trocou Jorge pelo parceiro de sala da empresa. Inclusive, já o vi rindo mais com esse colega do que com a própria namorada. Após o escândalo, até presumi o clichê de haver a possibilidade de Jorge gostar amorosamente do colega da contabilidade e, por isso, não ser apaixonado pela namorada.
Como nas fofocas sabemos mais da vida dos outros do que da nossa, várias hipóteses foram levantadas. Todos afirmavam certeza na homossexualidade de Jorge, na assexualidade, nos abusos, em tantas coisas, que, às vezes, até eu, que já ouvi de tudo ali, me assustava com a imaginação das pessoas. Por isso, me perguntava o que falariam de mim quando saíam daquela sala. Obviamente, se saíam das suas mesas para comentar sobre a vida dos outros funcionários, saíam de nossa sala e comentavam da nossa vida para os demais.
Nesses pensamentos que surgem sem sabermos por que e sem percebermos quando, um veio disfarçado de sinal divino. Hoje sei disso, mas na época pensei que era mais um devaneio. Aquele quadro atrás do sofá na casa de Jorge escondia algo.
Assim, comecei a comentar, com os colegas mais discretos, que com o sumiço de Jorge de mais de uma semana da empresa, eu como psicóloga e funcionária do RH, precisava saber se ele iria abandonar o cargo ou iria enviar um atestado. Quinze dias se passaram, e nada de Jorge.
Fui até a casa dele, bati dez vezes na porta, pois a campainha parecia não funcionar. O porteiro do condomínio disse que não o via há dias. Ao abrir a porta, Jorge parecia sujo e chateado ao me ver. Perguntei se estava tudo bem, me desculpei por aparecer logo cedo de manhã. Mas, para justificar no trabalho que iria vê-lo, e saber acerca do atestado ou auxiliar psicologicamente, se esse fosse o caso, deveria ir no horário comercial, logo cedo de preferência, já que eu precisava ir trabalhar após a visita.
Ele me deu espaço para adentrar o apartamento, mas não simulou nenhuma simpatia. Logo que vi a loucura do lugar, me ofereci para fazer algo. Nesse momento, vi o quadro, achei lindo, e perguntei de quem era, ele disse que era de um amigo. Comentei que deveria ser um máximo ter um amigo artista, ele respondeu que o quadro de fato era de um amigo, e não que um amigo o havia pintado.
Achei estranho, mas não questionei, depois que elogiei mais a pintura ele confessou que era de Laura. Que ela o havia levado para o lugar porque achava o apartamento muito triste sem um quadro.
Fazia sentido. Foi a única coisa bonita que vi ali. Os objetos pareciam não haver sido comprados, pareciam brindes de aniversário ou depósitos reutilizados, não julgo isso. Já estou julgando tudo. Enfim, não havia TV, aparelho de som, porta-objetos, potes, absolutamente nada além de uma mesa de jantar e um balcão na cozinha o qual esvaziei retirando as muitas latinhas e garrafas.
Ao sair, voltei para casa. Saí ainda cedo pela manhã, então como não havia tomado café, me ofereci para fazê-lo no apartamento de Jorge e tomar com ele, como o recusou, mesmo depois de eu limpar tudo, voltei para tomar café na minha casa. Ao chegar, e depois de pensar tanto, percebi como eu guardo tanta coisa desnecessária. Mas não tinha como fazer outra faxina, tinha que voltar para trabalhar. Lembrei que era dia da coleta de lixo, então fui retirá-lo.
Comecei a organizar os sacos de lixo para os levar para fora, e vi uma pilha de papéis em cima da estante da sala. Lembrei que fazia pelo menos um ano que não olhava aqueles papéis. Fui revistá-los, separei os comprovantes de faturas pagas, amassei os recibos de supermercados, abri um cartão de Dia do Servidor Público, que nem lembrava que havia recebido, e vi outro cartão com uma imagem bem bonita.
A mesma imagem pintada no quadro da sala do apartamento de Jorge. Fiquei tão surpresa que não tive reação. Sou um pouco assim, penso que se eu ganhar na loteria vou agir da mesma forma que ajo quando encontro uma moeda de um real na rua. Não sou uma pessoa empolgada, mas sou curiosa. Voltei para empresa pensando em tudo e não comentei do cartão, mas do quadro de Jorge.
As pessoas respondiam ao meu comentário com desdém, como se eu tivesse observado algo insignificante. Por que um quadro te chamou atenção, Ritinha? Tudo bem ser bonito, mas não acredito ser um espetáculo da arte contemporânea a ponto de você repetir isso novamente, não sei mais o que opinar.
Admito que essa opinião de Carlos me irritou imensamente. Interessante que ele não falou nada a respeito do fato de ter se relacionado com a namorada do amigo. Agia como se nada tivesse relação com a traição dele com o amigo. Fiquei martelando isso na minha cabeça e acabei explodindo. Disse que ele deveria ter vergonha de não se preocupar com Jorge e nem sequer ir visitá-lo.
Alguém comentou que Jorge não iria gostar de uma visita do falso amigo. Mesmo concordando, queria alfinetá-lo. Logo que o fiz, Carlos levantou-se da cadeira próxima à sua mesa e veio furiosamente apontar o dedo frente ao meu rosto e dizer que eu não sabia de nada. Já disse que sou apática, então agi com calma e respondi que não sabia de nada mesmo.
Aproveitei o clima tenso e fui até a sala do coordenador do andar. Comuniquei que havia visitado Jorge e que ele não parecia bem, e que não me entregou um atestado, falei que seria interessante uma ajuda terapêutica. O coordenador deu uma gargalhada e disse que todo corno precisa de ajuda terapêutica. Perguntei qual era o próximo passo burocrático, já que eu precisava justificar no sistema a ausência do funcionário. Ele disse que Jorge nunca havia faltado ou ficado doente, pelo menos no último ano, que tentaria conversar com ele, justificando que a outro homem ele poderia desabafar e resolver buscar ajuda profissional.
Notei embaixo do computador do coordenador a ponta do que parecia um cartão igual ao meu. Àquele que encontrei em casa com a imagem do quadro da casa de Jorge. Perguntei se poderia vê-lo, o coordenador retirou-o debaixo do notebook e entregou-me. Comentei que na casa de Jorge havia um quadro igual àquela imagem. Ele não demonstrou surpresa e disse que era normal ter um quadro de um amiga em casa.
Continuei sem entender, e disse que o quadro, na verdade, era de Laura. O coordenador assentiu, e perguntou se eu não sabia que ela havia dado aquela imagem em cartão a todos da empresa divulgando o trabalho como artista plástica. Dessa vez fiquei admirada, não sabia que Laura pintava, e era lindo o quadro. Eu tenho esse cartão, mas não lembrava onde tinha recebido. Ele disse que Laura o entregou na empresa, e às pessoas que não estavam no momento, ela deixou em cima da mesa.
Não lembro se perguntei de quem era o cartão, e não entendi por que achei tão bonita a imagem e não tive a mesma reação ao vê-la na minha casa em um papel esquecido, já que estava comigo há aproximadamente um ano. Essa curiosidade ficou em minha mente até que à noite, ao tentar dormir, notei que a imagem ampliada no quadro mostrava formas que não apareciam no cartão, e essas formas pareciam rostos iguais, ao fundo o céu ensolarado de um início de tarde alaranjado. Os rostos pareciam conhecidos, mas ao mesmo tempo um espectro que poderia ser qualquer pessoa.
Levantei e peguei o cartão da estante, tirei uma foto do celular e ampliei. As imagens pareciam sumir nos raios de sol juntamente às nuvens e a cor laranja da pintura. Comecei a ficar enjoada, a princípio pensei que era a baixa luminosidade da sala, resolvi acender a outra lâmpada da lateral e ampliar outra parte da imagem, percebi que havia um nome em alguma parte de cada rosto, liguei o computador e abri o google fotos, a imagem estava mais clara com a tela maior, fui ampliando e escrevendo os nomes.
Eram apelidos, xingamentos, e os rostos, pareciam reversos. Coloquei a tela em frente ao espelho, e uma das caras desenhadas parecia comigo, e o nome escrito nela era Ritinha sapatão. No rosto que parecia o de Jorge havia corno abusador, no de Carlos estava algo como gay amigo de ninguém, o coordenador exibia claramente na face o nome imoral. A moça da fotocopiadora também aparecia no quadro e nela estava escrito ladra. Algumas imagens eu não reconheci, outras não consigo descrever. Amanhã irei nesse endereço da exposição, vou perguntar a Laura se ela também não vai me entregar um atestado e se eu ganho um desconto na obra por ter percebido as imagens ilustradas.

SOBRE A AUTORA – Daphne Jardim Sampaio Silva. Graduada em Comunicação Social e em Letras pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Mestra em Letras pela UFMA.
Desenvolveu a pesquisa: A narrativa fictícia escrita por fãs de Literatura Brasileira na internet: análise comparativa de fanfictions de Dom Casmurro (Machado de Assis), agora publicada como livro.
Ministra aulas de Literatura, Língua Espanhola e Língua Portuguesa.

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