Certamente, a música sertaneja é um dos estilos mais escutados e apreciados do Brasil no panorama musical contemporâneo, de acordo com um ranking produzido pela Pró-Música Brasil em 2024. Surgida no começo do século XX, sua história está intimamente ligada com a cultura do país, caracterizada por influências rítmicas africanas, indígenas e europeias. Contudo, mesmo com suas raízes profundamente enraizadas na cultura negra brasileira, a representação de artistas negros no universo do sertanejo tornou-se quase inexistente. O que antes era visto com maior frequência foi, ao longo dos anos, perdendo sua essência. Mas afinal, o que provocou a ausência desses artistas no cenário musical sertanejo?
Para uma melhor compreensão desse cenário, realizamos uma pesquisa anônima com ouvintes de sertanejo tanto maranhenses como de regiões próximas, onde compartilharam seus pontos de vista e reflexões a cerca desse problema. Um dos participantes destacou que a principal causa do distanciamento de artistas negros seria a busca de estar mais próximos de suas origens. “O gosto e o apego musical dos negros está bem mais próximo de suas origens, tipo samba, axé, forró e seus derivados. O sertanejo é um estilo mais embranquecido, por esse motivo há uma dificuldade maior do negro fazer sucesso no sertanejo, inclusive a aceitação”, menciona.
A música sertaneja, ao longo de sua história, passou por diversas mudanças com a incorporação de novos ritmos e estilos, atravessando um processo de modernização. Esse processo fez com que o gênero incorporasse novos padrões estéticos e de embelezamento, seja na sonoridade como na composição de seus artistas. Isso resultou na predominância de artistas brancos dentro gênero, dificultando a ascensão de artistas negros que não alcançavam esse ideal. Outro participante pontua. “Hoje, o gênero sertanejo é dominado por brancos”, destaca indicando a consolidação desse padrão dentro da indústria fonográfica.
Segundo o pesquisador Rogério da Palma em seu artigo “Modernização, racialização e branqueamento na música sertaneja” de 2022, a exclusão de artistas negros não é acidental. Após a Proclamação da República no final do século XIX, havia a necessidade de definir uma identidade cultural nacional. Esse desejo se intensificou durante a década de 1930, período em que muitas manifestações culturais que até então eram reprimidas pela elite brasileira passaram a ser alçadas a símbolos culturais do país, como o samba, por exemplo.
Essas expressões foram apropriadas pela população branca, desenvolvendo narrativas racializadas que levaram ao seu embranquecimento. Algo semelhante ocorreu com a música sertaneja que, mesmo com suas origens multiculturais, foi moldada para atender um mercado predominantemente branco, contribuindo para o esquecimento de artistas negros pioneiros no gênero e a exclusão de artistas negros contemporâneos do gênero.

Essa marginalização tornou evidente os obstáculos que muitos deles enfrentam para ingressar no mercado musical sertanejo, como o preconceito e a discriminação. A indústria do gênero tende a criar perfis padronizados para o mercado, favorecendo perfis específicos em detrimento de outros. Esse cenário perpetua barreiras estruturais capazes de limitar a diversidade e a representatividade desses músicos dentro do sertanejo.
O Processo de Modernização do Sertanejo
O sertanejo em seu início buscava contar a realidade da vida interiorana por meio dos causos folclóricos, histórias que ajudam a preservar a cultura e as tradições de uma região, em suas letras. O gênero foi gradualmente se modificando e integrando estilos mais modernos, um dos principais exemplos dessa evolução é o sertanejo universitário, um subgênero que surgiu no início do século XXI. Misturando elementos do pop e da música eletrônica, trazendo uma abordagem mais jovem e urbana ao estilo. O público ouvinte tornou-se cada vez maior, especialmente entre os mais novos.
O sertanejo atual também se aproximou do universo agro, refletindo a forte ligação do Brasil com o agronegócio. Muitas músicas exaltam a vida no campo, retratando um cenário idealizado pelas riquezas, caminhonetes de luxo e grandes rebanhos de gado. Essa visão, embora glamourizada, reforça a identidade rural na cultura popular, ao mesmo tempo em que pode distorcer a realidade vivida por muitos trabalhadores do setor.
A artista imperatrizense de 18 anos Maria Luísa Cruz Vieira, conhecida como Malu, compartilha sua visão sobre o sertanejo atual e as transformações pelas quais o gênero tem passado. Para ela, o sertanejo romântico e o sertanejo universitário se distanciaram bastante das raízes tradicionais, que retratavam o cotidiano do homem do campo e a simplicidade da vida no interior.
A Falta de Representatividade e Visibilidade de Artistas Negros
“Inexiste artistas negros no gênero, mulheres negras ainda muito menos”, afirma um professor. Outro aspecto importante apontado na pesquisa é a ausência de representatividade no meio sertanejo, algo que reflete a desigualdade racial ainda muito presente na sociedade brasileira. Um dos participantes da pesquisa diz inexistir artistas negros no gênero e mulheres negras menos ainda, o que nos faz refletir sobre como o apagamento dessas referências faz com que novos talentos não enxerguem possibilidades dentro do gênero, perpetuando o ciclo de exclusão. Além disso, há uma percepção de que a evolução do sertanejo contribuiu para a diminuição da presença negra, isso pode estar relacionado às mudanças na sonoridade e no público-alvo do gênero, que passou a dialogar cada vez mais com mercados que historicamente não valorizavam artistas negros.
A falta de visibilidade nas mídias como rádio, televisão e plataformas digitais é um dos principais entraves para a inclusão, especialmente no cenário sertanejo. Segundo um dos entrevistados, a escassez de oportunidades se deve, em sua maioria, à pouca divulgação dos artistas negros atuantes no gênero. A ausência de espaço dificulta o acesso ao público que acaba por desconhecer o trabalho desses artistas, tornando mais desafiadora a consolidação de suas carreiras. Além disso, a falta de reconhecimento da contribuição desses artistas permite a perda de riqueza cultural muito presente nas fases caipira e romântica do gênero, assim como o reforço de estereótipos e a limitação da diversidade musical.
O apagamento de artistas negros na música sertaneja não é apenas um reflexo da indústria musical, mas um sintoma de um problema estrutural mais profundo. A exclusão histórica e a falta de incentivo à diversidade dentro do gênero reforçam desigualdades que vão muito além do campo musical, refletindo um Brasil onde ainda há barreiras latentes para a plena representatividade.
“Vejo dificuldades do negro artista crescer nesse campo, inclusive por uma questão de identidade, como já falei, o sertanejo é embranquecido…”
O sertanejo, que nasceu da fusão de diversas influências culturais, é frequentemente percebido como um gênero que, ao longo dos anos, se distanciou de suas raízes afro-indígenas. O processo de embranquecimento fez com que a música sertaneja se consolidasse como um símbolo de uma identidade majoritariamente branca, ao mesmo tempo em que reforçou a ideia de que a população negra estaria mais conectada a ritmos como samba, axé, forró e seus desdobramentos. Essa visão, no entanto, ignora a contribuição histórica de artistas negros que, mesmo invisibilizados, ajudaram na construção da sonoridade e na evolução do gênero.
É essencial ampliar o debate e lutar para uma maior representatividade de artistas negros na música sertaneja. Criar espaços, promover uma maior divulgação de seus trabalhos e reconhecer sua relevância na construção do gênero, passos fundamentais para tornar o sertanejo mais diverso e inclusivo. A cultura brasileira é plural, e essa pluralidade precisa estar refletida em todos os campos. Apenas ao romper com paradigmas excludentes será possível construir uma cena sertaneja que verdadeiramente represente a riqueza e a diversidade do Brasil.
Produto desenvolvido por acadêmicos do curso de jornalismo da UFMA/Imperatriz na disciplina de Leitura e produção textual II, coordenado pela professora Camila Viana, e publicado no site Região Tocantina, editado pelo professor Marcos Fábio e diagramado por Eduardo Jorge.